sábado, 25 de agosto de 2012

Da vida doméstica

Fácil desejar perder uns quatro quilos. Difícil fazer isso sem entrar no cheque especial. Porque queijo branco custa muito mais que muçarela; tudo o que é integral tem valor extra, assim como os orgânicos; quinoa vale mais que arroz, peixe tá pela hora da morte, o azeite extra-virgem é só pros milionários; e eu nem vou começar a falar sobre as castanhas. Se os esquilos soubessem o patrimônio que têm em patas, os humanos já teriam há muito sido dominados.

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Aliás, por falar em comida, eu peguei muito amor em um programa da TV a cabo chamado 'Cupom Mania'. Pode rir, mas é ciência pura, não mania: o show fala de pessoas que são, nos EUA, conhecidas como 'couponers'. As cuponeiras (maioria esmagadora de mulheres) são aquelas que não apenas recortam vales-compra dos jornais e revistas, mas imprimem na internet, escrevem para empresas pedindo os bônus e, no ato de compras de uns US$ 1.000, pagam menos de 10% disso. Cidadã me mata saindo do mercado com seis carrinhos de compras tendo desembolsado 20 mangos. Eu confesso que ainda não entendi por que, diabos, elas precisam estocar tanto molho de churrasco, isotônico e papel-toalha, mas vá lá: são itens que não estragam logo e podem mesmo ser estocados. Dono da Casa abomina 'Cupom Mania' com cada célula do corpo orgulhoso dele, mas eu acho que comprar um monte de produto de limpeza e artigos de toilette e pagar um nada só usando pedacinhos de papel é muita esperteza. E me corroo por dentro pensando por que, ó vida, isso ainda não existe nesse Brasil de preços absurdos.

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A TV anda mesmo me consumindo. Mas só a cabo. Se eu dependesse de televisão aberta eu já teria metido duas azeitonas na têmpora. A programação parece a mesma de 1978. Os programas de humor não me trazem um esboço de sorriso, só sobrancelhonas arqueadas em choque. Essas novelas pelas quais o povo se bate... sério, um festival de misoginia absurda e torturante. Silvio Santos está completamente gagá - e não de uma forma engraçada -, Luciano Huck só ganha mais e mais espaço e se eu ouvir a voz do Datena ou da Sônia Abrão por mais de 30 segundos minha língua enrola e eu estrebucho. Reclamam que a TV a cabo se repete muito e tem intervalos comerciais demais. Concordíssimo. Mas ainda prefiro rever 'A Lenda do Tesouro Perdido' e dizer junto cada fala do que entregar minh'alma pro Jornal Nacional.

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Essa secura me obriga a ligar o umidificador às 9h e desligar somente às 21h. Não posso abrir as janelas, porque um pó negro quase ácido invade a casa e as narinas dos menores de 8 anos, causando um bafafá. A mistura de calorzinho com névoa úmida está me fazendo crer que eu moro na Serra do Mar. Tô só esperando a chegada dos Bandeirantes.

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Viver cercada por duas menininhas doces e divertidas é tudo de melhor nessa existência. Mas como eu sinto falta de ter direito exclusivo ao banheiro... Ou eu estou no banheiro e ele é invadido por gente de cerca de 1 metro; ou eu já adentro o banheiro com elas no meu encalço, tomando a dianteira no espelho e espalhando livros pelo chão ou fazendo inventário do armarinho de cosméticos aos meus pés. Ao tomar banho, outro dia, pela enésima vez, o recinto foi violado - e vale avisar que o banheiro dá para a janela que dá para a rua que dá para outro prédio bem com as janelas sempre abertas. Se eu passar a cobrar dos vizinhos pelo peep-show, será que eu consigo comprar um banheiro só meu? Ou pelo menos uma tranca?

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Essa vida de estar muito em casa está me deixando monotemática. Preciso urgente sair desse círculo antes que eu comece a colocar bobes no cabelos e cobrir com um lenço, debruçar nas janelas e chamar a vizinhança pra café com bolo. Trabalhar em casa é lindo, mas se aproxima o dia de voltar a ter emprego, hein.


Pela hora da morte, minina...

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Gentil

- Mãe, o que é isso que você passa no rosto?
- Maquiagem, Sá.
- Eu sei, mas o que é isso aí, do vidrinho?
- É base.
- Pra que serve?
- Ah, pra dar uma ajeitada no rosto, pra pele ficar com aparência mais bonita.
- Eu posso passar?
- Claro que não, você tem o rosto perfeito de verdade.
- Eu não tenho, não. Eu nem tenho as pintinhas no nariz que nem as suas.

