quarta-feira, 15 de maio de 2013

All by myself

Tem aquele filme que eu adoro, que advém de um livro que eu adoro, chamado "About a Boy" - ou "Um Grande Garoto", na tradução brasileira que deve ter sido feita pelo Cascatinha. No filme, Hugh Grant entra na pele de um dos principais personagens e explica que, ao contrário da máxima "nenhum homem é uma ilha", ele é sim. Ele é Ibiza. Bom, eu não sou Ibiza. Talvez eu seja a Sicília. Ou Marajó.

É fato que estar sozinha não é um grande problema pra mim. Eu não fico chateada, solitária, chorando no cantinho. Eu fico bem sozinha. Invento modas, invento tarefas, falo com a minha pessoa... assim, bem louca mesmo. E vem de longa data.

Por exemplo: eu preferia mil vezes fazer trabalho escolar sozinha. Mil e quinhentas vezes. Não era uma opção complicada, porque tinha aquilo tudo - sempre me destacavam como parceiro um cabeção preguiçoso e que não me deixava mandar no grupo; sempre dava pau; sempre era uma dificuldade marcar horário com aquela gente pra reunir a dupla ou a quadrilha (ocupados, nossa... deviam ser as pessoas de 11 anos mais ocupadas do mundo, com suas... disputas de Super-trunfo?).

Enfim, eu preferia pesquisar e escrever sobre Tiradentes pela minha própria conta e risco. Assim como aprender a dirigir. Que saco aquela pessoa sentada no banco ao lado dando palpites e botando reparo... "Acelera mais", "acelera menos", "solta o freio", "não solta o breque na ladeira", "anda do seu lado da rua", "cuidado com a velhinha"... Um porre. Bom mesmo foi quando tomei certa prática e achei um carro emprestado de alguém bem desapegado (obrigada, mãe) e pude sair guiando sozinha, testando comandos e pedais no meu tempo, assim como a noção de distância e a manha da embreagem (desculpa de novo pelo amassado no portão, mãe).

Tão bem eu fico como dona do meu nariz que, pasmem, ninguém conheceu meu vestido de noiva até o momento de entrar no salão. Até ali, alguns viram o desenho, mas nada mais. Eu fui sozinha em todas as quatro provas que a costureira insistiu em fazer. A melhor parte foi que eu decidi tudo sobre ele - a não ser sobre aquele tico de tecido extra na saia, que eu mandei tirar, mas a moça da agulha se rebelou. Tive a impressão que ela ia chorar e dizer "se você tivesse uma acompanhante aqui aposto que ela concordaria comigo!". Mas eu não tinha. Até pra ela não concordar com a costureira mesmo.

Exames médicos: não faço questão de ninguém segurando a minha barra. Olha que eu fico com o coração na mão e talvez fosse bom alguém segurá-lo um pouco enquanto eu vou ali toma o décimo copinho de água, mas prefiro que não. Ficaria aquele clima de jogar conversa fora e fazer a social, quando na verdade só o que eu quero é morrer dez vezes. Não morro, aceito as picadas, as investigações arqueológicas e as doses de embaraço na salinha escura do exame de imagem e fim. Tomo um café com bolacha depois, acompanhada dos fones de ouvido com música, e fim mais ainda.

Nem no nascimento das minhas duas filhas necessitou muito acompanhamento. Especialmente no caso da primogênita. Marcar ultrassom no meio da tarde era muito mais ligeiro e tranquilo. E quem pode ficar saindo do trabalho plena 14h30 pra ver bebê cinza na telinha? Deixa comigo. Fui, vi e venci - e não levei dispositivo para gravação do conteúdo, desculpem. Foi para meus olhos apenas.

Mas é notório que, conforme o tempo passa, estar sozinha é quase tão possível quanto nadar pelada no Pólo Norte. Não acontece mais. Não há muita hora pra isso nos dias de semana, sempre lotados, nem nos fins de semana, lotados e com crianças. Não se pode tomar banho sem o banheiro ser devassado por menores, não se pode ler muito tempo sem tocar um celular ou fixo, não se pode nem ficar escondida no banco traseiro do carro lá na garagem por meras três horas antes que chamem a polícia... Dureza.

