domingo, 1 de julho de 2012

Kuda para sempre

A rigor, vale dizer que, se me pedissem pra desenhar o rosto da Kuda, eu com certeza acabaria errando em quase tudo. É que eu só a vi, e de relance, uma única vez. Foi no lançamento do livro que escrevi com minhas sempre sócias, Clarissa e Vivi. A Kuda, tia da Vivi, foi nos prestigiar - e apesar de querer muito agarrar nas mãos delas e agradecer por tudo e mais um pouco, a pilha de livros acumulada me impediu da tietagem explícita. Foi uma pena. Foi uma pena que, na semana que passou, eu tenha perdido em definitivo a chance de dizer pessoalmente pra Kuda como eu a admirava.

Eu não saberia dizer o nome completo da Kuda, o endereço dela, qual carro dirigia - e mesmo se ela dirigia. Mas eu sei que a Kuda era exímia trabalhadeira manual, boa de cozinha, dona de dedos verdes pras plantas crescerem lindas. Sei que ela também era chapa de santinhos que providencialmente atendiam suas preces (e ajudavam todos nós nessa doce tabela). Sei que ela tinha dois filhos que são dois príncipes e que pensava em comprar um sítio. Eu passei a semana pensando na Kuda, em como esse sítio teria sido um paraíso pelas mãos dessa mulher e em tudo isso que a gente é.

Por causa da Kuda é que eu sempre relembro à Sabrina que ela 'fala mais que o homem da cobra'. O significado da parábola foi embora com a Kuda, eu acho, mas pra mim vai seguir fazendo sentindo. Ou sentido nenhum, mas eu repito porque é engraçado demais pra não utilizar.

A Kuda, sem saber, me ensinou um bocado - porque ela ensinou pra Vivi, que me repassou. Mas o que ela me mostrou melhor e afinal foi algo que todo mundo deveria matutar um pouco: o que a gente faz, diz, pratica não fica só com a gente ou com aquela meia dúzia de sempre. Muita coisa transcende, especialmente quando a gente é capaz de ser tão incrível a ponto de deixar um positivo legado.

Não precisa ser o legado maior do mundo - a fortuna do Eike, os gols do Pelé, a boca da Jolie. Que seja uma receita de torta fantástica. Que seja um gesto característico. Que seja um modo de agir que toque mais outro alguém. A gente é capaz de marcar quem a gente nem conhece quando faz algo bem feito.

Em tempos de comunicação muito ligeira, quando os dedos às vezes trabalham mais rápido que o bom senso, tudo o que a gente reflete e espalha vai lá tocar em alguém, é certeza. Muitíssimas vezes, em quem a gente nem sequer imagina. Então, se for o caso, levar uma vida preciosa e espalhar boas coisas é a melhor escolha de todas. O que a gente pode fazer de bem feito vai tomar força.

A Kuda fez tudo muito, muito bem feito. Por isso que ela pode ter ido embora de um certo modo, mas nunca por completo. Quem ela era vai ficar, se traduzindo em ações que ela semeou aqui, ali, acolá... E quem, como eu, não a conheceu também pode aprender bastante com isso.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Tudo em família

Família devia ser mais sobre papos no sofá, almoços na cozinha e chacrinha no quintal do que sobre quantos cômodos de fato existem naquela casa e 'quem é dono de qual'.

Família devia ser mais sobre festas de aniversário, festas de casamentos, festas de recasamento, festas de Natal, Hanukkah e de formatura da caçulinha no jardim da infância. Família devia ser mais sobre animação do que sobre o tédio de ver aquela mesma gente todo dia.

Família devia ser igualmente sobre o pai, o filho, a mãe, a filha, a tia, os primos e até os cunhados, que cunhado também é gente - e é família, querendo ou não.

Família devia ser mais, muito mais, sobre um sanduíche safado comido à meia-noite sobre a pia numa conversa alegre do que sobre jantares com sete pratos sobre os quais ninguém fala.

Família devia ser mais sobre 'fala na cara' e menos sobre 'você viu o que aquela zinha da mulher do primo do Rodolfo disse da Zoraide, a nora da minha prima?'. Porque em família de verdade isso aí nem importa. E quem é a Zoraide, avemaria... É família?

