segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Cadê Passione?

Tudo bem, eu me sinto menos brasileira nessa hora. É que se tornou um traço da nossa nacionalidade curtir uma novelinha. E eu curtia, viu? Eu curtia MUITO ver as ruindades de Odete Roitmann e os porres de Heleninha; fiquei suando frio também pra saber se a Sinhá Moça ia soltar os escravos ou apanhar do pai malvado; e me peguei sonhando com Rei e Rico naquela novela em que eles, ai que vexame, "davam uns coelhos".

Mas tudo isso é muito antigo, tem sete quilos de poeira nessas fitas (sim, fitas, ninguém previa o HDTV no meu tempo). Hoje - na verdade há mais de 10 anos - eu não me pego com novela. Eu mal sei quem é quem ou o nome da mais nova estrelinha global. E daí notei que eu só tiro umas lasquinhas das novelas por causa da minha mãe.

É que eu nem sei qual o nome da trama que está no ar, mas Dona Conceição sabe. Todo "FIM", ela jura que é a última novela que acompanha. Cascata. Na próxima lá está ela pedindo "vocês vão assistir alguma coisa ou eu posso por na novela?". E ela sabe que pode.

Foi só por causa disso que eu soube quem eram a Flora e... a nêmesis dela era quem mesmo, a Claudia Raia mais gordinha? Bom, a novela da Flora e da Claudia Raia mais gordinha virou sucesso aqui, porque acontecia coisa, aparentemente, todo santo capítulo. Se minha mãe demorava dois dias pra me visitar, podia apostar que mais dois do elenco já tinham morrido, sumido ou estavam em cana.

E a coisa piorou com essa "Passione". Não entendi bem o mote da novela, porque minha atenção ficou pregada e chocada com o péssimo sotaque da Moóca de Tony "The Bear" Ramos & Cia. Eram italianos que vieram pro Brasil... pra que, mesmo? Moravam na Toscana e vieram comer grama aqui na capital paulista por que, dio santo benedeto??

Daí tinha alguma coisa também com a filha da Regina Duarte, a filha da Ângela Leal e aquele cara que eu não suporto, o do olho azul que só faz papel de demente (e faz mal, porque Tonho da Lua ganhava de mil). Parecia um triângulo amoroso, mas era falatório demais e roupa de menos e eu ignorei - até porque, sério, um núcleo de novela que conta com o Chico Cuoco não é pra mim. Eu tenho medo do Chico Cuoco. Ele parece mordomo de mansão mal-assombrada.

Tinha também uns casos lá com o núcleo rico. Fernandona Montenegro nunca arregalou tanto o olho em uma novela, quase precisou de uma plástica pra soltar as pálpebras! Todo dia eu olhava e estava lá Fernandona, preocupadíssima, arregaladíssima! É novela ou o programa do Datena?

Bom, mas o programa do Datena perdia em violência de toda sorte, aparentemente, daí a cara de susto da Fernandona. Ela tinha uns três filhos, pelo que entendi: um escroque, aquele sujeito que tomava conta da "Casa das Sete Mulheres", a Playmobil, que só zoava os casais apaixonados, e o Marcelo Antony com disfunção sexual. Um pior que o outro, não era à toa o olhão da Fernandona. E orbitando a pobre tinha também uma renca de outros velhinhos, desde o Elias Gleiser até aquele senhor que carregou a cruz no "Pagador de Promessas" Versão 1. Uma velharada bem safada, aliás. Ficaram se pegando no final, gente!

Novela confusa que não me deixou entender nada, "Passione" tinha dois vilões, né? A Ximenes e o Giane. Lindos, maus e canastrões ATÉ! Sério, quem disse pro Giane que ele era bom ator tinha que assistir peça de teatro com ele toda noite como punição. E o mesmo pra Clara-filha-da-Flora. Menina ruim, viu. Crível como Ivete Sangalo em comercial de molho de tomate.