Hoje me contento em ser uma ilha internamente. Hoje devo ser, sei lá, uma das Keys lá da Flórida, que seria ilha não houvesse tanta ponte se pegando a elas. Eu sou uma ilha, mas a vida se encarrega de desembarcar turistas em mim a cada quarto de hora. Tudo bem nessa porção de terra cercada de gente por todos os lados.


Podem vir, a solidão morreu de velha

domingo, 14 de abril de 2013

A casa da árvore ponto com

No dia 11 de abril de 2003 eu sei exatamente o que eu estava fazendo. Eu estava ansiosa e eufórica, louca e alegre, apreensiva e motivada. Não, eu não tinha tomado uma carga extra de Fanta Uva, um vício daqueles tempos (que eu não pratico mais porque, bem, tenho medo de já estar roxa por dentro). Eu tinha embarcado, semanas antes, em um projeto todo novo, um site. Eu tinha, na verdade, embarcado, anos antes, em uma amizade.

Falemos primeiro da amizade. Ela foi forjada no fogo de um vulcão perdido no... mentira. Ela foi forjada no banco dianteiro de uma Ferrari 250 GT California... mentira. Ela foi forjada no banco traseiro de uma perua verde rumo a Walley World... mentira. Mentira, não. Tudo foi verdade: minha amizade com a Vivi e a Clarissa foi forjada em filmes que todas adorávamos, em músicas que todas cantávamos, em situações que todas passamos, em recordações de parentes, escolas, ruas, viagens, vacilos, acertos e no pudim que a gente dividia em todo jantar marcado no shopping. Do jantar - e das conversas - passamos ao site.

O site veio pra servir como um mural onde a gente pregava passado, presente e futuro. Era informal e irreverente nas palavras e temas, era a coisa mais profissional que eu já tinha feito na organização, no compromisso e no carinho. Por isso a gente escreveu e eles vieram. Vieram 30. Depois 80. Depois 200. Depois milhares. Cliques e mensagens de gente que morava daqui até o Japão, que tinha de 13 a 50 anos, que gostava de Fábio Jr. e de Iron Maiden.

Nós nos tornamos, pra muita gente, embaixadoras das coisas boas. De escrever bem, de ter boas memórias, de defender os absurdos, de resgatar a intimidade. E olha que a gente levou um ano pra dar nome completo e mostrar o rosto. Fôssemos só gente bem-lançada ou carinhas bonitas na internet... ninguém saberia.

Mas a gente sabia que fazia a coisa certa. Vivi era um poço profundo de bom gosto, elegância, delicadeza e ao mesmo tempo uma suburbana passa-mal que adquiriu um Snif-Snif porque ele era o mais feio da prateleira. Clá era um oásis de palhaçada virtual, uma desembestada que se pegava com ratos pela casa e ao mesmo tempo a melhor referência possível em literatura, música e arte de qualidade. Eu fiz o que pude pra acompanhar o ritmo. E tudo deu certo.

Deu certo a ideia de colocar pra fora nossas mais sinceras opiniões e recordações e a vontade máxima de fazer aquilo que nenhum emprego formal como redatoras rendia - escrever com liberdade. Deu certo ganhar um trocado primeiro com a revista Época, que nos contratou pra uma página fixa, depois com o portal IG, que apostou no nosso apelo. Deu certo, muito mais que tudo isso, trazer pra perto gente que procurava um canto seguro na internet pra fazer amizades com seus iguais. A gente era tudo diferente, mas tão iguais.

Foi a comunidade mais alternativa da qual eu pude participar. Eu, Clá e Vivi passamos por aqueles 2.470 textos juntas - com desentendimentos resolvidos em tempo recorde e sem rancores, sem cobranças e chatices, repartindo obrigações e contas com gentileza. E sobrevivemos também a dia de falta severa de dinheiro, a momentos duros e tristes, a novos rumos, à mudança de país, à chegada das crianças e partida de outros amores. Juntas e separadas, tivemos bem mais que nossos 15 minutos de fama.