Aí a gente dá uns vinte apertões e beijões, enxuga discretamente os olhos molhados e dá-lhe um tapinha no bumbum mandando voltar pro Reino da Fofura, que é de onde ela deve ter vindo.

sábado, 28 de julho de 2012

Adocica, meu amor, adocica

O que é que eu vou fazer se era superengraçado tirar barato das pessoas que usavam aquelas bolinhas açucaradas guardadas em vidrinhos? A gente lá, falando sobre ciência e pesquisas comprovadas e a relação causa/efeito e a ação das drogas calculadas e o povo querendo me convencer de que a tal homeopatia faria o serviço na base de torrões de sacarose? Ah, quer conversar sobre feitiçaria liga pro Merlin, obrigada.

Mas aí, passados esses talvez 20 anos... eu sucumbi. É, eu sei, pode começar a sarrear de volta. Eu traí as minhas crenças - aquelas que eu nem sei mais quais eram - e, há coisa de quatro meses, estou dando homeopatia pra fortalecer o sistema imunológico das minhas filhas. E, quando é o caso, tratar também nariz escorrendo e inflamaçõezinhas leves. Às vezes eu ainda rio ao pegar o vidro e contar 10 glóbulos e inserir na goela das pobres. Mas ó: chega um momento em que a gente faz praticamente qualquer negócio pra ganhar uma ajuda contra os males infantis. Feio é não dar uma chance pra novas artimanhas.

O caso é que era um tal de mês sim, mês também, ver menina com coisinhas de saúde. E isso vai transtornando a minha cabeça fraca. Eu posso mover um trem na unha, mas eu não domino vírus e bactérias (ainda). Então, dado o saco cheio com a alopatia, resolvi dar também uma chance pra nova pediatra, a moça de fala mansa, gestual de monge e cara de sacerdotisa, e suas beberagens. Quer dizer, assim fica parecendo que a Doutora Fátima é um mix de Fada do Carvalho com a Feiticeira do He-Man. Mas não, ela só joga nas duas frentes: entramos com o armamento pesado quando necessário, mas também apostamos na farmácia de manipulação e aquela coisa zen toda.

Bom, a rigor eles não dizem ter nada de zen, mágico ou supernatural na homeopatia. Eles dizem que é ciência pura. Eu ainda acho discutível uma receita que manda fabricar bolinhas doces com 'germes e poeira' e coisas do tipo. De vez em quando olho bem procurando também 'balinhas de goma', 'um toque de pirlimpimpim' e 'agora misture com amor e vire à direita até o amanhã'.

O caso todo é que, há quatro meses... a coisa vem funcionando. Pegam muito menos melecas e, quando pegam, saram em coisa de dia ou dois. É claro que tem o fato de as duas estarem crescendo e ficando mais fortes e mais sabidas e parando de lamber corrimão de shopping center à menor distração dos pais. Mas, não sei, acho que as bolinhas ajudam. E aquele outro vidrinho com o líquido que tem gosto de birita também.

O diabo da homeopatia é que eles querem que eu leve a sério, mas não me ajudam (eles, no caso, são todos os envolvidos: a pediatra, o farmacêutico manipulador, os autores de livros especializados e a minha irmã, que insiste nessa coisa faz 20 anos). Faço lá as bolotas; e depois vêm as recomendações. Mantenha longe do calor e em local seco e ventilado. Bom, até aí qualquer remédio pede isso. E também não pode deixar a coisa perto de aparelhos elétricos e ondas magnéticas. Complicou, porque aqui a casa é pequena.

Então eu não posso deixar no armário das louças, porque o microondas fica ao lado; não posso deixar na bancada porque é onde carregam-se celulares e tablets; não posso deixar na sala por causa do computador e da televisão e nem na pia, no guarda-comida ou em cima da geladeira, porque bate sol em tudo isso e viola a primeira regra. Não posso deixar no banheiro porque eu tomo banho quente e o recinto não tem janela- e, quando eu acabo o banho, o local ganha o apelido de As Brumas de Avalon. Não tenho onde deixar essas bolotas; acho que vou ensacar tudo, amarrar uma corda e pendurar pra fora da janela.

E tem também a administração. Não pode dar o liquidinho em colher de metal. Não pode dar com o estômago cheio. Olha, essas meninas comem o dia inteiro como dois pequenos búfalos. Nunca tem estômago vazio aqui, a gente é meio italiano! Como proceder?