Porque família devia ser mais, inclusive, sobre gostos partilhados, receitas dividas, passeios que todos adorem, reuniões em torno de um pote de sorvete napolitano vagabundo - e que seja com a família escolhida, se for o caso, e não aquela imposta.

Família devia ser mais sobre vontade e menos sobre obrigação.

E devia ser menos sobre formalidade de tapetes imaculados num living room onde ninguém entra e mais sobre um arraiá montado fajutamente na sacada diminuta com toalha de chitão, barba de rolha queimada e uma jarrona de quentão.

Família devia ser mais sobre antigas fotos repassadas entre risadas. Mais sobre histórias absurdas que só uns poucos lembram (e o resto preferiu esquecer). Mais sobre um filme terrível revisto às gargalhas. Mais sobre tradições bestas passadas de geração para geração, que repete a besteira só porque 'a minha tia que ensinou, uai'.

E devia ser menos sobre a necessidade louca de ir nos eventos que não se quer ir, menos sobre cobranças do que não é pra se cobrar, menos sobre a retórica infinita da rotina sob o mesmo teto. Família não é isso. Isso é emprego.

Família devia ser mais sobre cuidar em conjunto de todas as crianças e de todos os velhinhos - sem tempo pra picuinha, faz favor, que as crianças percebem que são um empecilho e os velhinhos percebem que são um fardo. E nenhum membro de nenhum família devia se sentir assim.

Família devia ser mais sobre 'a união faz a força' - ou sobre 'a União faz açúcar e com ele a gente bate um bolinho, conversa e resolve tudo o que for preciso, sei lá.

Família devia ser menos sobre 'é assim que você deve fazer' e mais sobre 'como é que você prefere fazer, me diz que eu ajudo'.

Mas família também é como é, né. Nem mais, nem menos, só a família mesmo.



terça-feira, 29 de maio de 2012

Fui, vi e venci

Querida Vivi,

Espero que o seu retorno até em casa tenha corrido bem, amiga. Bom, eu sei que tudo foi bem, porque já trocamos mensagens. Esse mundo de hoje é muito ágil mesmo. Pensa só: em coisa de um mês a gente combinou uma viagem, nos encontramos ainda no aeroporto, nos abraçamos feito umas Mirtes, batemos perna até a perna quase cair, compramos bobagens, comemos bobagens e falamos tantas, tantas bobagens... Agora eu fico aqui, vez por outra só lembrando como foram nossos dias nova-iorquinos - e como viajar tira e põe o melhor de/em nós.

O bom é que foi bom do primeiro ao último minuto. Coisa incrível, porque viagem sempre tem aquela hora não tão boa, aquele banzo, aquela viela escura que a gente quebra errado e em vez de achar uma catedral acha uma capela caindo aos pedaços... Mas não essa. Essa foi incrível desde sempre. Quer dizer: claro que a Olívia ficou com febre no dia da minha partida, obrigando a choro desbragado no banheiro, ameaça de não ir mais e uns 57 "por que comiiiiigoooo?".

Mas, depois disso, eu fiz a mala e ganhei uma carona pro aeroporto com os melhores e mais gentis amigos que uma pessoa pode ter. Te contei que Leo e Bia me buscaram, me levaram, carregaram minha mala, estacionaram sob aquele preço absurdo, fizeram check-in comigo, tomaram cafezinho, esperaram comprar um livro e só me soltaram na hora do embarque? Eu só queria chorar ao sair de casa, mas depois eles me acalmaram e cuidaram tanto que eu só queria rir.

E eu ri. Eu ri de leste a oeste quando a Eva chegou no avião e pediu licença e sentou ao meu lado. Eu nunca tinha visto a Eva na minha vida, mas ela virou minha amiga de infância em coisa de 18 minutos. Ela conversou tanto, foi tão legal e animada, tão coração aberto e querida, que eu nem vi aquele passarinho de aço periclitante sair do chão - o que foi um avanço pro meu pavorzinho de decolagem. Eva e eu fomos companheiras pelas 10 horas de vôo e sinto que agora somos amigas, ainda que distantes. Porque a Eva viu NYC comigo pela janelinha e emocionou também.