Quando decidimos acabar, foi por isso também: porque o valor da amizade sempre precisaria ser maior que tudo - e era hora de acabar com tudo o mais. Por cima, felizes. Foi triste, mas foi bom. Eu ainda tenho dificuldade de dizer alto o nome Garotas que Dizem Ni. Mas a casa na árvore que montamos 10 anos atrás, na qual passou tanta gente e que serviu tão bem pra esse clube, fica pra sempre. Nelas e em mim.


terça-feira, 26 de março de 2013

Eu, ela e a Hannah Montana

Aí a menina ficou triste porque brigou com o namoradinho que descobriu seu segredo. Ela se refugiou num velho gazebo com roupas puídas e um violão e, no caderno, escreveu a letra de uma música. Tocou para o pai, que foi buscá-la no canto escondido, e dividiu com ele a mágoa na base do dueto bem afinado. Não é história de verdade, é uma parte do filme "Hannah Montana - O Melhor de Dois Mundos". Dezoito meses atrás, a Sabrina viu esse filme - e uma coisa tocou dentro dela. Moda de viola.

Algumas das amiguinhas da Sasá assistem novela, como Carrossel (no SBT) e Violetta (no Disney Channel). Eu vetei ambas em casa porque a primeira é bem porcaria e termina tarde e a segunda é bem porcaria e... é muito porcaria. Eu considero porcaria aquilo que eu não assinaria como escritora: o texto é chinfrim, os clichês correm soltos, o enredo é manjado e um bocado babaca. Nem são engraçadas. Porque a gente até aceita assistir uma porcaria, mas que seja pelo menos uma porcaria engraçada, poxa!

Novelas para a idade dela não são. Mas os seriados são. Aqueles que chamam de "enlatados americanos" - que nós, adultos, conhecemos tão bem do Sony ou da Warner e os pequenos conhecem dos canais infanto-juvenis. Quer dizer, nem todos conhecem: recentemente a Sabrina veio me contar que uma das amigas fica chateada que os pais não a deixam assistir seriados na TV a cabo. Não sei o motivo exato, mas suspeito do velho combo "é uma droga globalizada". São mesmo. Mas são engraçados e os diálogos e enredos costumam ser bem acertadinhos. Eu rio. Sabrina também.

Aí a gente chega na Hannah Montana. Enquanto série, a personagem nunca chegou aqui em casa. Acho que quando o seriado estrelado pela cantriz adolescente Miley Cyrus passava na TV, Sasá era pequena e ainda curtia mais um Backyardigans do que "filmes de gente viva", como ela chama (o que não é desenho). Passou batida toda febre de Hannah Montana. Anos mais tarde, já pelos 6 anos e meio, ela se engraçou com outras séries do tipo, como "Zack & Cody", "Jessie" e "iCarly". Vinha assistindo uns aqui e ali até que, um dia, o canal passou a propaganda de um "filme de gente viva" que estrearia logo. Ela pediu pra ver, eu deixei.

Sentei pra ver junto vários pedaços e entendi que era um longa da Hannah Montana, com a personagem pirando na fama e sendo levada de volta às raízes no meio rural nos Estados Unidos. Era engraçadinho. Na cena descrita lá no primeiro parágrafo, eu vi Sabrina de olhos estalados na tela. Es-ta-la-dos. O queixo estava até meio penso na cara. Ficou embasbacada com a menina e o violão.

Sasá já tinha, naquele mesmo mês, ficado animada com "Escola de Rock", visto no DVD. Mas a batida rock'n'roll estava muito avançada, acho; o country melódico fez melhor o trabalho de enaltecer os instrumentos e a canção em si. O rock plantou, a Hannah Montana colheu.