O que eu gostava mesmo em "Passione" era a abertura. Gostava da música e da arte de Vik Muniz. E aí, né, depois de cantarolar esse bocadito... assisti uns punhados de "Passione". Mas vou tentar evitar essa que vai substitui-la, essa com o ex-namorado da Tiazinha e aquela moça loira bem bonita que é uma mala quando dá entrevista. Vou *tentar* evitar. Porque sabe, né, eu não sou mais noveleira, mas com Dona Conceição aqui na área... "Eu jurei que não ia mais ver novela, então só vou dar uma espiada no primeiro capítulo... Pode?". Pode, mãe.


Eu só acreditaria se eles fossem vilões em "Malhação"...

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

O pavimento dos nossos corações

Eu acho que uma das coisas mais fortes que bate no coração de cada um de nós é o lugar de onde a gente vem. Sabe, é aquele ditado: "você pode tirar a mocinha do subúrbio, mas nunca tira o subúrbio da mocinha". Ou coisa que o valha. Mas é assim mesmo: por mais que a gente se mude pra longe, pra muito longe, o conjunto de cinco ou seis ruas, uma praça, duas avenidas e um mercadinho que faziam parte do começo da nossa vida, esse nunca deixa de pulsar no peito.

Todo mundo que eu conheço que foi de mala e cuia pra outros países, por exemplo, ainda se emociona lembrando dos vizinhos, do sorveteiro, da pré-escola. Mesmo morando em recôndidos os mais fabulosos, luxentos e cosmopolitas, em casas lindas e seguras, sempre bate nesses imigrantes uma bela de uma saudade do ônibus-lata-velha que carregava a turminha pra todo lado.

Falo isso de experiência própria - mesmo não tendo mudado assim, pro outro lado do globo. Mudei só pra 30 km de lonjura. Sem trânsito, 40 minutos de carro. E desde 1998, quando saí de lá, prometi que não ia voltar. O "B" do "ABC" não oferecia o que eu gostava, estava longe do meu trabalho, estava longe dos meus amigos e muito longe dos meus sonhos. Mas nunca ficou longe do coração. Nem quando eu brinco dizendo que, sempre que visito a família, vou embora e paro ali na divisa pra bater os sapatos e não levar nem o pó.

Até parece... eu sempre vou ter o pó da minha cidade impregnado na alma. Eu vou sempre falar meio "torrto", desse jeito caipira. Eu vou sempre achar frango com polenta uma refeição apetitosa. Eu vou sempre prestar atenção nas manchetes sobre as fábricas de carros e caminhões da minha área - talvez porque metade da minha família ainda trabalhe lá, talvez porque... ué, porque é a minha área. Sempre vai ser.

É por isso que quando eu sintonizo o telejornal e vejo cidades inteiras virem morro abaixo, levando tantos corações junto, me dá o maior desgosto que há. Dá raiva de quem não fez seu trabalho, principalmente, que é controlar a massa e garantir que eles cresçam como comunidade, e não de qualquer jeito em cima de tijolos na encosta do penhasco.

E como essa maldição afeta não só as vítimas diretas, hoje esse texto é dedicado à minha amiga Bia, que não devia estar vendo sua Friburgo cair assim. Mas Friburgo vai levantar de novo, viu, Bia? Porque os corações todos de lá e mais os nossos aqui são mais fortes e vão perseverar. Sempre vão.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Ultimate Sinceridade

Não dizem que criança é assim mesmo, dolorosamente sincera? Não acham bonitinho e tal essa coisa de criança sempre dizer o que pensa? Depois fica assim:

(Sabrina aboletada no banheiro ao lado da Vovó, que está maquiando delicada e precisamente os olhos com delineador)

- Vó, por que você passa isso?

- Pra ficar mais bonita!

- ... E por que não tá ficando?...

Tô dizendo, a gente não devia incentivar certas sinceridades...


Sabrina é daquela turma que só sacaneia a quem ama muito

domingo, 2 de janeiro de 2011

Muitas imaginações em 2011

Uns dias hospedada ao lado de um vinhedo na Provence, um sapato espanhol maneiro ou, de repente, só aquela panelinha fofa que custa o mesmo que dois fogões inteiros. Ano novo é assim pra todo mundo? A mente se atola em desejos os mais latentes e pirados? Com a minha acontece isso todo início de janeiro, desde sempre. Hoje em dia já tenho até pastinha nos Favoritos pra guardar tudo isso.

