quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Família vende quase tudo

Sempre correm boatos aí dando conta de que "a Flávia? Ela joga tudo fora". Eu, de pés juntos e mãos unidas, juro que não jogo quase nada fora. Eu reciclo, eu doo, eu vendo. Eu jogo nada fora - só resíduos orgânicos mesmo, mas é que ninguém me deixa fazer compostagem nessa casa.

Reciclo mesmo com um pesinho na consciência, porque na verdade eu preferia que as coisas tivessem menos embalagens, invólucros, pacotes, plásticos. O que é aquela besteira de uma cabeça de brócolis vir sentada em uma bandeja de isopor e encapado com plástico grosso?

Doo bastante coisa também porque, sei lá, é mais forte que eu. Compro uma blusa nova, uma antiga vai embora, é como é. Não me interessa que talvez possa usar de novo daqui uns seis meses, pra fazer a pintura da parede da garagem ou tingir o cabelo... Não. Já não está em uso semanal, passar bem. Armários pequenos e pouca paciência com acúmulo me fazem remeter mensalmente boas sacolinhas de roupas, sapatos e artigos de cozinha (porque, caramba, não consigo olhar pra um jogo de três xícaras).

E vendo. Vendo sim. Porque nós vivemos em um país que ainda não aprendeu muito sobre a arte das vendas de garagem e na beleza de comprar coisas usadas mas em bom estado. A gente é muito esnobe ainda e não acha bonito comprar aquela mesinha por uns contos e lixar e pintar e usar. A gente só quer o que está estalando de novinho. Ah, que bobagem.

Porque sempre tem gente como a gente que também cuida muito bem dos objetos e que, nada de mais, de repente troca as coisas de lugar ou encapa o sofá e nada combina agora. E, aí, que mal haveria em vender/comprar aquilo que teve sua boa vida na casa de um e pode bem ir morar na casa de outro?

Eu gostaria de ter uma boa entrada de garagem, calçada ampla, boa de organizar tudo ali e esperar a galera vir comprar. Mas eu moro em prédio - e se eu colocar meus antigos pertences na saída de carros, provável que a filha da vizinha atropele meus pôsteres tão bonitos e os transforme em confete. Não seria um bom destino para Roy Lichtenstein.

Então, com a ajuda da rede, faço aqui meu 'garage sale' virtual. Só uma pontinha do iceberg de coisas que estão à venda. Sempre tem algo à venda na casa de quem 'joga tudo fora'.


Decanter para vinho. A gente aprecia bem a bebidinha, mas, né... Família italiana, a gente mata na garrafa mesmo. O decanter está ficando chateado com isso e quer um novo lar. R$ 45.
VENDIDO


Um massageador 'barra' diminuidor de celulite. Quase sem uso, porque a massagem é feita por sucção e me dava muita cócega. R$ 40.
VENDIDO

Pôster do amigo Roy, supracitado, ainda na embalagem e com paspatur branco.
Mede 28 cm x 36 cm. R$ 20.
VENDIDO


Minha amada mesa de centro que serviu muito bem por cinco anos (e ninguém diria, porque ela é rústica e porque eu ameacei a vida de quem colocasse copos molhados sobre ela). R$ 150.
VENDIDO


Pôster sem moldura da marca Daimler-Chrysler adquirido por um entusiasta dos automóveis. Mede cerca de 60 cm x 35 cm. R$ 30


Pôster com moldura completa de um dos meus filmes favoritos de todos os tempos. Veio de Londres, foi emoldurado e agora quer um novo dono. Sem um defeitozinho sequer. R$ 100.
VENDIDO


'Michael, ela vai vender meu pôster... Chame o consiglieri e acaba com ela...'. Mentira, Vito jamais faria isso comigo porque esse outro pôster com moldura completa de outro dos meus filmes favoritos de todos os tempos, que também veio de Londres, está lindo e intacto. R$ 100.
VENDIDO


Pôster para fãs do líquido preto mais famoso do mundo. Ah, não, não é da Coca. Pode ser Pepsi?
Mede cerca de 20 cm x 35 cm. R$ 15.
VENDIDO


Go, Speed Racer! E checa se o macaco não está trancado no porta-malas. Pôster bonitinho, embalado e nunca exposto, mede cerca de 20 cm x 35 cm. R$ 15.
VENDIDO