No Natal, a criança esqueceu qualquer boneca, jogo e outros e escreveu um calhamaço de cartas pro Noel trazer, porfavorzinho!, um violão de presente. Noel camelou pelas ruas, mas achou e trouxe o violão. No início das aulas, lá foi Sabrina driblar esportes e artes e se inscrever, decididamente, na aula de musicalização. Ela entendeu que pai e mãe não ajudariam nada nessa hora - porque eu, por exemplo, sou ruim até de tocar triângulo. Se o mundo musical dela dependesse dos parentes, ia a lugar nenhum. As aulas ensinaram muito. E aconteceu uma paixonite pelo violino, um flerte com o piano... e um amor descarado pelo violão.

Esse ano Sabrina correu ainda mais adiante e se colocou na aula de violão mesmo, nada mais de chocalhos, reco-recos e apitos no caminho. Só ela, o violão e a determinação. (E um apoio de pé, um apoio de partitura, pasta pras canções, "deixa minha unha do dedão sem cortar pra poder tocar melhor, vai, mãe?). Não, unha comprida só lá quando eu não for mais a responsável pela integridade dela.

No mais, fiz de tudo o que podia pra esse sonho de se expressar com o violão virasse uma realidade. Mas eu sei que eu fiz muito pouco. Ela fez tudo. A Hannah Montana fez mais ainda. Bobamente, com aquele roteiro engraçadinho e muito carisma, Hannah Montana despertou uma criança para a música. E, só por isso, ela já vai estar sempre no meu coração.



Hannah Montana começou, agora todo tempo é uma Ode à Alegria


quarta-feira, 13 de março de 2013

Uma nova revista para elle, ops, ela

Aí chegou a década de 1990 e todo mundo que tinha desconfiado ganhou certeza: o cigarro era coisa ruim mesmo. Rolou processo, protesto, piti - e um monte de filmes pra falar que a indústria do tabaco era feia e boba e mentiu dizendo que pitar um fumo era sucesso, quando na verdade era tiro na testa. Passados todos esses anos, até Hollywood (a do cinema, não a do "sucesso") desencanou de produções contando os bastidores do que todo mundo já sabia. Cigarro, a longo prazo, causava doença, morte e um futum lazarento na pessoa. Cigarro fazer mal é notícia velha. Então a gente já pode colocar na mesma seara as revistas femininas e essa coisa de "oh, elas estabelecem uma ditadura de beleza inalcançável e condena todas nós a morrer pobres, deprimidas, barangas e humilhadas!"? Chega, passou. Revista feminina te faz mal? Para de consumir, oras

O caso é que as revistas femininas de fato acabaram se enrolando em todo o processo de aquisição do "girl power" e, com os anos, o que era um periódico pra falar dos vestidos rodados da moda e de como arrumar bem a casa pro marido virou um emaranhado de informações loucas e/ou dispensáveis. Porque quantas matérias sobre biquínis, dietas e scarpins a gente consegue ler na vida? A maioria já deve ter tido sua cota.

As revistas femininas no Brasil, hoje, se limitam a meia dúzia de títulos que versam muito sobre roupa, sapato, maquiagem, cabelão e celebridades. Fazer o quê? Talvez as pesquisas digam que a mulher brasileira quer ler isso aí, ué. Eu, de minha parte, acho que pesquisa é o cacete e bom seria parar de ir sempre na mesma onda e criar a tendência, mostrar para a leitora uma coisa nova, descobrir e oferecer um caminho, e não servir só o arroz com feijão de anteontem. Isso dá azia. E gases. Ó, vai ver é por isso que as moças saem com aquela cara na foto da capa!

Eu sei, parece mesmo uma ditadura de gente fazendo carão (carão de quem não sabe multiplicar número de dois dígitos), vestindo roupas que só ficam bem em coxas que não se roçam, usando sapatos que causam joanete, sugerindo cardápios de água, torrada e peito de peru do café ao jantar e apostando que cremes anti-idade são máquina do tempo.

Mas não é uma ditadura que te aponta revólver, joga no bagageiro e leva pro porão escuso, tá? O jornaleiro não vai te perseguir pelas ruas se você disser "não, Juarez, obrigada mas hoje eu prefiro não levar a Fulana porque essa atriz da capa me assusta com tanto aplique e brocado e eu não gostei dessa chamada sobre '879 maneiras de trancar seu homem num cativeiro até ele te amar de verdade'". Juarez não liga. Você devia ligar menos também.