Eu te disse, quem não emociona com Nova York bom sujeito não é. Tão cheia da pose, essa cidade, e ainda assim tão descolada e receptiva. E tão, tão recheada de boas coisas. Lembra nós, já no primeiro dia, tomando café em Times Square e caminhando até fazer bolhas pra ver o Rockefeller Center, a loja de brinquedos essencial que é a FAO Schwartz, o Central Park? E depois sacramentando o dia no nosso hotel bem localizado e confortável? Tá bom, eu vou ignorar a parte da barata no teto e de como eu gritei feito maricas ao dar com o sapato e vê-la quase cair em cima de mim. Nova York não foi sobre baratas, e sim um barato.

Até hoje sorrio ao pensar na gente checando aquele Museu de História Natural do subsolo ao quinto andar, observando tudo e nos maravilhando com a perfeição dos displays dos animais, com as roupas dos povos todos, com as maquetes, as ossadas, o fundo do mar ali na nossa frente. Eu voltaria mais 17 vezes. Até pra provar aquele macarrão com queijo infantilóide e delicioso que comemos no bandejão do museu.



Também fecho os olhos pra lembrar da visita ao Metropolitan, imperdível, onde eu finalmente consegui ver os Edward Hopper ao vivo e não apenas no poster descarado que eu mantenho na parede sobre a minha cama. E eu sei que você sonha com o Met também. Com a parte de arte contemporânea e com a lojinha cheia de coisa linda. São bons, esses americanos, em amealhar uns troços egípcios pra nos encantar e depois botar uma lojinha no final pra nos tirar uns trocos. E são excepcionais os nossos comentários quando em um museu. Nunca esqueço de você olhando séria aquela prateleira repleta de vasos de vidro do período grego e comentando "mas como pode, os copos lá de casa não duram uma semana, como esses aí ficaram inteiros tanto tempo?!". A gente devia gravar um audio-guia alternativo pra museus.



Também não preciso dizer da minha emoção ao caminhar o High Park todinho na sua companhia, olhando aquele jardim suspenso fantástico e pleno de verde, de trilhos, de passarinhos, de florzinhas e de gente que curte, como nós, ver uma área ser erguida e recuperada apenas como uma ideia excelente. Ainda não me conformo de não ser dona de um apartamentinho colado no High Park. Mas quem sabe, um dia, o Minhocão se transforma...



Como nem só de caminhada vivem as pessoas de bem, eu penso e repenso também - e comento com todo mundo, já provocando um enjoamento no pessoal - sobre o Eataly. Que espetáculo culinário, hein, Vi? Seo Mario Batali, aquele gênio, apanhou um galpãozão jogado às traças ali na 5th com a 23st e fez o que poucos imaginaram fazer: um misto de mercadão, loja, paradinha gourmet, restaurantes (uns 9 ou 10?). Fiquei feliz de termos vencidos os 40 minutos de espera pela nossa mesa intimista e de ter saboreado um dos melhores macarrões da minha vida.



Eu também amei demais o almocinho no Pastis, o giro pelo Village e pelo Soho (agradecida pela paciência em me seguir quando eu embananei com o mapa), as idas ao Chipotle (agradecida por ir duas vezes ao meu mexicano favorito), as paradas na H&M pra caçar roupas pras meninas (agradecida por ajudar a segurar todo o fardo adquirido), as paradas na Uniqlo (agradecida por concordar comigo que essa fast-fashion japonesa é um templo de amor ao vestuário), os cafés da manhã, as caminhadas sem fim e o fim dos dias jogadas cada qual em sua cama fofa, comendo cheesecake e assistindo meu amado HGTV, o canal da bricolagem.

Foram poucos, mas foram dias adoráveis. Ano que vem, onde mesmo? Já quero reservar passagem.