TV que muito me serviu para cozinhar e assistir barbaridades ao mesmo tempo (e não, não eram programas de receita com a Palmirinha, era filmão na TV a cabo). 6 polegadas, bom estado, aquilo tudo. R$ 90.
VENDIDO


Precisa dizer que veio de Londres? Ah, o metrô... Decore as estações, impressione os amigos, vá um dia ver de perto. Pôster emoldurado e com vidro, intacto, lindinho. R$ 90.
VENDIDO


Podemos tratar entrega com frete, hora de vir buscar com café e bolo, etc. e tal. Podemos dar mais informações também. Tudo no flaviapegorin@hotmail.com. Não se avexe: usados ainda têm seu valor, vamos achar novos lares pra eles.




sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

iMom

Eu e uma amiga falávamos um dia desses sobre um bom jeito de ganhar dinheiro rápido, fácil e na forma de 'bastante'. Eu sei, parece a classe média sofrendo de sua vidinha mais-ou-menos, tão opressora e terrível... mas a verdade é que os tempos estão bicudos pra quem tem a péssima mania de viver à margem do governo (pagando por fora pela escola, pela saúde, pelos seguros de todos os tipos etc.). Aí a gente achou que precisava de um dinheiro extra - e qual a melhor forma, hoje, senão vender uma ideia tecnológica muito bacana? Aquelas coisas que os garotos de 19 anos criam no dormitório da faculdade e depois vendem por zilhões. Bom, eu sou ruim de vender e já vão longe meus 19 anos, mas tenho umas ideias aí. Tá anotando, Dona Indústria de Aplicativos, Dispositivos e Outras Coisas Com as Quais Minhas Digitais Não Sabem Lidar? Então anote.

Na qualidade de mãe, eu sou uma fonte infindável de ideias para esse setor da sociedade. E olha que somos muitas. E olha que a gente não sabe instalar um bom antivírus no computador, mas somos fãs de tudo o que facilite e torne a vida mais sadia, alegre e funcional. Por exemplo, fotos dos nossos pituxitos da momõe em cada uma das mínimas cenas do dia a dia: tiramos, sim! Muitas! Mas perdemos vários cliques correndo em busca da câmera, ajustando foco, decidindo pelo uso ou não daquele horripilante flash-cega-nenê.

Muito mais negócio se alguém pudesse inventar um dispositivo acoplado aos nossos olhos, tipo um óculos bonito que pudesse ser acionado a cada momento visto por nós. Bebê riu, clique no óculos! A versão avançada poderia ser acionada por um piscar do olho? Eu agradeceria, porque perco meus óculos o tempo todo entre a papelada de trabalho e a roupa pra passar. Aproveita e insere uma opção de gravar vídeo também, eu acho bonitinho quando as meninas cantam canções inteiras em inglês errado.

Outro bom aplicativo para a vida real seria uma forma de gravar toda a rotina da criança para qualquer outro adulto que assumisse a liderança dos trabalhos. Como o pacotinho gosta da comida, onde prefere se aconchegar pra dormir, bicho de pelúcia favorito, canto mais apropriado pro castigo e frases de efeito pra evitar o castigo - tipo 'experimenta subir aí que você vai ver a mamãe virar um dragão em fúria'. Bastaria acessar a agenda e ver que agora é hora de brincar, depois precisa dar lanche, aí precisa sair 12h43 pra chegar na escola a tempo porque o trânsito no bairro parece enlouquecer exatamente às 12h44... Tudo isso.

Se der, podia incluir ainda uma máscara holográfica que deixasse o adulto responsável com a exata face da mãe ou do pai, conforme preferido no momento. Assim não tem aquele espetáculo da Broadway porque o pimpolho está morreeeendo de saudades da mamãe. Que saiu pela porta faz 38 segundos.

Os aparelhos que disponibilizam mapas, aliás, já podiam por favor evoluir para uma versão 'Pais em Desespero'? Porque é legal achar o monumento, o museu e a igreja, mas também seria ótimo descobrir onde fica o parquinho mais próximo, um restaurante amigo dos cadeirões ou um banheiro apropriado para trocas de fraldas - um que não se pareça com um beco de venda de crack ou uma jaula que comporta 12 gorilas destemperados.