É só entretenimento, gente. Só isso. Digo com certeza, por conhecimento, que a revista não é uma entidade inteligente programada para desgraçar mulheres. A revista é um objeto inanimado feito por moças comuns, como eu e você, que comem, bebem, dormem, dormem com vários caras até achar o certo, dormem na reunião de pauta chata, viajam, vão ao cinema, têm filhos, problemas e contas a pagar. Elas são, na maioria, normais e bacanas - ao contrário do que Anna Wintour e "O Diabo Veste Prada" andaram propagando por aí.

Elas fazem o melhor que podem com a abertura que têm. O problema, se é que existe algum, talvez seja esse mesmo: no afã de encantar só a diretoria com centenas de páginas cintilantes, as revistas esqueceram de encantar as moças que trabalham ali mesmo. E eu. E você, garota comum. Gente que apenas acorda... gente. Que não é mulherzinha o tempo in-tei-ri-nho - e talvez gostasse de ler mais sobre lugares interessantes, sobre móveis ecológicos, sobre uma noite no karaokê e até sobre como dar um up no guarda-roupa sem gastar um carro zero. Reportagens legais pra pessoas de verdade que, sim, são mulheres e gostam de uma linguagem focada em si, com a sua pegada feminina, um pouco feminista, bastante maricota às vezes mas não sempre.

E, eu sei, dá raiva quando dizem que "mas então, temos sim este mês uma entrevista com a Isabel Allende e uma reportagem sobre o tráfico de crianças no Malawi!". Sim, e duas páginas depois tem uma moça com a silhueta característica do Malawi desfilando casacos com o valor do PIB do Malawi. Botar uma entrevista-cabeção em revista feminina, hoje, é como botar uma página de texto corrido na Playboy - é sistema de cotas apenas. Não é sério.

É isso, não é sério. Não leve a sério. E, se perceber que tá levando a sério, larga a coisa! Ninguém é obrigado a se basear em publicações. Se o lanche comprado no McDonald's não parece com o da foto, porque a gente precisa parecer?!

Pede ao Juarez da banca uma revista de viagem. De culinária. De esporte (mas só se amar futebol, que outra coisa quase não tem). Aposta em uma edição sobre patchwork, quem sabe você não se descobre um gênio da costura? Compra um caderno de violão. Compra um gibi! Eu recomendo os da Disney, estão em ótima fase. Ou compra mesmo a revista feminina, ignora o que parecer balela e segura o que é bom. Nem que seja a amostra grátis de perfume.

Na era da tecnologia, assina no tablet uma edição estrangeira - aproveita pra treinar um idioma e testar revistas nicho de mercado, que no exterior tem muita. Muita. Dá pra assinar revista só sobre primatas. Albinos. Do ocidente. Pode apostar.

O que não dá mais é pra se diminuir perante uma garota de 17 anos com o quadril de um melão e a pele de juventude e achar que o mundo vai te cobrar ser assim também. O mundo tá nem aí. Aliás, ele saiu há horas pra fumar um cigarro e não voltou.


Fica fria, não é o general da ditadura, é só... uma moça com muita dor de cabeça?


quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Família vende quase tudo

Sempre correm boatos aí dando conta de que "a Flávia? Ela joga tudo fora". Eu, de pés juntos e mãos unidas, juro que não jogo quase nada fora. Eu reciclo, eu doo, eu vendo. Eu jogo nada fora - só resíduos orgânicos mesmo, mas é que ninguém me deixa fazer compostagem nessa casa.

Reciclo mesmo com um pesinho na consciência, porque na verdade eu preferia que as coisas tivessem menos embalagens, invólucros, pacotes, plásticos. O que é aquela besteira de uma cabeça de brócolis vir sentada em uma bandeja de isopor e encapado com plástico grosso?