Com amor,

Flá

PS.: Você foi embora cedo no domingo e eu nem pude te contar que comprei minha primeira saia com nome de estilista na etiqueta, que fiquei na fila na loja de fotografia, que entrei na Toys'R'Us e saí com uma braçada de besteiras, como um dinossauro de pelúcia e um tubo de pastilhas pra colorir a água do banho das meninas. Te ligo, linda. Saudades.



sexta-feira, 27 de abril de 2012

I want to be a part of it

Querida Vivi,

Amanhã já vou descer a mala do armário alto, separar a mochila e começar a rechear ambas com meus trapinhos. O seguro já está impresso, assim como o e-ticket, e o passaporte foi tirado da capa e sacudido até a poeira sair toda. Mas, mesmo com todas as preliminares, acho que só vou acreditar quando desembarcar. Eu, você, Nova York!? Essa história não vai acabar bem... Pois ela já começou demais.

Te contei, né? Dono da Casa combinou almoço comigo e chegou atrasado, aquele pulha, sabendo muito bem o que eu penso de gente que atrasa. Bom, chegou atrasado e com uma sacola da livraria. Eu segurei o discurso e perguntei só por que, diabos, ele tinha atrasado pra passar na livraria. Disse que era um presente pra mim. É um encantador de serpentes mesmo, sempre sabe o que dizer. Bom, eu estranhei ganhar um livro sem motivo e, mais ainda, quando abri e vi que era um guia de Nova York. O meu estava velho e atrasado mesmo - WTC ainda na página 42, vê se pode... - mas me dar um guia? Eu estranhei, ele mandou abrir a contracapa. E ali, singelamente escrito a lápis num post-it, o número do vôo que ele reservou em meu nome usando as tão suadas milhas.

Preciso dizer que eu chorei que nem bebê com fome e assustei até o garçom, que achou que eu me desesperei pelo couvert? Pois sim. Esse homem me mata dando esse presente de sonho. E foi pacote completo, né? Já tinha falado com a minha mãe pra vir ajudar com as meninas, já tinha falado contigo pra ir me encontrar na Grande Maçã... Dissimulada, ficou de mexerico com meu marido pelas minhas costas!

Bom, daí foi passar um mês desejando que o relógio rodasse mais rápido e repassando mentalmente como será nossa visita ao Museu de História Natural pra ver a exposição dos animais bioluminescentes, como será nosso hot-dog de carrocinha em plena escadaria da Biblioteca, como vamos saltitar pelas vielas do Central Park, como vamos nos perder tentando achar lojinhas, como vamos almoçar lindamente no Prune... Te falei do Prune, né? Da chef que escreveu "Sangue, Ossos & Manteiga", que eu acabo de ler e é um must-read pra quem curte uma cozinha e uma saga de família.



Também teci sonhos sobre finalmente ir ao Brooklyn, naquele restaurante que dá de fundos com a Ponte, coisa de cinema. Dizem que lá eles fazem sobremesas supervalorizadas que valem cada mordida. Se for o caso, a gente testa - e, se não for, a gente apenas vai na Grimaldi's comer pizza em pé, encarando a fila na porta e tudo. Forno de tijolo a lenha, minha amiga, forno de tijolo a lenha. Americanos param nele. Nós também.


Isso tudo pra não te contar que, sim, a senhora vai camelar comigo High Line afora. Sabe, aquele parque feito por sobre um antigo "minhocão", os trilhos desativados de trem. Pois é: deve dar uma hora de caminhada, mas felizmente nosso preparo físico é ótimo (ainda que não). A gente para de vez em quando nos recuos pra descansar e olhar a vista de 4 metros de altura, tá?


São tantas as possibilidades, tão poucos dias... Mas eu sei que a gente aproveita. A gente aproveitou até aquela viagem até Araraquara pra fazer palestra pra seis pessoas, não foi? Então. Pode inventar aí suas barbaridades também, vamos botar tudo na lista. E sair da lista também e deixar o clima e o vento nos carregarem pela cidade grande. Ela não oprime, isso foi coisa que inventaram. Nova York é uma delícia, uma farra, um lugar pra quem quer ver de tudo ao mesmo tempo. Eu gosto, sempre me encontrei lá. Essa mania de uma turma aí dizer que é amecanizar demais gostar de Nova York ou que é ridículo achar que se pode curtir uma megalópole ou que é um lugar sujo, violento, feio, "besteira viajar pra fora com tantas coisa linda no Brasil"... nossa, coisa mais antiga. Até porque, eu não viajo pra fora, eu sempre viajo pra dentro. Pra dentro de mim.