Não é difícil, vai. Vocês conseguiram tornar sucesso de público aparelhos que se comunicam até com a MIR, aplicativos que fazem planta baixa e contam glóbulos vermelhos e jogos com passarinhos que assassinam porcos. Ponham aí as nossas necessidades maternais em prática. Toda mamãe agradece.


Alô, indústria? Precisamos conversar sobre umas ideias aí...

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Fogo no pavio, nas panelas, no coração

Eu gosto mesmo de Natal. Pega eu, você e seu emburramento com o Natal.

Eu gosto do rito em si que traz com ele o fim do ano e uma mudança clássica - a do calendário e a da vida mesmo.

Eu gosto de ter 'O Grande Dia de Montar a Árvore'. Eu gosto de tocar um CD bem vagabundo com Jingle Bells cantado em inglês, espanhol e turco. Gosto de tirar a poeira de todas as caixas de enfeites, de erguer aquela árvore artificial safada e pedir a ajuda das crianças pra criar o encanto com brocado vermelho, laçarotes e a estrela de arame na ponteira.

Eu gosto de acrescentar estrelinhas em todos os puxadores de gaveta e de sair à caça de presentinhos pra todos os envolvidos. O tio da perua ganhou chocolates. As professoras ganharam sabonetes cheirosos. O Papai Noel recebeu carta - e retificação, porque um detalhe importante foi esquecido. Eu não gosto do trânsito no shopping, por isso eu compro a maioria das coisas nas ruas, mas... ah, eu vou no shopping sim, tem lá um idoso vestido de vermelho que cede balas, é legal.

Eu gosto de pensar no cardápio e na arrumação da mesa. Eu gosto de peru. Gosto mesmo, pode tirar sarro: eu gosto de peru no Natal e sonho com o dia em que finalmente as pessoas passarão a noite na minha casa. Já sonhei tudo: eu vou assar o peru com manteiga à beça e levá-lo à mesa inteiro. Vou fazer arroz com amêndoas e molho em separado, além de farofa sem coisas doces e uma torta gostosa e legumes grelhados com sal grosso e azeite e ervas. E eu vou fazer drinques fortes e servir champanhe de verdade em taças de verdade. E eu vou usar um vestido vermelho. E eu vou ligar o ar condicionado na casa dos 19 graus, assim a gente não entra em combustão espontânea.

Eu gosto de ver a carinha das crianças abrindo os presentes... Eu gosto de ver a cara de todo mundo abrindo os presentes. Eu odeio amigo secreto e brincadeiras tipo 'inimigo secreto' - mas posso viver com ela se a maioria achar engraçado, vai. Céus.

Eu gosto de tudo sobre o Natal, e olha que eu não sou nem nunca fui católica (a despeito do que diz o meu fabuloso 'certificado de Primeira Comunhão'). Eu gosto do espírito. De dar e acolher, de esquecer as desavenças e curtir o momento, de entrar numa vibe positiva e num futuro melhor e mais divertido.

O diabo é que eu esmoreço às vezes e saio do espírito. Especialmente quando as pessoas:

- estão mais preocupadas com a grana gasta no presente do que com o regalo em si;
- estão loucamente preocupadas em não sujar seus fogões e em lavar a louça;
- estão insanamente preocupadas com pingos de vinho no tapete;
- estão dando uma banana para a alegria em grupo e só focam no saco cheio individual;
- estão dizendo 'não vejo a hora de acabar essa coisa de Natal';

À esses, o meu pesar. Poderia sugerir um toque de canela aqui, um chapéu de feltro bicolor ali... Mas eu não vou sugerir nada. Cada um tem modo próprio de encarar cada data. Eu não saio correndo atrás do trio-elétrico no Carnaval, então não fico dizendo quem tem que embrulhar pacotes com papel colorido e fita.

Eu posso dizer uma coisa, porém: o Natal pode ser uma ótima oportunidade de fazer uma seleção mental de pessoas e situações e pinçar ali o que é importante de verdade. Não necessita tender bolinha com molho agridoce ou meias decoradas presas no batente por isso, eu sei, pode ser feito em qualquer dia. Mas ritos são sempre valorosos. Ajudam a gente a se posicionar sobre o mundo. Eu me posiciono a favor da festança, de um brinde com borbulhas e de um abraço sincero e apertado.