Doo bastante coisa também porque, sei lá, é mais forte que eu. Compro uma blusa nova, uma antiga vai embora, é como é. Não me interessa que talvez possa usar de novo daqui uns seis meses, pra fazer a pintura da parede da garagem ou tingir o cabelo... Não. Já não está em uso semanal, passar bem. Armários pequenos e pouca paciência com acúmulo me fazem remeter mensalmente boas sacolinhas de roupas, sapatos e artigos de cozinha (porque, caramba, não consigo olhar pra um jogo de três xícaras).

E vendo. Vendo sim. Porque nós vivemos em um país que ainda não aprendeu muito sobre a arte das vendas de garagem e na beleza de comprar coisas usadas mas em bom estado. A gente é muito esnobe ainda e não acha bonito comprar aquela mesinha por uns contos e lixar e pintar e usar. A gente só quer o que está estalando de novinho. Ah, que bobagem.

Porque sempre tem gente como a gente que também cuida muito bem dos objetos e que, nada de mais, de repente troca as coisas de lugar ou encapa o sofá e nada combina agora. E, aí, que mal haveria em vender/comprar aquilo que teve sua boa vida na casa de um e pode bem ir morar na casa de outro?

Eu gostaria de ter uma boa entrada de garagem, calçada ampla, boa de organizar tudo ali e esperar a galera vir comprar. Mas eu moro em prédio - e se eu colocar meus antigos pertences na saída de carros, provável que a filha da vizinha atropele meus pôsteres tão bonitos e os transforme em confete. Não seria um bom destino para Roy Lichtenstein.

Então, com a ajuda da rede, faço aqui meu 'garage sale' virtual. Só uma pontinha do iceberg de coisas que estão à venda. Sempre tem algo à venda na casa de quem 'joga tudo fora'.


Decanter para vinho. A gente aprecia bem a bebidinha, mas, né... Família italiana, a gente mata na garrafa mesmo. O decanter está ficando chateado com isso e quer um novo lar. R$ 45.
VENDIDO


Um massageador 'barra' diminuidor de celulite. Quase sem uso, porque a massagem é feita por sucção e me dava muita cócega. R$ 40.
VENDIDO

Pôster do amigo Roy, supracitado, ainda na embalagem e com paspatur branco.
Mede 28 cm x 36 cm. R$ 20.
VENDIDO


Minha amada mesa de centro que serviu muito bem por cinco anos (e ninguém diria, porque ela é rústica e porque eu ameacei a vida de quem colocasse copos molhados sobre ela). R$ 150.
VENDIDO


Pôster sem moldura da marca Daimler-Chrysler adquirido por um entusiasta dos automóveis. Mede cerca de 60 cm x 35 cm. R$ 30


Pôster com moldura completa de um dos meus filmes favoritos de todos os tempos. Veio de Londres, foi emoldurado e agora quer um novo dono. Sem um defeitozinho sequer. R$ 100.
VENDIDO


'Michael, ela vai vender meu pôster... Chame o consiglieri e acaba com ela...'. Mentira, Vito jamais faria isso comigo porque esse outro pôster com moldura completa de outro dos meus filmes favoritos de todos os tempos, que também veio de Londres, está lindo e intacto. R$ 100.
VENDIDO


Pôster para fãs do líquido preto mais famoso do mundo. Ah, não, não é da Coca. Pode ser Pepsi?
Mede cerca de 20 cm x 35 cm. R$ 15.
VENDIDO


Go, Speed Racer! E checa se o macaco não está trancado no porta-malas. Pôster bonitinho, embalado e nunca exposto, mede cerca de 20 cm x 35 cm. R$ 15.
VENDIDO


TV que muito me serviu para cozinhar e assistir barbaridades ao mesmo tempo (e não, não eram programas de receita com a Palmirinha, era filmão na TV a cabo). 6 polegadas, bom estado, aquilo tudo. R$ 90.
VENDIDO


Precisa dizer que veio de Londres? Ah, o metrô... Decore as estações, impressione os amigos, vá um dia ver de perto. Pôster emoldurado e com vidro, intacto, lindinho. R$ 90.
VENDIDO