E eu sei que você também. E é por isso que a gente vai curtir tanto. Ai, vai ser tanta coisa pra conversar e rir e sentir que eu acho que vamos precisar de um cirurgião plástico pra tirar o sorriso das nossas caras! Te espero no portão de desembarque 7h30 ou coisa assim, conforme combinado, hein? Levarei bolacha Passatempo de presente.

Com amor,

Flá

PS.: New York, New York, com todo respeito aos clássicos, é coisa do passado.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Essa mania de fuçar o mundo

Fazendo um retrospecto aqui, eu acho que a minha sanha viajante começou mais ou menos aos 7 anos. Era uma época em que o meu pai viajava muito, quase que semanalmente, e eu atendia o telefone verde-água de disco pra escutar coisas como "tô aqui em Salvador, Flá, comendo camarão de frente pro mar!". Por mais que eu soubesse que ele ralava doidamente visitando concessionários e descascando só pepino, ouvir que ele tinha tomado um avião da Vasp, comido a comidinha que vinha na bandejinha, andado por estradas e ruas novas e comido camarão de frente pro mar me dava até uma torção no estômago. Ah, eu queria muito aquela vida. Camarão incluso.

Eu só fui comer camarão de frente pro mar em Salvador faz uns quatro anos. Mas foi um deleite que quase me fez chorar - e olha que deixaram pra mim a cadeira de costas pro mar, obrigando a uma manobra a cada onda. Foi como ganhar um selo na minha caderneta "Coisas para Fazer e Descobrir pelo Mundão". Sim, eu tenho essa caderneta imaginária. E ela é lotadinha de espaços em branco e de outros já preenchidos.

Acontece que, ao viajar, não dá pra ficar só ali pelo circuito padrão dos monumentos famosos, museus imperdíveis e catedrais de desmontar arcadas dentárias. Ao viajar, eu preciso de caminhos e sonhos mais específicos. Sempre foi assim. Eu fui com o prazer maior do mundo ver a Fontana di Trevi, me acotovelar com a turba e lançar a moedinha pelos ares; mas eu também precisei escarafunchar o mapa com lupa pra encontrar a Fontana delle Tartarughe, que fica num beco escuro no meio dos edifícios de 400 anos, porque tinha visto a foto dela em um livro da biblioteca quando tinha 12 anos.

Meti na cabeça que precisava ver a fonte, reboquei Dono da Casa por horas, mas achei a danada. Mais de uma década depois, ainda é a minha favorita em Roma.

Também aceito de bom grado os toques de amigos sobre "o crepe da barraquinha da esquina daquela praça bonita" ou coisa que o valha. Faço listas, ao sair de mala e cuia, caçando os desejos antigos, as imagens que guardei na cabeça e os highlights que vi em guias, sites e etcs.. É legal demais ver ao vivo, dias ou anos depois, aquilo que estava só na nossa mente.

A internet, aliás, só veio piorar a situação da minha caderneta à espera de selos impalpáveis. Era ver um filme que aparecia aquela livraria, lá ia eu checar o site da mesma, ver o endereço, desejar pôr as garras naqueles livros e respirar aquele ar. E aí teve o agravamento fatal: Google Mapas.

Agora não dá pra ler um livro de não-ficção ou assistir um filme que saio em disparada botando endereços no rastreador de ruas pra ver a fachada do bar, do hotel, da casa onde foi filmada a cena favorita do romancezinho. Eu passeio por Londres, Tóquio, San Francisco e afins toda semana - e até já dei uma vasculhada nas estradas do Havaí pra ver que tipo de carro vou alugar pra apreciar melhor a paisagem. Um dia. Quando a caderneta implorar por um selinho "rota dos vulcões, Oahu".