Tenho sim, e ela leva o nome de "Imaginações". Bom, meus Favoritos são assim, só levam títulos pitorescos. Temos desde "Traduza", para guardar link de dicionários, até "Minhas Colegas de Trabalho" e "Porcarias que os Outros Pedem" pros links que têm a ver com reportagens - as legais, que vale a pena guardar pra sempre, e as insuportáveis, que ficam guardadas só pro caso de dar algum xabu.

E no meio de tudo isso, está lá a pasta "Imaginações". Dentro dela eu coloco tudo que um dia ainda quero visitar, vestir, comer, ler, fazer... Tudo o que é meramente um sonho distante, mas que um dia, de tanto obcecar, espero conseguir. E é tudo isso que me vem na cabeça quando um ano vira e outro começa.

Penso no hotel que fica na região de Menerbes, aquele que tem uma imensa casa de pedra com janelas azuis e mesas de jantar no jardim (e que também tem a piscina fresquinha, o spa, os campos de lavanda e a diária de 550 euros).

Penso nos sapatos da Camper, estilosos e confortáveis ao mesmo tempo, tudo que eu sempre quis calçar na vida. Aproveito e penso também no hotel que a Camper tem em Barcelona, todo modernão e com bicicletas disponíveis pro hóspede pedalar cidade afora. Bom, eu aproveito e puxo o pensamento pra toooda a Barcelona e pronto.

Penso também nos novos restaurantes que o Jamie Oliver abriu na Inglaterra, de pegada italiana, e naquele cardápio que eu queria dissecar com olhos, nariz e boca. Penso também em cumprimentar o Jamie pelo grude e convidá-lo pra vir aqui em casa um dia, comer torta de palmito e bater um papo.

Penso em dois Plazas que sonho conhecer - The Plaza em Nova York, Plaza Athéneé em Paris - e um restaurante especial. Chama-se Le Jules Verne, e eu nem ligo pro que servem lá. O importante é que ele fica na Torre Eiffel. Menino, se servir calango frito rolado no cascalho, eu tô aceitando! Vale pela vista.

Olho os links do Smithsonian, da Galleria degli Uffizi e do Hermitage e penso em todos eles - e no dia em que seus mapinhas estarão em minhas mãos e eu vou poder caminhar por aqueles corredores mastigando cultura com a testa.

Penso na máquina de costura e no ateliê dos sonhos, penso em todas as tecno-tranqueiras da marca da maçã, penso na loja de brinquedos, penso nas roupinhas de bebê de boa qualidade, penso na panela francesa que é feita de ferro, depois esmaltada, tem garantia de 100 anos e passa de mãe pra filha.

Toda virada eu passo pensando, entre brinde e outro, nas coisas que queria alcançar nos meses seguintes. Não virão todas. Provavelmente, não virão nem uma ou duas. Mas eu sonho mesmo assim, porque é hora de renovar decisões, promessas e, lógico, desejos.

Aliás, em 2011 eu te desejo muitos desejos - dos mais simples aos mais complexos, dos mais gaiatos aos mais rebuscados, dos baratos aos caríssimos, dos solidários aos egocêntricos. Desejo que cada desejo vire verdade, e que, quando isso acontecer, um desejo novo apareça no lugar. Tá?

Bons sonhos e feliz ano novo, meus amigos!


Que 2011 venha em forma de uma panela, sei lá!

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Um monte de coisa pra comprar, cheiro de cravo e canela, tenha um feliz Natal aê!

Paz e harmonia, parece, só nos cartões da Hallmark mesmo. A época chegou faz 22 dias e lançou o cotidiano pelos ares, badernando as atividades todas. Todas! Não se pode estacionar em parte alguma, não se pode almoçar fora sem apanhar fila, não se pode botar o nariz pela janela sem escutar "Jingle Bells" em três idiomas e na versão instrumental - eu já ouvi uma no alto-falante do mercado que era tocada só com gaita. Fiquei apavorada e fugi.