Podemos tratar entrega com frete, hora de vir buscar com café e bolo, etc. e tal. Podemos dar mais informações também. Tudo no flaviapegorin@hotmail.com. Não se avexe: usados ainda têm seu valor, vamos achar novos lares pra eles.




sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

iMom

Eu e uma amiga falávamos um dia desses sobre um bom jeito de ganhar dinheiro rápido, fácil e na forma de 'bastante'. Eu sei, parece a classe média sofrendo de sua vidinha mais-ou-menos, tão opressora e terrível... mas a verdade é que os tempos estão bicudos pra quem tem a péssima mania de viver à margem do governo (pagando por fora pela escola, pela saúde, pelos seguros de todos os tipos etc.). Aí a gente achou que precisava de um dinheiro extra - e qual a melhor forma, hoje, senão vender uma ideia tecnológica muito bacana? Aquelas coisas que os garotos de 19 anos criam no dormitório da faculdade e depois vendem por zilhões. Bom, eu sou ruim de vender e já vão longe meus 19 anos, mas tenho umas ideias aí. Tá anotando, Dona Indústria de Aplicativos, Dispositivos e Outras Coisas Com as Quais Minhas Digitais Não Sabem Lidar? Então anote.

Na qualidade de mãe, eu sou uma fonte infindável de ideias para esse setor da sociedade. E olha que somos muitas. E olha que a gente não sabe instalar um bom antivírus no computador, mas somos fãs de tudo o que facilite e torne a vida mais sadia, alegre e funcional. Por exemplo, fotos dos nossos pituxitos da momõe em cada uma das mínimas cenas do dia a dia: tiramos, sim! Muitas! Mas perdemos vários cliques correndo em busca da câmera, ajustando foco, decidindo pelo uso ou não daquele horripilante flash-cega-nenê.

Muito mais negócio se alguém pudesse inventar um dispositivo acoplado aos nossos olhos, tipo um óculos bonito que pudesse ser acionado a cada momento visto por nós. Bebê riu, clique no óculos! A versão avançada poderia ser acionada por um piscar do olho? Eu agradeceria, porque perco meus óculos o tempo todo entre a papelada de trabalho e a roupa pra passar. Aproveita e insere uma opção de gravar vídeo também, eu acho bonitinho quando as meninas cantam canções inteiras em inglês errado.

Outro bom aplicativo para a vida real seria uma forma de gravar toda a rotina da criança para qualquer outro adulto que assumisse a liderança dos trabalhos. Como o pacotinho gosta da comida, onde prefere se aconchegar pra dormir, bicho de pelúcia favorito, canto mais apropriado pro castigo e frases de efeito pra evitar o castigo - tipo 'experimenta subir aí que você vai ver a mamãe virar um dragão em fúria'. Bastaria acessar a agenda e ver que agora é hora de brincar, depois precisa dar lanche, aí precisa sair 12h43 pra chegar na escola a tempo porque o trânsito no bairro parece enlouquecer exatamente às 12h44... Tudo isso.

Se der, podia incluir ainda uma máscara holográfica que deixasse o adulto responsável com a exata face da mãe ou do pai, conforme preferido no momento. Assim não tem aquele espetáculo da Broadway porque o pimpolho está morreeeendo de saudades da mamãe. Que saiu pela porta faz 38 segundos.

Os aparelhos que disponibilizam mapas, aliás, já podiam por favor evoluir para uma versão 'Pais em Desespero'? Porque é legal achar o monumento, o museu e a igreja, mas também seria ótimo descobrir onde fica o parquinho mais próximo, um restaurante amigo dos cadeirões ou um banheiro apropriado para trocas de fraldas - um que não se pareça com um beco de venda de crack ou uma jaula que comporta 12 gorilas destemperados.

Não é difícil, vai. Vocês conseguiram tornar sucesso de público aparelhos que se comunicam até com a MIR, aplicativos que fazem planta baixa e contam glóbulos vermelhos e jogos com passarinhos que assassinam porcos. Ponham aí as nossas necessidades maternais em prática. Toda mamãe agradece.


