Aí que a minha amiga Denize saiu-se com uma brincadeira dessas de facebook que parece corrente, só que do bem e muito mais legal. É um lance de receber um número e, com ele, ter que escrever a determinada quantidade de coisas que pouca eu nenhuma gente sabe sobre nós. Denize me deu o número 8. E eu fiquei aqui matutando...
... bom, tem muito mais que 8 coisas desconhecidas do *grande público* sobre a minha humilde pessoa. Ainda bem, que não serei eu a querer ficar famosa nessa vida e ter fotógrafo se escondendo nos buchinhos do jardim a caçar cliques. Que humilhante. Pros fotógrafos, claro.
Mas eu acho que posso dizer 8 coisas que pouca gente sabe sobre mim em âmbitos variados. Quem quiser, segura o chapéu aí e vem saber:
1. No profissional: fazendo uma conta básica aqui de uma ou duas matérias escritas a cada mês há 20 anos, mais as crônicas e etcs., creio que já botei pra rodar bem uns 2.000 textos por aí. E o meu favorito continua sendo o primeiro, feito pro jornal da faculdade, sobre uma pracinha safada de São Bernardo do Campo que estava em obras. Só porque foi esse que me mostrou que eu gostava mesmo daquilo.
2. No âmbito gastronômico: eu sinto ódio de gente que pede um prato no restaurante e fica mandando tirar a cebola, trocar o molho, substituir os legumes e enchendo o saco com coisinha. Mais que isso, eu só odeio gente que vai no restaurante e leva um saco de comida de lanchonete pra criança comer. Poderia atear fogo em todos. Se eu fosse o chef, ateava.
3. No âmbito da saúde: eu descobri há um ano que tenho uma bola de quase 8 cm no fígado. Foi um período apavorante até descobrir que ela não será operada, não será mexida, não será remediada. Ela vai ficar ali até... sei lá, espero que pra sempre. Ou que suma com magia.
4. No âmbito familiar: todas as pessoas no meu núcleo próximo têm apelidos absurdos de nomes que inventamos de pequenos ou ao longo da vida. Meus pais, por exemplo, sempre foram o Pintado e a Neguinha pros íntimos; deles nasceram Maria Borga, Relno e Chica; e os netos vão de Georgete e Bicho-Pau a Pedro e Daisy terminando em Janice e LaToya. É assim que a gente deve se identificar ao baixar como espírito e incorporar nos psicografistas.
5. No âmbito esportivo: eu sempre fui um fracasso nos esportes - em muito, porque eu tenho vergonha de tudo. Vergonha do traje apropriado, vergonha da fragilidade inicial, vergonha de ir muito mal, vergonha de quem assiste, vergonha de suar, vergonha de tudo. Vergonha nos esportes: sou portadora.
6. No âmbito turístico: eu só viajo pra curtir praia, natureza, sol e mata se eu não puder evitar (ou pra agradar às crianças). Acho um porre. Entendo o valor do descanso e do cenário, recomendo pra outros... mas meu negócio é acordar e conhecer cidades.
7. No âmbito televisivo: eu assisto 'Esposas da Máfia'. E não é pra tirar sarro, é consciente mesmo.
8. No âmbito do facebook: mais de quatro dúzias dos meus *amigos* de rede social estão no modo 'não mostrar no feed de notícias'. Não é por nada, são boas pessoas, mas enchem o saco com suas colocações. Eu encho também, quem quiser pode me colocar no 'não mostrar no feed de notícias'. Depois desse texto, se for o caso, manda ver.
quinta-feira, 21 de novembro de 2013
segunda-feira, 9 de setembro de 2013
Auto-imagem
Sabe esse negócio de transtorno de imagem, no qual a gente se vê de um jeito diferente da realidade? Pois é, eu tenho isso aí. Só que a meu favor.
Percebi que eu sou portadora de transtorno de imagem - e que, surpresa, ele quer é me favorecer. Nada de achar gorda, feia, molenga, berebenta, esquisita e mocoronga. Meu transtorno de imagem só me quer bem. Eu coloco um conjunto saia e blusa, acrescento tênis, colares e pulseira, puxo o cabelo de lado e, no espelho, acho que ficou superlegal. Aí alguém bate uma foto na festa ou no jantar e... bem, eu estava parecendo um espantalho, na realidade. Mas eu gostei quando vi o conjunto!
Tenho senso-crítico suficiente pra ver, depois, que fiquei bagunçada - mas é um efeito retardado. Na hora de vestir, eu acho tudo bacana. E funciona pra outros setores.