Sinta-se abraçado por mim nesse Natal! Mesmo você aí, emburradinho.




quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Tumdum, tumdum

Eu só precisava que alguém escutasse o meu coração. Escutasse mesmo, pra valer, prestando atenção em mim e nos detalhes. Ouvisse com calma e cuidado e sem pressa, que não pode escutar um coração com pressa. E pode esquecer a filosofia, eu queria realmente que alguém escutasse o meu coração - assim, com estetoscópio mesmo.

Mas achar um(a) doutor(a) que fizesse isso parecia impossível como encontrar panetone sem caixa amassada no Pão de Açúcar. Ninguém queria. Ninguém queria botar a coisinha grudada no peito e escutar, ninguém queria medir sequer a pressão arterial. Percebi que, hoje, isso compromete: se a pessoa estiver tendo um ataque, quem escutou e mediu precisa socorrer. E deus nos livre de ter que socorrer um atacado, né? Amém!

Ninguém queria escutar e, aquele que foi obrigado, fez marromêno. E me mandou acalmar. Ora, se isso fosse possível eu não precisaria me abalar até o local de atendimento de enfermos e pagar 20 paus de estacionamento, eu só me acalmava e pronto. Mas não era tão fácil. E não era nada grave também, parece. Mas ninguém podia escutar?

Aí uma boa alma me indicou um bom profissional. E eu fiquei pas-ma. Doutor José me atendeu, ouviu e falou muito pouco. Bem pouco mesmo - o que deixa uma verborrágica incorrigível como eu muito incomodada. Eu queria médico que falasse um monte, horas, num bate-papo-clínico de sonho (sonho hipocondríaco, eu sei). Bom, ele falava pouco, mas agia.

Doutor José, pas-mem, me mandou subir numa maca toda profissa e com papel arrumadinho por cima. ME OLHOU NOS OLHOS! Quase apaixonei, porque acho que nenhum médico me olha nos olhos desde a Clínica Modelo, em São Bernardo do Campo, nos idos de 1978, quando eu ganhava pirulito no final.

Olhou nos olhos, baixou a região da olheira com cuidado, mandou olhar pra cima. Acho que um médico não faz isso desde 1978 mesmo - não só comigo, com todos no planeta todo. Tomou pulso no pulso. Mediu a pressão! Ó, e nem foi preso por isso.

Então ele mandou deitar na maca. Deve fazer tanto tempo que um médico não faz exame assim de paciente que poderia até ser considerado assédio. Mas não era, era sapiência. Ele apertou a barriga, ele apertou o pescoço, ele apertou até minhas canelas. Ele escutou o peito com a coisinha de escutar. Me senti com três anos de novo. E contente.

Doutor José pediu uma bateria de exames os mais bestas e padrão, só pra saber como eu vou no geral. Já avisou que estresse is a bitch (não com essas palavras) e muito do que eu sinto parece muito vir daí. Mas ele quer checar tudo direitinho e, resultados em mãos, me mostrar a luz no fim do túnel - a boa, não aquela que nos leva pro campo de golfe nas estrelas.

O consultório dele é daqueles que tem escrito na plaquinha 'Doutor José XXXX', clínico geral. Eu gosto de clínicos gerais. Eles são como pão com manteiga - é simples, é corriqueiro, mas sana todos os aspectos da fome e fica na nossa memória e coração (poética e fisiologicamente).

Doutor José, se falasse só um tico mais e fizesse umas piadas sobre verminose, seria eleito meu guru para sempre. Eu ainda preciso ver se ele vai se adequar - porque eu sou iludida quanto à prática médica, como explicado aqui. Mas tem grande chance. Ele ouviu meu coração, isso é sinal e tanto.





segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Under pressure

Todo mundo que eu conheço é um pouco estressado. Um pouco ou muito. Relax mesmo, mesmo mesmo, só uns três ou quatro - e um deles eu diria que é mais pra morto-vivo, daí a pressão baixa. Porque a minha também é alta. Eu estou aí na seara dos estressados. Eu nem diria, vá, estressada: eu sou irritada, mandona, histérica, implacável, meio grossa, paranoica e muito, muito hipocondríaca. Eu acho que eu sou hipocondríaca por causa de todo o resto. E aí o ciclo é que eu fico nervosa, estresso e em seguida começo a sentir dores de cabeça, dores nas costas, uma pontada no pescoço, formigamento... é tumor cerebral, eu sei que é.