Eu sei é que eu vou dando como posso e acho que vai dando certo. Mal, eu já vi que não faz. E as meninas curtem, é como uma sobremesa que ajuda a curar. Às vezes ainda faço a gracinha de dizer 'sabia que a palavra homeopatia vem do grego homeo = bolinha e patia = açúcar?'. Mas aceito perder a piada se for pra viver com a saúde das menores mais em paz.


E, além de tudo, parecem sagu

domingo, 1 de julho de 2012

Kuda para sempre

A rigor, vale dizer que, se me pedissem pra desenhar o rosto da Kuda, eu com certeza acabaria errando em quase tudo. É que eu só a vi, e de relance, uma única vez. Foi no lançamento do livro que escrevi com minhas sempre sócias, Clarissa e Vivi. A Kuda, tia da Vivi, foi nos prestigiar - e apesar de querer muito agarrar nas mãos delas e agradecer por tudo e mais um pouco, a pilha de livros acumulada me impediu da tietagem explícita. Foi uma pena. Foi uma pena que, na semana que passou, eu tenha perdido em definitivo a chance de dizer pessoalmente pra Kuda como eu a admirava.

Eu não saberia dizer o nome completo da Kuda, o endereço dela, qual carro dirigia - e mesmo se ela dirigia. Mas eu sei que a Kuda era exímia trabalhadeira manual, boa de cozinha, dona de dedos verdes pras plantas crescerem lindas. Sei que ela também era chapa de santinhos que providencialmente atendiam suas preces (e ajudavam todos nós nessa doce tabela). Sei que ela tinha dois filhos que são dois príncipes e que pensava em comprar um sítio. Eu passei a semana pensando na Kuda, em como esse sítio teria sido um paraíso pelas mãos dessa mulher e em tudo isso que a gente é.

Por causa da Kuda é que eu sempre relembro à Sabrina que ela 'fala mais que o homem da cobra'. O significado da parábola foi embora com a Kuda, eu acho, mas pra mim vai seguir fazendo sentindo. Ou sentido nenhum, mas eu repito porque é engraçado demais pra não utilizar.

A Kuda, sem saber, me ensinou um bocado - porque ela ensinou pra Vivi, que me repassou. Mas o que ela me mostrou melhor e afinal foi algo que todo mundo deveria matutar um pouco: o que a gente faz, diz, pratica não fica só com a gente ou com aquela meia dúzia de sempre. Muita coisa transcende, especialmente quando a gente é capaz de ser tão incrível a ponto de deixar um positivo legado.

Não precisa ser o legado maior do mundo - a fortuna do Eike, os gols do Pelé, a boca da Jolie. Que seja uma receita de torta fantástica. Que seja um gesto característico. Que seja um modo de agir que toque mais outro alguém. A gente é capaz de marcar quem a gente nem conhece quando faz algo bem feito.

Em tempos de comunicação muito ligeira, quando os dedos às vezes trabalham mais rápido que o bom senso, tudo o que a gente reflete e espalha vai lá tocar em alguém, é certeza. Muitíssimas vezes, em quem a gente nem sequer imagina. Então, se for o caso, levar uma vida preciosa e espalhar boas coisas é a melhor escolha de todas. O que a gente pode fazer de bem feito vai tomar força.

A Kuda fez tudo muito, muito bem feito. Por isso que ela pode ter ido embora de um certo modo, mas nunca por completo. Quem ela era vai ficar, se traduzindo em ações que ela semeou aqui, ali, acolá... E quem, como eu, não a conheceu também pode aprender bastante com isso.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Tudo em família

Família devia ser mais sobre papos no sofá, almoços na cozinha e chacrinha no quintal do que sobre quantos cômodos de fato existem naquela casa e 'quem é dono de qual'.

Família devia ser mais sobre festas de aniversário, festas de casamentos, festas de recasamento, festas de Natal, Hanukkah e de formatura da caçulinha no jardim da infância. Família devia ser mais sobre animação do que sobre o tédio de ver aquela mesma gente todo dia.

Família devia ser igualmente sobre o pai, o filho, a mãe, a filha, a tia, os primos e até os cunhados, que cunhado também é gente - e é família, querendo ou não.

Família devia ser mais, muito mais, sobre um sanduíche safado comido à meia-noite sobre a pia numa conversa alegre do que sobre jantares com sete pratos sobre os quais ninguém fala.