Alô, indústria? Precisamos conversar sobre umas ideias aí...

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Fogo no pavio, nas panelas, no coração

Eu gosto mesmo de Natal. Pega eu, você e seu emburramento com o Natal.

Eu gosto do rito em si que traz com ele o fim do ano e uma mudança clássica - a do calendário e a da vida mesmo.

Eu gosto de ter 'O Grande Dia de Montar a Árvore'. Eu gosto de tocar um CD bem vagabundo com Jingle Bells cantado em inglês, espanhol e turco. Gosto de tirar a poeira de todas as caixas de enfeites, de erguer aquela árvore artificial safada e pedir a ajuda das crianças pra criar o encanto com brocado vermelho, laçarotes e a estrela de arame na ponteira.

Eu gosto de acrescentar estrelinhas em todos os puxadores de gaveta e de sair à caça de presentinhos pra todos os envolvidos. O tio da perua ganhou chocolates. As professoras ganharam sabonetes cheirosos. O Papai Noel recebeu carta - e retificação, porque um detalhe importante foi esquecido. Eu não gosto do trânsito no shopping, por isso eu compro a maioria das coisas nas ruas, mas... ah, eu vou no shopping sim, tem lá um idoso vestido de vermelho que cede balas, é legal.

Eu gosto de pensar no cardápio e na arrumação da mesa. Eu gosto de peru. Gosto mesmo, pode tirar sarro: eu gosto de peru no Natal e sonho com o dia em que finalmente as pessoas passarão a noite na minha casa. Já sonhei tudo: eu vou assar o peru com manteiga à beça e levá-lo à mesa inteiro. Vou fazer arroz com amêndoas e molho em separado, além de farofa sem coisas doces e uma torta gostosa e legumes grelhados com sal grosso e azeite e ervas. E eu vou fazer drinques fortes e servir champanhe de verdade em taças de verdade. E eu vou usar um vestido vermelho. E eu vou ligar o ar condicionado na casa dos 19 graus, assim a gente não entra em combustão espontânea.

Eu gosto de ver a carinha das crianças abrindo os presentes... Eu gosto de ver a cara de todo mundo abrindo os presentes. Eu odeio amigo secreto e brincadeiras tipo 'inimigo secreto' - mas posso viver com ela se a maioria achar engraçado, vai. Céus.

Eu gosto de tudo sobre o Natal, e olha que eu não sou nem nunca fui católica (a despeito do que diz o meu fabuloso 'certificado de Primeira Comunhão'). Eu gosto do espírito. De dar e acolher, de esquecer as desavenças e curtir o momento, de entrar numa vibe positiva e num futuro melhor e mais divertido.

O diabo é que eu esmoreço às vezes e saio do espírito. Especialmente quando as pessoas:

- estão mais preocupadas com a grana gasta no presente do que com o regalo em si;
- estão loucamente preocupadas em não sujar seus fogões e em lavar a louça;
- estão insanamente preocupadas com pingos de vinho no tapete;
- estão dando uma banana para a alegria em grupo e só focam no saco cheio individual;
- estão dizendo 'não vejo a hora de acabar essa coisa de Natal';

À esses, o meu pesar. Poderia sugerir um toque de canela aqui, um chapéu de feltro bicolor ali... Mas eu não vou sugerir nada. Cada um tem modo próprio de encarar cada data. Eu não saio correndo atrás do trio-elétrico no Carnaval, então não fico dizendo quem tem que embrulhar pacotes com papel colorido e fita.

Eu posso dizer uma coisa, porém: o Natal pode ser uma ótima oportunidade de fazer uma seleção mental de pessoas e situações e pinçar ali o que é importante de verdade. Não necessita tender bolinha com molho agridoce ou meias decoradas presas no batente por isso, eu sei, pode ser feito em qualquer dia. Mas ritos são sempre valorosos. Ajudam a gente a se posicionar sobre o mundo. Eu me posiciono a favor da festança, de um brinde com borbulhas e de um abraço sincero e apertado.

Sinta-se abraçado por mim nesse Natal! Mesmo você aí, emburradinho.