Em breve eu vou partir novamente pra mais uma busca dessas sem lenço e sem documento (mentira, com lenço e com documento, porque eu sou terminantemente contra nariz escorrendo e dias inúteis na salinha da imigração). Já tem uma lista impossível com itens como o restaurante daquela chef que escreveu o último livro que eu li, o mercado mais novo aberto na grande avenida, um parque suspenso que deve ser coisa de cinema, uma exposição, um bondinho, um sorvete... Vão ser poucos dias pra muitos selos invisíveis. Mas o que se realizar, tá bom. De outra vez eu saio à caça com uma nova lista sonhadora.




Valeu a pena a caçada

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Traga Zoboo de volta. E aquele dino também, vai

Eu não vou dizer que os Octonautas são chatos, porque são umas gracinhas. Nem vou esculhambar as Princesas do Mar, porque elas também fazem esse belo trabalho de falar dos oceanos. E longe de mim avacalhar com Os Piratas e suas Aventuras Coloridas, já que são bucaneiros E artistas, ou com o Dino Trem, ou com aqueles pôneis neuróticos e fofinhos, ou com World Word - que outro dia me lembrou como se dizia celeiro em inglês. Mas eu confesso, eu sinto falta do Barney. E do Thomas. E especialmente do Zoboomafoo.

Tenho uma teoria sobre os desenhos da TV. No nosso passado, aquele vivido lá nos jocosos anos 1970, 1980 e 1990, a vida ainda estava num ritmo simplório e festivo. As ondas de violência gratuita eram quase novidade e, pra parar na frente da televisão nesse tema, só com muito Crime da Rua Cuba. Então os desenhos, reflexos de nós em animação pra telinha, podiam muito bem se utilizar de bigornas, explosivos, instrumentos perfurocortantes, substâncias químicas duvidosas e até um 'tônico para Pica-Pau' que eu tenho certeza que era misturinha de ecstasy.

Podiam, porque a vida real era clara e limpa. Como a vida de hoje é muito mais sombria e perdida, os desenhos passaram a... bom, passaram a passar um pano. É muita musiquinha, muito abraço, muito construtivismo, muita didática, muita cor, brilho e magia. Não há cavalos mexicanos tentando esmagar crânios com um violão nem ursos hippies andando em motos imaginárias. Tem só coelhinho ensinando a desenhar, uns seres discutíveis brincando no quintal e cachorrinhos franceses falando sobre como é lindo e encantador ganhar um irmãozinho novo.

A criançada cai na feitiçaria porque é tudo tão doce e fofo e legal que não tem como não cair. E nós, os pais, caimos no sono enquanto o Sportacus come mais um 'doce do esporte' (é maçã, para os desavisados).

A gente cai no sono porque, bem, escutar o Peixonauta salvar mais uma lagoa da poluição se torna um pouco repetitivo. Mas somos agradecidos. É bem provável que uma ou outra criança aprenda mesmo uma ou duas coisas com os desenhos queriduxos do que com os adultos neuróticos e fanfarrões que os circundam hoje em dia.

E o problema maior é que, depois de conhecer essa gentinha, fica difícil livrar-se dela. Eu curti o episódio da rabeca quebrada por causa do desleixo da Angelina Ballerina; eu me peguei dançandinho com o Hi-5 mais de uma vez; eu parei e sentei e pensei onde as agruras de Madeleine iriam levá-la agora; eu cantei junto uma pá de músicas que o Barney nos ensinou e aprendi sobre iguanas e lhamas com o Zoboomafoo. Ah, tem aí Aventuras com os Kratts pra tentar compensar, mas cadê Zooboo, por favor?

Sim, eu sinto falta daquele lêmure - o de verdade e o de pano, que falava ao meu coração e me hipnotizava com aqueles olhões. A molecada se pega com os desenhos e, quando eles caducam, elas passam a achá-lo ridículo e 'de bebê'. Felizmente. Significa que estão passando de fase, deixando Little People pra trás com alegria e vergonhinha - e trocando o mimo televisivo por programas de adolescentes e/ou umas coisas loucas que aparecem no Cartoon (mas eu proíbo Ben 10, logicamente, porque Supremacia Alienígena é o cacete).