Família devia ser mais sobre 'fala na cara' e menos sobre 'você viu o que aquela zinha da mulher do primo do Rodolfo disse da Zoraide, a nora da minha prima?'. Porque em família de verdade isso aí nem importa. E quem é a Zoraide, avemaria... É família?

Porque família devia ser mais, inclusive, sobre gostos partilhados, receitas dividas, passeios que todos adorem, reuniões em torno de um pote de sorvete napolitano vagabundo - e que seja com a família escolhida, se for o caso, e não aquela imposta.

Família devia ser mais sobre vontade e menos sobre obrigação.

E devia ser menos sobre formalidade de tapetes imaculados num living room onde ninguém entra e mais sobre um arraiá montado fajutamente na sacada diminuta com toalha de chitão, barba de rolha queimada e uma jarrona de quentão.

Família devia ser mais sobre antigas fotos repassadas entre risadas. Mais sobre histórias absurdas que só uns poucos lembram (e o resto preferiu esquecer). Mais sobre um filme terrível revisto às gargalhas. Mais sobre tradições bestas passadas de geração para geração, que repete a besteira só porque 'a minha tia que ensinou, uai'.

E devia ser menos sobre a necessidade louca de ir nos eventos que não se quer ir, menos sobre cobranças do que não é pra se cobrar, menos sobre a retórica infinita da rotina sob o mesmo teto. Família não é isso. Isso é emprego.

Família devia ser mais sobre cuidar em conjunto de todas as crianças e de todos os velhinhos - sem tempo pra picuinha, faz favor, que as crianças percebem que são um empecilho e os velhinhos percebem que são um fardo. E nenhum membro de nenhum família devia se sentir assim.

Família devia ser mais sobre 'a união faz a força' - ou sobre 'a União faz açúcar e com ele a gente bate um bolinho, conversa e resolve tudo o que for preciso, sei lá.

Família devia ser menos sobre 'é assim que você deve fazer' e mais sobre 'como é que você prefere fazer, me diz que eu ajudo'.

Mas família também é como é, né. Nem mais, nem menos, só a família mesmo.



terça-feira, 29 de maio de 2012

Fui, vi e venci

Querida Vivi,

Espero que o seu retorno até em casa tenha corrido bem, amiga. Bom, eu sei que tudo foi bem, porque já trocamos mensagens. Esse mundo de hoje é muito ágil mesmo. Pensa só: em coisa de um mês a gente combinou uma viagem, nos encontramos ainda no aeroporto, nos abraçamos feito umas Mirtes, batemos perna até a perna quase cair, compramos bobagens, comemos bobagens e falamos tantas, tantas bobagens... Agora eu fico aqui, vez por outra só lembrando como foram nossos dias nova-iorquinos - e como viajar tira e põe o melhor de/em nós.

O bom é que foi bom do primeiro ao último minuto. Coisa incrível, porque viagem sempre tem aquela hora não tão boa, aquele banzo, aquela viela escura que a gente quebra errado e em vez de achar uma catedral acha uma capela caindo aos pedaços... Mas não essa. Essa foi incrível desde sempre. Quer dizer: claro que a Olívia ficou com febre no dia da minha partida, obrigando a choro desbragado no banheiro, ameaça de não ir mais e uns 57 "por que comiiiiigoooo?".

Mas, depois disso, eu fiz a mala e ganhei uma carona pro aeroporto com os melhores e mais gentis amigos que uma pessoa pode ter. Te contei que Leo e Bia me buscaram, me levaram, carregaram minha mala, estacionaram sob aquele preço absurdo, fizeram check-in comigo, tomaram cafezinho, esperaram comprar um livro e só me soltaram na hora do embarque? Eu só queria chorar ao sair de casa, mas depois eles me acalmaram e cuidaram tanto que eu só queria rir.

E eu ri. Eu ri de leste a oeste quando a Eva chegou no avião e pediu licença e sentou ao meu lado. Eu nunca tinha visto a Eva na minha vida, mas ela virou minha amiga de infância em coisa de 18 minutos. Ela conversou tanto, foi tão legal e animada, tão coração aberto e querida, que eu nem vi aquele passarinho de aço periclitante sair do chão - o que foi um avanço pro meu pavorzinho de decolagem. Eva e eu fomos companheiras pelas 10 horas de vôo e sinto que agora somos amigas, ainda que distantes. Porque a Eva viu NYC comigo pela janelinha e emocionou também.