Foi o que eu disse pro doutor Thiago no PS quando ele me atendeu. Eu vinha de episódios de muita pressão alta - que ele minimizou dizendo que nem era tudo isso de alta e que essas medições de máquina de farmácia são tão precisas quanto os atacantes da seleção de futebol da Malásia. Ele me disse pra ir embora relaxar, comer menos sal, fazer exercícios pelamordedeus e, caso persistissem os sintomas, consultar um médico. Eu pensei que era isso que eu estava fazendo... Mas ok, o doutor Thiago tinha mesmo uns 14 anos, acho. Eu sempre acho que os médicos que não são grisalhos e não usam suspensórios e bengala são crianças e sabem nada. Desculpem, médicos.

Mas daí parece que não era um tumor cerebral mesmo (apesar de terem se recusado a fazer a tomografia). Parece que era estresse. Ainda é, porque o pescoço duro está aqui comigo. A moça do laboratório que colheu três tupperwares de sangue meu hoje mediu a pressão e disse 13 por 8. Disse que o que eu tenho deve ser "pressão alta causada por jaleco branco", dado meu nervoso com doutores. Como ela usava cinza e ficou me falando sobre a árvore que caiu ontem com a chuva, hoje a pressão está boa. Boa, não ótima. Eu quero estar sempre ótima, não boa.

Em minha defesa eu quero explicar: eu tenho medo de morrer. Até o dia 29 de janeiro de 2005, eu tinha ZERO medo de morrer. Zero mesmo. Era capaz de planejar os quitutes do meu funeral e decidir sobre o lançamento das cinzas sem piscar ou derramar uma lágrima. No dia 30 a Sabrina nasceu e eu passei a ter muito medo de deixar a coisa mais preciosa do mundo sem eira nem beira. E isso ficou latente até 19 de setembro de 2010, quando então nasceu a Olívia e o medo de morrer virou pânico profundo, um abismo negro e cheio de limo de tormenta e desespero. Freud explica?

Bom, se ele não explica, eu sim. Ficou tudo tão deliciosamente legal e perfeito que eu não quero mais não ter isso. Eu amo o Dono da Casa com todos os meus órgãos vitais e essas duas meninas me completam. Quem abriria mão disso impunemente? E quem não teria medo do tumor cerebral? Quem, quem??

Além disso, eu sonho com muitas coisas. Os lugares que eu quero ir, por exemplo. E se eu morrer sem ver Praga, Viena, Budapeste e Moscou? E se eu perder a chance de molhar os pés nas praias do Cabo San Lucas ou jamais ver as cerejeiras em flor no Japão? Eu ainda quero tanto... Quero tanto ver a África, a Oceania, seis territórios na Ásia e todo o exército amarelo... E se?

O diabo de tudo isso é conseguir respirar fundo (sem sentir uma pontada no peito e achar que é ataque... ok, eu paro). E depois perceber que esse é um comportamento muito ridículo e inútil e sair do ciclo de cabecear toxinas do mal para o meu próprio sangue. É parar, raciocinar e deixar de pensar porcaria. E seguir com o jogo.

Um jogo que fica estacionado por semanas quando eu entro nessas. Não fui almoçar com o Tércio pra comemorar o aniversário dele. Não mandei aquele email de trabalho que vai resultar num projeto bacanudo. Não fui visitar o meu irmão. Não ajudei minha irmã com a louça de domingo. Não terminei minhas obrigações (nem as chatas nem as legais). Disse muito não e bem pouco sim.

Peço desculpas a todos os envolvidos. Até pra minha acupunturista e pajé Stella - por ser um monolito difícil de trabalhar e por não conseguir soltar a cabeça. Eu não solto a cabeça nas mãos dela por nada no mundo, não sei por que. Acho que eu não solto a cabeça e fim. Mas não gosto e quero mudar. Eu quero soltar a cabeça. Soltar a cabeça, deixar a pia suja e a máquina de lavar lotada, os sapatos espalhados.