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A televisão perdeu o jeito pra época natalina, uma pena. Não passa mais nada de legal, nenhum daqueles 345 filmes cretinos que eu assistia de pequena. Nem o Rodolfo vem mais pra festa, se anunciando com seu nariz vermelho aceso e o "magnífico" efeito do stop motion. Nem passa mais aquele "Papai Noel Existe", no qual uma das Panteras mora no pólo norte e trabalha perfurando poços de petróleo sem acreditar no Bom Velhinho (pra depois ir conhecê-lo pessoalmente, se encantar toda e pagar pau pra ele). Se tivesse no DVD, eu alugava. Mas acho que nem em VHS...

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Sabrina incorpora o espírito de Natal como ninguém mais que eu conheça. Ah, sim, ela escreve a cartinha pro Noelzão, ela deseja que o presente venha logo e tudo isso. Mas ela também matuta lindamente sobre o processo - e hoje veio querer saber se, quando Noel fabrica, digamos, um coelhinho de pano, ele tem cestos separados para armazenar o corpo fofo, os narizes rosados, os bigodes etc.. Além disso, ajudou a fazer uma rapa no armário e selecionar brinquedos e roupas para crianças que têm menos que ela. Fez na maior alegria. E não surrupiou nada de volta das sacolas.

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Semana passada deu a louca aqui e decidimos parar de palhaçada, abrir a embalagem do tender, fazer um belo molho para mariná-lo com mostarda, shoyu e um toque de mel e metê-lo no forno. Com o macarrão e a maionese de batatas, ficou um almoço delícia. Foi como adiantar o Natal em 8 dias. E agora já estabelecemos a tradição: tender antecipado todo ano! Nada mais de ficar esperando a noite feliz para comê-lo de um jeito que não é do nosso gosto, frio, seco e rodeado de uns pêssegos e abacaxis malignos.

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Um dia eu sonho passar o Natal no frio de verdade. Com neve real, pinheiros feitos de clorofila e não de plástico e no qual as comidas pesadas façam algum sentido. Se rolar um caos aéreo, eu até assimilo, tamanha a vontade.

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Passou por mim no shopping, anteontem, uma moça com umas 12 sacolinhas em punho. Uma era de roupa, outra era de sapato e as demais eram todas da mesma loja de perfume. Eu achei que ela operou por instrumentos e não teve criatividade alguma pra dar presente. Dono da Casa achou que ela foi esperta e chegou em casa 3 horas antes de nós.

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Uma vez eu ganhei uma boneca no Natal que até me emocionou. Era linda, fofa, toda de vestido azul, cabelinho castanho brilhante e cacheado, pilhas ajudando a falar umas seis frases robóticas completas. No dia 25, na primeira brincada, decidi dar pra nova filha uma papa de fubá com água. Ela nunca mais emitiu qualquer palavra e, assim, virou uma boneca comum. Mas eu continuei amando aquela muda.

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Olívia parece já ter aprendido o que é Natal. Se pudesse falar, ela diria que é uma época na qual todo mundo grita bastante em restaurantes, mostra muitos dedos no trânsito, reclama deveras de calor e de dinheiro e na qual tudo cheira cravo e canela. Aliás, se ela pudesse falar, aposto que diria "quanto falta pra acabar o Natal, mamãe?".

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Mesmo o Natal dando muita dor na coluna e enchendo um pouco o saco, eu sempre gostei dele. Acho gostoso fazer toda a preparação, a decoração, a compração de presentes e beliscos. Não gosto de certas obrigações que ele traz, de passar a noite com gente demais ao redor e de saber que algumas pessoas se deprimem com ele. Mas todo ano tem, então vamos encarar. E logo mais, viva!, estaremos felizes abrindo pacotes da Hering, bebendo champanhota gelada e separando as passas do arroz!