Passa pra eles, mas não pra nós. E basta que alguma loja de departamentos meta no DVD o Barney entoando o clássico 'Amo você, você me ama, somos uma família feliz' que lágrimas de saudades já brotam pavorosamente nas minhas vistas. Vai ver não é saudade do dinossauro carente em si, mas de um tempo bonito.


Eu, você e... cadê Zoboomafoo, pô?!

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Mulher é tudo vaca

É sim. É tudo va-ca. A gente é vaca quando estaciona primeiro na vaga. A gente é vaca quando é promovida. A gente é vaca quando usa saia curta, quando usa decote e quando usa biquini. Na praia. Com 40 graus.

Mulher é uma tremenda vaca quando manda o subordinado homem executar logo uma certa tarefa, cobrando o resultado que ele já teria dado se o chefe fosse homem. Mulher é vaca quando se impõe e defende um ponto de vista com gana - quando, se fosse um homem defendendo, ele seria apenas "exigente". E eu simplesmente a-do-ro aquela máxima que diz: "quando ganha cargo alto, mulher vira tudo vaca". Com atenção especial pro fato de aquela vaca "ganhar" cargo alto, nunca conquistar.

A gente é uma grandecíssima vaca ao paquerar o marido de outra e é mais vaca ainda no ponto de vista da que quer o nosso marido, porque está atravancando os trabalhos. Aliás, eu já vi muito mais mulher chamando outra de vaca do que homens... uma pena. Porque os homens adoram quando nós nos chamamos assim. Dá neles um gostinho de mulher ser uma coisinha tola que se engalfinha por nada.

Já vi mulher sendo considerada uma vaca por pedir que o que fura fila tome sua linha e vá lá pro final. Já vi mulher sendo chamada de vaca porque ficou bonita demais com o penteado novo e chamou atenção. Já vi mulher sendo tratada como vaca no ônibus, no trem, no avião - e eu nunca fui de navio, mas tenho certeza que se a gente pedir uma espreguiçadeira pros folgados que sentam em uma e espalham as toalhas na outra, vão dizer que somos umas vacas.

Mulher é vaca porque tem dinheiro, porque tem prestígio e porque tem tutano. E quando não se têm nada disso, danou-se também, porque vão achar um meio de dizer que somos umas vacas, sei lá, porque "tá desempregada mas não deixa de fazer a unha".

E olha, a maior vaca de todas é a que joga charme. Ou não joga charme. Ou, mais que todas, a que aceita sair com o sujeito, mas depois decide que não está a fim do tico-tico-no-fubá - e, NOSSA, essa vai ser chamada de vaca pra todo o sempre. Ter uma escolha é a maior vaquice se que pode fazer.

O diabo é que mulher é vaca até quando é a presidenta da nação. Podiam dizer que é incompetente, pouco diplomática, lerda, grossa, chata, feia, boba... Mas escolhem dizer que "é uma vaca mesmo". Nenhum homem já foi repreendido e chamado de boi. Muito menos um presidente.

O que se ataca no homem é a virilidade - e todos os que não condizem logo são ditos "bichas". Com a gente é específico: vaca. Eu custo a entender como isso foi virando xingamento, mas acho que quer dizer que somos um bicho que dá pra todos os machos do bando. O que se ataca na mulher, portanto, é precisamente o sexo dela.

Claro que existe mulher coisa-ruim, como homem coisa-ruim. Claro que algumas são desonestas, maldosas, estúpidas, etc. e quetal. Mas por que tantas e tantas vezes todas nós somos umas vacas, aí é curioso de engolir. Eu sei é que eu já devo ter sido considerada uma vaca muitas vezes. Mesmo não sendo uma.

Eu gostaria muito que isso caísse em desuso. Globalmente - porque, ó que interessante, mulher é vaca em diversas culturas e idiomas. Eu curto as vacas e acho uma graça seus padrões lisos ou malhados e aquele leite gostoso que elas dão... mas eu não acho que as mulheres deveriam ser chamadas de vacas. Na minha presença muitas vezes elas são - e eu quero nem saber quem é que está rodeando a mesa e se a birita já subiu à mente, eu boto o Jabaquara em campo se ouvir uma coisa assim.

Quem diz que mulher é tudo vaca tem muito o que pastar.