Eu quero ser menos ágil ao volante e menos católica com horários marcados (afinal, eu sempre acabo esperando todo mundo por 20 minutos mesmo). Eu quero respirar até dar aquela vertigenzinha sem achar que isso é câncer de pulmão! Eu quero só menos estresse. Pra mim e pra todos nós.

Eu podia ir de Queen, mas eu vou de Frankie

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Mas eu não entendo

Ah, bom, tem só umas 897 mil coisas que eu não entendo sobre a humanidade. Que alguém passe fome, por exemplo. Que crianças sejam obrigadas a sofrer com a guerra. E que, diabos, alguém que usa calça saruel se ache com razão pra criticar o meu crocs. Mas, dentre as coisas que eu não entendo, discutamos só duas hoje:

- Homem após homem, mulher após mulher
Não é sobre a insensata divisão heteros e homos. Bom, até é, que os heteros têm umas ideias... O que eu não entendo é, ainda hoje, o Dono da Casa ouvir algo como "vocês vão ter um terceiro filho? Cê não gostaria de tentar um menino?". Deixa ver: o pessoal acha que homem quer ter filho homem pra ter onde depositar a perpetuação de sua espécie, é isso? E que as mães querem ter meninas pra poder repassar toda sua feminilidade pra outra geração? Que coisa mais esquisita. Eu não sei por que o Dono da Casa sequer viria a cogitar isso. Vieram duas meninas pra nós - e, depois disso, ele é comemorado, endeusado, acarinhado e abalroado e agarrado todos os dias assim que põe o primeiro pé em casa. Por duas meninas que simplesmente o adoram e topam todas as paradas dele (como jogar bola, jogar freesbee, caçar tatu-bola, pegar fruta no pé ou qualquer barbaridade).  Quem disse que um moleque faria melhor ou mesmo diferente? Coisa mais ininteligível.

- Essa coisa de pirar com namoricos e a posse
Se tiver uma explicação científica, é essa que eu quero. Porque a do "mas eu aaaaamo ele(a)" não reconheço. Eu sei que é difícil só gostar de quem gosta da gente. Eu sei que tem gente sensacional demais pra não ser amada e desejada. Mas daí a pessoa não quer nossa companhia, não aceita nossos gracejos e abraços e beijinhos e carinho sem ter fim, e não quer  passear de mãos dadas com a gente e fica brava quando descobre que a gente fuçou no celular dela e que ligou pra ela e desligou aquelas 87 vezes no fim de semana e não achou graça de nos achar escondidos debaixo de sua cama e... acabou, né? Segue o jogo, por favor. Bota a pessoa no arquivo da mente e começa a olhar em volta, porque provavelmente está-se deixando passar muita gente boa. E chorar no cantinho é válido por algumas semanas ou até uns meses. Depois para, que isso vai ser tão válido e eficiente na sua vida quanto o uso de aparelhos de ginástica da Polishop.

E se você não me entender, eu tento explicar de novo. O que nunca se explica.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

O bonde das tigronas

Quando a Sabrina nasceu, eu admito que mudei bem pouco a minha vida. Eu já trabalhava em casa e assim continuei; eu nunca fui mesmo de balada forte regada a coisa que parece produto pra limpar janela e segui me satisfazendo com a pizza da sexta à noite; eu e o Dono da Casa gostávamos bem de viajar - e foi fácil botar a criança na mochila e girar o mundo do mesmo jeito. Nessa última questão, eu admito que virei alvo da patrulha: metade achava um absurdo viajar com criança pequena, metade achava que a gente até podia ir, mas que devia ficar aqui pertinho, ir comer uma lula frita no Embaré já era lucro e tals... Olha, talvez a coisa que eu tenha menos mudado com o nascimento da Sabrina foi que continuei dando picas pra opinião dos outros.

Achava absolutamente ridículo imaginar viajar sem a minha criança. Achava estúpido quando me diziam que já estava bom ter cuidado dela por um ano e meio até mandar na escola e devia voltar a trabalhar fora. Achava uma cretinice aquela coisa que outras mães diziam sobre "precisar de um tempo só com o marido". Hoje eu acho que cada um pensa o que quiser - e mudei só alguns pontinhos.