Sendo assim, nossa família aqui deseja pra sua família aí uma noite realmente feliz, dessas de cinema e com gosto de infância! Que o Natal de todos seja tão bom quanto vocês o fizerem!

São os votos da Sócia da Light, do Dono da Casa, da Sabrina e da Olívia!

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Medo de menina

Olha, cada dia era um susto, viu? Meus anos de criança foram lindos e ótimos e felizes, mas tinha cada neura embutida ali... Fora os medinhos comuns de petiz, como dormir sem deixar nenhuma ponta de pé ou mão fora do perímetro da cama, de puro pânico que "algo embaixo da cama" me puxasse, tinha outros. Muuuitos outros.

Pra começar eu tive medo do básico: do primeiro dia de aula, do pirata que ilustrava o fascículo de História da enciclopédia "Conhecer", de me perder da mamãe no mercado. Tive medo ainda de que meus pais se separassem a cada briga deles, de que minha mãe fosse presa na greve ou de que meu pai perdesse o emprego (vai ser criança nos anos 80, no ABC Paulista, com família metalúrgica e Maluf governador biônico, pra ver se você não faz xixi na calça de pavor...).

Mas então, ao crescer só mais um pouquinho, vieram medos muito típicos de menina. Eu tenho certeza, moleque algum sofreu com aquilo, era coisa só de menina. Por exemplo: ainda pequena eu passei a temer que amigas de cantos distintos, como a amiga da rua e a amiga da escola, se conhecessem e se adorassem, me deixando de lado.

E aconteceu, viu - o que mostra que medos infantis nem sempre são improcedentes. Aconteceu, sim: minha amiga Vanessa veio brincar em casa e conheceu minha amiga Laura. E as duas se entenderam de cara, deixando a mim, na qualidade de "amiga velha", um pouco largada. Durou uma tarde, mas pareceu uma vida.

Teve também o medo contrário. Uma vez minha prima Cássia, então amiga unha-e-carne plus parente de sangue, veio brincar e quando se juntou à nós a Daniela, amigona da escola, se odiaram eternamente. Durou uma tarde, mas... não, aí pareceu só uma tarde mesmo. Eu já estava grandinha.

Grandinha, no entanto, me assolaram medos ainda maiores. Por exemplo, o medo de não ser mais vista pelos meninos como um membro da gangue, mas... aimeodeus!, como menina! Sim, eles um dia param de nos ver como aquela que joga bem futebol para nos ver como humana com curvas. Pois é. Éca. E quando começaram a fazer graça dizendo que o Danilo gostava de mim, então, eu quis cavar um buraco até o lençol freático e por ali nadar até o mar.

Coitado do Danilo, nisso tudo, que se tornou objeto de aversão pra mim. Não podia mais olhar o menino no rosto. Não podia sequer almoçar no mesmo mesão que ele (mesmo havendo cerca de 22 lugares ocupados entre nós). Ficava vermelhíssima e com ataque de pânico.

E vieram medos similares - de que a saia do uniforme levantasse com o vento; de me acharem "menos menina" porque a nota foi baixa; de descobrirem minha paixonite pelo menino-gênio da classe. Veio o medo de não ter par no bailinho (nunca aconteceu), de não ter uma amiga na mesma sala quando mudava o ano letivo (nunca aconteceu), de ser alvo de chacota e perseguição pela molecada "famosa" da escola (aconteceu pra cacete, anos a fio).

À maioria dos medos, eu sobrevivi. Vieram outros em plena fase adulta, é claro, mas a gente vai encarando melhor. Hoje os medos são raros - grande parte relacionado à vida das minhas filhotas, à integridade física do Dono da Casa e aos sapos (o medo desses bichos malditos nunca me largou, do berço à universidade, que inferno...). Ah, tem também o medo abissal que me domina toda vez que abro o internet banking, mas, né... O negócio é ignorar do mesmo modo que ignorei o "algo embaixo da cama", virei pro lado e dormi.