Eu te disse, quem não emociona com Nova York bom sujeito não é. Tão cheia da pose, essa cidade, e ainda assim tão descolada e receptiva. E tão, tão recheada de boas coisas. Lembra nós, já no primeiro dia, tomando café em Times Square e caminhando até fazer bolhas pra ver o Rockefeller Center, a loja de brinquedos essencial que é a FAO Schwartz, o Central Park? E depois sacramentando o dia no nosso hotel bem localizado e confortável? Tá bom, eu vou ignorar a parte da barata no teto e de como eu gritei feito maricas ao dar com o sapato e vê-la quase cair em cima de mim. Nova York não foi sobre baratas, e sim um barato.

Até hoje sorrio ao pensar na gente checando aquele Museu de História Natural do subsolo ao quinto andar, observando tudo e nos maravilhando com a perfeição dos displays dos animais, com as roupas dos povos todos, com as maquetes, as ossadas, o fundo do mar ali na nossa frente. Eu voltaria mais 17 vezes. Até pra provar aquele macarrão com queijo infantilóide e delicioso que comemos no bandejão do museu.



Também fecho os olhos pra lembrar da visita ao Metropolitan, imperdível, onde eu finalmente consegui ver os Edward Hopper ao vivo e não apenas no poster descarado que eu mantenho na parede sobre a minha cama. E eu sei que você sonha com o Met também. Com a parte de arte contemporânea e com a lojinha cheia de coisa linda. São bons, esses americanos, em amealhar uns troços egípcios pra nos encantar e depois botar uma lojinha no final pra nos tirar uns trocos. E são excepcionais os nossos comentários quando em um museu. Nunca esqueço de você olhando séria aquela prateleira repleta de vasos de vidro do período grego e comentando "mas como pode, os copos lá de casa não duram uma semana, como esses aí ficaram inteiros tanto tempo?!". A gente devia gravar um audio-guia alternativo pra museus.



Também não preciso dizer da minha emoção ao caminhar o High Park todinho na sua companhia, olhando aquele jardim suspenso fantástico e pleno de verde, de trilhos, de passarinhos, de florzinhas e de gente que curte, como nós, ver uma área ser erguida e recuperada apenas como uma ideia excelente. Ainda não me conformo de não ser dona de um apartamentinho colado no High Park. Mas quem sabe, um dia, o Minhocão se transforma...



Como nem só de caminhada vivem as pessoas de bem, eu penso e repenso também - e comento com todo mundo, já provocando um enjoamento no pessoal - sobre o Eataly. Que espetáculo culinário, hein, Vi? Seo Mario Batali, aquele gênio, apanhou um galpãozão jogado às traças ali na 5th com a 23st e fez o que poucos imaginaram fazer: um misto de mercadão, loja, paradinha gourmet, restaurantes (uns 9 ou 10?). Fiquei feliz de termos vencidos os 40 minutos de espera pela nossa mesa intimista e de ter saboreado um dos melhores macarrões da minha vida.



Eu também amei demais o almocinho no Pastis, o giro pelo Village e pelo Soho (agradecida pela paciência em me seguir quando eu embananei com o mapa), as idas ao Chipotle (agradecida por ir duas vezes ao meu mexicano favorito), as paradas na H&M pra caçar roupas pras meninas (agradecida por ajudar a segurar todo o fardo adquirido), as paradas na Uniqlo (agradecida por concordar comigo que essa fast-fashion japonesa é um templo de amor ao vestuário), os cafés da manhã, as caminhadas sem fim e o fim dos dias jogadas cada qual em sua cama fofa, comendo cheesecake e assistindo meu amado HGTV, o canal da bricolagem.

Foram poucos, mas foram dias adoráveis. Ano que vem, onde mesmo? Já quero reservar passagem.

Com amor,

Flá

PS.: Você foi embora cedo no domingo e eu nem pude te contar que comprei minha primeira saia com nome de estilista na etiqueta, que fiquei na fila na loja de fotografia, que entrei na Toys'R'Us e saí com uma braçada de besteiras, como um dinossauro de pelúcia e um tubo de pastilhas pra colorir a água do banho das meninas. Te ligo, linda. Saudades.



sexta-feira, 27 de abril de 2012

I want to be a part of it

Querida Vivi,

Amanhã já vou descer a mala do armário alto, separar a mochila e começar a rechear ambas com meus trapinhos. O seguro já está impresso, assim como o e-ticket, e o passaporte foi tirado da capa e sacudido até a poeira sair toda. Mas, mesmo com todas as preliminares, acho que só vou acreditar quando desembarcar. Eu, você, Nova York!? Essa história não vai acabar bem... Pois ela já começou demais.