Bom, ainda acho incrivelmente estranho não estar perto da Sabrina e da Olívia, que chegou pra botar mais malas no bagageiro do avião e afazeres na "to-do-list" diária. Mas confesso que canso mais rápido e às vezes peço arrego. Sou eu quem faz a comida, dá a comida, dá comida no sentido de bronca mesmo. Sou eu quem levo, busco e canto junto no caminho. Sou eu quem veste, banha, acarinha, ajuda na lição, discute sobre a moral de "Esqueceram de Mim" no que concerne à atuação da família na formação de caráter. Sou eu quem está pro que der e vier - contando só com a ajuda providencial do Dono da Casa, mais ninguém. Estar sem crianças por perto é esquisito.

Mas, depois de 7 anos amando essa dinâmica, esse ano eu descobri a beleza de passar cinco dias longe de tudo isso. Ganhei de presente do Dono da Casa uma passagem para encontrar minha amada amiga no estrangeiro - e passei quase uma semana batendo perna e papo. Foi uma DOIDEIRA.

Nos dois primeiros dias eu, por várias vezes, batia a mão nas cadeiras procurando chaves, carteira ou sacolas imaginárias - pra depois sacar que eu não tinha esquecido nada disso, eu tinha é crianças a menos pra cuidar. No almoço ou jantar, era o sentimento mais maluco não precisar levar ninguém ao banheiro ou fazer colheradas de comida ou desenhar no jogo americano. Éramos só eu, minha amiga, os quitutes e quantos minutos eu quisesse apreciando o cheiro do café.

Isso foi de uma importância pra minha organização mental difícil de descrever. Mas eu tento: eu estava ficando louca e esgotada e os dias de folga vieram a permitir que eu não me jogasse da janela ou mordesse um transeunte na rua. Eu curti sem culpa alguma e voltei nova pra ser uma mãe melhor.

Quando outros caras casados souberam do que o Dono da Casa me proporcionou com seu plano de milhas aéreas, acho que ele quase virou alvo de atentado. De novo, metade achou que a gente estivesse se separando e a outra metade achou que ele fez isso pra compensar alguma bela merda que tinha feito comigo. Não foi. Ele fez por amor. E eu aceitei por amor também.

O caso é que, deixar um pouco esse palco e ir ali ser só eu mesma, não a mãe, a jornalista, a motorista, a cozinheira, a equilibrista e a mulher barbada do circo (quem tem tempo pra estética?), foi bom pra todos nós. Em muitas casas as coisas são até divididas mais igualmente, com pais e mães meiando as tarefas, mas sendo eu quem fica mais em casa, natural que me sobrem mais atividades. Assim, eu estar na total posse das minhas faculdades mentais é importante pra todos aqui. Como muitas mamães precisam. "Happy wife, happy life", é o que seu sempre digo...

Algumas amigas quiseram saber como foi isso e se "Dono da Casa deu conta". Ele deu conta - ele é um adulto saudável e inteligente, com dois braços e duas pernas e amado pelas filhas, como poderia dar alguma coisa errada? Elas queriam é saber mesmo, eu acho, se funcionaria pra elas. E se a vontade e a coragem vierem, eu sugiro que todas tentem. Eu acho até que as agências de turismo estão perdendo tempo ao não criar um produto específico para mães. Pode chamar até "Mães em Férias da Porra da Rotina".

Podiam criar esse pacote de cinco dias em cidades encantadoras, cheias de museus e restaurantes onde a gente come o que quiser e não o que precisa dividir com os filhos, e curte umas profundas respiradas e um tempo pra ler no parque ou uma noite toda dormindo em "X" na cama do hotel glamouroso. Ou que seja numa barraca no mato, nem importa.

O que importa mesmo é entender que, sim, as pessoas que são as maiores responsáveis pela logística da família merecem e precisam de um tempo de vez em quando. Precisam recuperar um tempo pra si - pra pensar, pra  refletir, pra fazer nada ou só pra tomar um banho completo sem gente invadindo o banheiro berrando "manhêêê, cadê o meu coisinho?".

Eu fui, vi e fiquei bem, assim como todo o meu pessoal. Quem quiser entrar nesse bonde tem o meu apoio e o meu apreço. É uma mudança valorosa para um dia a dia alegre, mas complexo, e uma boa chance de ignorar o que todo mundo acha e ir ficar contente e dominar a própria vida por uns poucos dias. Na volta, contem-me tudo!


Mamãe vai ali e já vem