Procura-se um médico já com alguma experiência, mas não um matusalém que já se encheu o saco de humanos e não tem mais paciência de ouvir uma reclamação de dor.
Procura-se um médico que faça consultas de mais de 5 minutos - porque eu gosto de profissionais que levam 5 minutos apenas nos cumprimentando, perguntando da família, do trabalho e do lazer. Porque, eu acho, tudo isso influi na nossa saúde e assim ele tem um embasamento de fato.
Procura-se um médico que, por outro lado, não tenha um consultório abarrotado onde você chega às 14h conforme combinado previamente, mas a patricinha que marcou encaixe às 12h e apareceu 14h15 passa na sua frente. Enfim, procura-se um médico que marque um consulta por cada meia hora, sei lá, e respeite a fila. Ou marque a cada uma hora, que seja. Médico não devia ser drive-thru, oras.
Procura-se um médico que examine com atenção, afinco, concentração. Procura-se um médico que use mais do que um palito de madeira molambento como método de análise - e que não saiba só dizer "ah, é uma inflamação, toma aqui esse antibiótico por 7 dias e some da minha frente". Mesmo que não diga a parte final.
Procura-se um médico que peça exames com critério, que administre pílulas com parcimônia e, principalmente, que não nos trate como imbecis. Que fale, explique, desenhe se for o caso, mas diga certinho o que há de errado, porque aconteceu, como consertar e um modo para que não ocorra de novo.
Procura-se um médico que atenda pelo plano, mas não fique desgostoso pela ninharia que recebe dessas merdas dessas empresas de seguro e nos atenda porcamente por causa isso. Ou procura-se um médico que, rebelde, não atenda os planos então - mas cobre o justo, dê recibo e faça por merecer.
Procura-se um médico que atenda o telefone nas emergências (e não com voz de ódio, preferencialmente). E se não puder atender, porque médico também é filho de Deus e a gente respeita isso, que retorne a ligação. Retorne breve, não cinco dias úteis depois que a criança já sarou, tá?
Procura-se um médico gentil, amável, tranquilo e consciente, que não faça apostas e nos deixe de cabelo em pé para depois o exame mostrar que não era nada tão grave. E, se for grave, que seja ainda mais doce para seguir em frente conosco.
Procura-se um médico esperto e inteligente, que use de técnicas modernas e também veja o poder que tem o chá da vovó em certas horas. Um médico que não saiba só do que é seu, mas possa também cruzar informações e descobrir quem é a alergia, de onde ela vem e para quem trabalha - e que não receite a mesma pomada inócua 50 vezes.
Procura-se um médico sabido, não sabichão; sério, não sisudo; eficaz, não fascinado pelas viagens-prêmio dos laboratórios e que joga qualquer raticida na nossa goela.
Ao procurar, me dizem que eu quero o impossível. Que isso antigamente se chamava "médico de família", que conhecia as pessoas, visitava em casa e resolvia de indigestão a unha encravada. Que isso não existe mais e que o negócio agora é ficar feliz por não ter uma perna amputada sem necessidade. Mas eu não me acostumo com pouco. Ainda sonho com um bom doutor que queira ajudar porque se importe e porque prometeu fazer isso. É vocação mesmo, tratar da saúde alheia. Eu espero que eles todos ouçam esse chamado, então.