Te contei, né? Dono da Casa combinou almoço comigo e chegou atrasado, aquele pulha, sabendo muito bem o que eu penso de gente que atrasa. Bom, chegou atrasado e com uma sacola da livraria. Eu segurei o discurso e perguntei só por que, diabos, ele tinha atrasado pra passar na livraria. Disse que era um presente pra mim. É um encantador de serpentes mesmo, sempre sabe o que dizer. Bom, eu estranhei ganhar um livro sem motivo e, mais ainda, quando abri e vi que era um guia de Nova York. O meu estava velho e atrasado mesmo - WTC ainda na página 42, vê se pode... - mas me dar um guia? Eu estranhei, ele mandou abrir a contracapa. E ali, singelamente escrito a lápis num post-it, o número do vôo que ele reservou em meu nome usando as tão suadas milhas.

Preciso dizer que eu chorei que nem bebê com fome e assustei até o garçom, que achou que eu me desesperei pelo couvert? Pois sim. Esse homem me mata dando esse presente de sonho. E foi pacote completo, né? Já tinha falado com a minha mãe pra vir ajudar com as meninas, já tinha falado contigo pra ir me encontrar na Grande Maçã... Dissimulada, ficou de mexerico com meu marido pelas minhas costas!

Bom, daí foi passar um mês desejando que o relógio rodasse mais rápido e repassando mentalmente como será nossa visita ao Museu de História Natural pra ver a exposição dos animais bioluminescentes, como será nosso hot-dog de carrocinha em plena escadaria da Biblioteca, como vamos saltitar pelas vielas do Central Park, como vamos nos perder tentando achar lojinhas, como vamos almoçar lindamente no Prune... Te falei do Prune, né? Da chef que escreveu "Sangue, Ossos & Manteiga", que eu acabo de ler e é um must-read pra quem curte uma cozinha e uma saga de família.



Também teci sonhos sobre finalmente ir ao Brooklyn, naquele restaurante que dá de fundos com a Ponte, coisa de cinema. Dizem que lá eles fazem sobremesas supervalorizadas que valem cada mordida. Se for o caso, a gente testa - e, se não for, a gente apenas vai na Grimaldi's comer pizza em pé, encarando a fila na porta e tudo. Forno de tijolo a lenha, minha amiga, forno de tijolo a lenha. Americanos param nele. Nós também.


Isso tudo pra não te contar que, sim, a senhora vai camelar comigo High Line afora. Sabe, aquele parque feito por sobre um antigo "minhocão", os trilhos desativados de trem. Pois é: deve dar uma hora de caminhada, mas felizmente nosso preparo físico é ótimo (ainda que não). A gente para de vez em quando nos recuos pra descansar e olhar a vista de 4 metros de altura, tá?


São tantas as possibilidades, tão poucos dias... Mas eu sei que a gente aproveita. A gente aproveitou até aquela viagem até Araraquara pra fazer palestra pra seis pessoas, não foi? Então. Pode inventar aí suas barbaridades também, vamos botar tudo na lista. E sair da lista também e deixar o clima e o vento nos carregarem pela cidade grande. Ela não oprime, isso foi coisa que inventaram. Nova York é uma delícia, uma farra, um lugar pra quem quer ver de tudo ao mesmo tempo. Eu gosto, sempre me encontrei lá. Essa mania de uma turma aí dizer que é amecanizar demais gostar de Nova York ou que é ridículo achar que se pode curtir uma megalópole ou que é um lugar sujo, violento, feio, "besteira viajar pra fora com tantas coisa linda no Brasil"... nossa, coisa mais antiga. Até porque, eu não viajo pra fora, eu sempre viajo pra dentro. Pra dentro de mim.

E eu sei que você também. E é por isso que a gente vai curtir tanto. Ai, vai ser tanta coisa pra conversar e rir e sentir que eu acho que vamos precisar de um cirurgião plástico pra tirar o sorriso das nossas caras! Te espero no portão de desembarque 7h30 ou coisa assim, conforme combinado, hein? Levarei bolacha Passatempo de presente.

Com amor,

Flá

PS.: New York, New York, com todo respeito aos clássicos, é coisa do passado.