O medo pode vir, nem ligo. Eu sempre vou ser uma menina cheia dele mesmo. E sempre tentando ser mais e mais valente.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Todo dia ela faz tudo sempre igual

Quando a Sabrina nasceu e completou 4 dias, nós fomos visitar pela primeira vez o Dr. Labib. Pediatra e Mestre dos Magos (ele gahará um post só pra ele aqui em breve, aguardem), Dr. Labib sempre foi direto e reto sobre alguns pontos. O primeiro deles foi a rotina - e hoje eu considero que esse talvez tenha sido o decreto mais importante que ele baixou sobre nós aqui.

Logo nessa primeira consulta, o doutor informou que deveria ser assim, ó: "troca fralda, mama, põe dormir; dali 3 horas, troca, mama, põe dormir; e depois de 3 horas, troca, mama, dorme. E assim vai". E foi. Mas quando contei o procedimento pra alguns chegados, ouvi uns "oooh!" de indignação. "Mas e se ela acordar e chorar e quiser mamar depois de 2 horas, não pode dar??". Não, é pra enrolar. "Mas e se ela fizer 'coisas' na fralda enquanto mama, coloca dormir assim??". Coloca. As fraldas de hoje têm tanta camada de proteção que ela poderia fazer piche ali e ainda estar segura.

Bom, a gente enfrentou essa saraivada de palpites, mas decidimos manter o que mandava o doutor. Quando o processo mostrou que a Sabrina ficava muito bem assim, emplacamos também a rotina das comidinhas em intervalos firmes, das sonecas com hora cravada, do combo "banho-leite-historinha-luzapagada".

Mais uma vez a gente ouviu uma série de pitacos - que éramos muito CDFs, que a menina ia se encher disso e se rebelar, que estávamos exagerando. Então: mas nós fomos é percebendo que a Sabrina ficava muito confortável assim. Estava cada dia mais segura, mais tranquila, mais obediente. Não precisava ficar nervosa porque cada dia a coisa corria de um jeito e nem endemoniada, porque já conhecia as regras. Fez bem pra ela. Como o Dr. Labib disse que faria. Ponto pro velhinho!

Tudo bem, é verdade: tivemos que recusar muitos convites pra festinhas depois das 21h, pra jantares noite adentro, pra gincanas de dia inteiro com visitas, shopping, parque e cinema numa tacada só. Recusamos pra vir pra casa, colocar a meninota no prumo, deixá-la mais calma, cair de novo na rotina. Foi chato às vezes. Mas o ganho era claríssimo.

Quando conto que a Sá dorme religiosamente às 20h sem reclamações, come almoço e jantar sozinha, sabe a hora de dar comida aos peixes do aquário, de vestir o sapato, de escovar os dentes e se mandar pra escola, vejo caras de espanto. Pra nós, espanto algum: ela conhece sua rotina e está muito contente com isso.

E a tal rotina, aliás, tem até um bônus bacana: vira festa quando ela é quebrada! Agora que Sasá tem 5 anos, está autorizada a zoar o barraco de vez em quando, só de curtição. Tem dia que pode jantar pizza ou hot-dog, tem dia que pode ir na festinha dos amigos e pular até tarde, tem dia que pode até desmaiar no sono sem nem tomar banho. O dia de quebra da rotina serve pra mostrar que ela é importante - e depende só de nós.

Com a chegada da Olívia, há quase 3 meses, fomos lembrados pelo Dr. Labib sobre a implantação da rotina de novo. Voltamos aos dias de olhar no relógio regularmente, não avacalhar nas atividades em casa e fora dela e não cair em chantagem de nenê safada que quer nanar só no colo. Lilica já gosta dos seus dias com hora marcada - e, aos detratores da tática, tenho a dizer que ela já dorme das 22h às 6h de uma estirada só, essa belezinha! Rotina é bom, e toda criança gosta. Mesmo sem saber disso.


Todo dia elas fazem tudo sempre igual
me sacodem às 6 horas da manhã
me sorriem um sorriso pontual
e me beijam... com essas boquinhas não exatamente de hortelã*


*Seo Chico Buarque, descupaê a licença poética ao deturpar "Cotidiano", tudo bem?