O que eu resolvi, grávida de cinco meses da Sabrina, foi deixar de trabalhar em redações. Decidi que a cadeira ruim já fazia doer demais as costas, que era fisicamente sofrido ficar em fechamentos até 23h ou mais, que aturar certas explorações por aquele dinheiro não compensava e que não queria mais passar perigos em trânsito da madrugada. Peguei o boné e fui ser freelancer - trabalhar por empreitada e, na soma, amealhar um salário fazendo minha própria agenda. Deu certo. Bom, acho que deu certo.
Essas decisões não são fáceis de tomar, mas vez por outra aparecem na vida de uma moça que quer também ser mamãe. "Casar ou comprar uma bicicleta", o cacete: garotas sempre vão preferir casar e depois comprar casa, carro, berço E a bicicleta. Bicicleta da Barbie, de preferência. Quase todas as moças, na verdade. As que não querer o combo marido/filhos estão dispensadas de certas encruzilhadas, as sortudas. As demais, bom, essas um dia vão se pegar pensando "não seria melhor mandar o chefe se foder e ir cuidar do meu ninho?".
Minha opção foi essa, mas não foi fácil como pensam. É, muita gente me questiona se isso dá certo e como dá certo. Não acreditam muito que seja possível cuidar da criançada e trabalhar em casa dispensando a ajuda de babás e empregadas e manter a sanidade e a conta bancária. Fácil, eu digo, não é. Tem dia que eu penso "graças aos céus pela existência da rede nas janelas, senão eu pulava...".
Mas na maioria deles, acho que fiz uma boa coisa. Não sei se conseguiria, até hoje, passados seis anos daquela decisão, sair de casa pra trabalhar às 8h e só voltar uma dúzia de horas depois, quiçá mais. Tudo bem, eu ganharia muita bufunfa extra. Porque quando perguntam "mas dá pra pagar as contas?", eu digo que dá. E só pra isso, viu? Pago as contas e sobra um trocado pro cinema e outro pra padoca. É assim que dá certo: sabe aquele seu salário X? Pois é: o meu deve ser metade de X. Talvez um terço de X. E se você for sênior na sua profissão, meu X deve parecer o PIB de um país africano perto do seu PIB sueco.
É verdade, porém, que minha conta é outra: eu pego o X e penso que X/2 não precisará pagar alguém pra cuidar das minhas filhas e da minha casa; e que X/4 não precisará pagar gasolina, estacionamento, almoço, roupas de trabalho, o trago da happy hour e a sessão do analista. Então o X é magro, mas de repente nem tão magro... só esbelto.
Mas é assim, uai, nem sempre se pode ter tudo. Quer dizer: eu acredito que se pode ter tudo, sim. Dá para ser mãe presente, dona de casa lustrosa, esposa alegrinha, profissional cheia da grana. Custa um bocado de horas, quase dá pane mental e surte uns efeitos colaterais, mas dá. O caso é se a gente QUER ser tudo isso.
Eu já decidi que fico feliz de conseguir ser marromêno na maioria dos quesitos. Foi a minha decisão: ser jornalista que ganha pouco, dona de casa que deixa uma louça ou outra pra amanhã, esposa que surta de vez em quando. E mãe pra toda hora. Sou eu que dou banho, coloco na cama, dou beijinho, conto história, danço de pijama na sala, faço a trancinha e a maquiagem de bruxa, enfio a comida na goela, explico, consolo, faço cócega, mando e desmando. Conheço cada muxoxo das minhas filhas, cada feição, cada mania.
Quando penso nisso, decido que a decisão foi a melhor. E claro que me pego duvidando também - e considerando se um dia vou ouvir um "te odeio", um "você não faz nada pra mim" ou um "não vejo a hora de sair dessa casa". Talvez aconteça, né. A gente nunca sabe. Mas a decisão foi minha e é reiterada todos os dias, até naqueles em que a conta bancária grita em vermelho e que dá vontade de fazer a mala e partir.
E se um dia te surgir essa encruzilhada pela frente, desejo uma boa decisão. Seja uma ou outra, que seja sua. E seja a certa.