Se fosse pra anotar sem pensar, eu diria que tenho uns 67 quilos. A balança da farmácia, por outro lado, aponta sempre algo entre 73 e 74 quilos. Nem adianta tirar celular, chaves, as balas e o chocolate do bolso, dá sempre isso (por isso eu já nem tiro, apenas desconto uns trocos). Eu me sinto mesmo com 67. Algum psiquiatra precisa estudar e explicar aí esse delay de seis ou sete quilos. Vai ver que é o ego pesado.
Tenho sempre a impressão que os cabelos brancos são charmosos e que a camiseta meio antiga é charme, não falta de tempo e verba pra comprar outra. Tenho sempre a impressão de que, como dito lá em cima, bota e tênis combinam com vestido e que chapéus me caem bem (apesar de toda guru de estilo ou blogueira de moda dizer que não, chapéu algum cai bem pra qualquer humano exceto o Adoniran).
Eu respondo a quizzes e acho que acertar 8 de 10 é um PUTA score, e que minha habilidade de motorista me habilitaria pra Le Mans. Eu gosto bastante da minha comida e tendo a me achar engraçada (daí, talvez, gostar também de chapéus, como dito acima, já que chapéu é pra quem sabe rir até de si). Eu me considero boa com as palavras. E cantando. E atuando. Mesmo sendo um trabalho interno e sem ninguém mais dar aval algum sobre disso.
Tenho sérias críticas à minha pessoa, mas quase nenhuma delas tem a ver com aparência e apresentação social. Tenho certeza absoluta - até com testemunhos - de que outras pessoas discordam veementemente e acham que, vixe, eu precisava bem urgente de uma personal (stylist/ shopper/ trainer/ complete aqui com outros ajudantes). Mas eu só peço opinião alheia pra ter certeza que a minha é boa o suficiente. E que as barras dobradas da calça não achatam minha silhueta, mas sim a destacam.
Se eu acho tudo perfeito? Longe disso. O nariz é grande demais, as coxas roçam uma na outra, teria que fazer um extreme makeover semanal nas minhas sobrancelhas... Mas podendo evitar a dor, pra quê correr na direção dela? Tento com integrais, saias em formato de A (com tênis, sempre), corretivo sob os olhos. E acho que fica é bom.
Não sei se eu tenho um transtorno de imagem do Mundo Bizarro ou falta de espelho em casa. Não sei se o 'problema' é falta de vaidade ou excesso de orgulho. Só sei que eu jogo no meu time - transtornada além da conta.
Percebi que eu sou portadora de transtorno de imagem - e que, surpresa, ele quer é me favorecer. Nada de achar gorda, feia, molenga, berebenta, esquisita e mocoronga. Meu transtorno de imagem só me quer bem. Eu coloco um conjunto saia e blusa, acrescento tênis, colares e pulseira, puxo o cabelo de lado e, no espelho, acho que ficou superlegal. Aí alguém bate uma foto na festa ou no jantar e... bem, eu estava parecendo um espantalho, na realidade. Mas eu gostei quando vi o conjunto!
Tenho senso-crítico suficiente pra ver, depois, que fiquei bagunçada - mas é um efeito retardado. Na hora de vestir, eu acho tudo bacana. E funciona pra outros setores.
Se fosse pra anotar sem pensar, eu diria que tenho uns 67 quilos. A balança da farmácia, por outro lado, aponta sempre algo entre 73 e 74 quilos. Nem adianta tirar celular, chaves, as balas e o chocolate do bolso, dá sempre isso (por isso eu já nem tiro, apenas desconto uns trocos). Eu me sinto mesmo com 67. Algum psiquiatra precisa estudar e explicar aí esse delay de seis ou sete quilos. Vai ver que é o ego pesado.
Tenho sempre a impressão que os cabelos brancos são charmosos e que a camiseta meio antiga é charme, não falta de tempo e verba pra comprar outra. Tenho sempre a impressão de que, como dito lá em cima, bota e tênis combinam com vestido e que chapéus me caem bem (apesar de toda guru de estilo ou blogueira de moda dizer que não, chapéu algum cai bem pra qualquer humano exceto o Adoniran).
Eu respondo a quizzes e acho que acertar 8 de 10 é um PUTA score, e que minha habilidade de motorista me habilitaria pra Le Mans. Eu gosto bastante da minha comida e tendo a me achar engraçada (daí, talvez, gostar também de chapéus, como dito acima, já que chapéu é pra quem sabe rir até de si). Eu me considero boa com as palavras. E cantando. E atuando. Mesmo sendo um trabalho interno e sem ninguém mais dar aval algum sobre disso.
Tenho sérias críticas à minha pessoa, mas quase nenhuma delas tem a ver com aparência e apresentação social. Tenho certeza absoluta - até com testemunhos - de que outras pessoas discordam veementemente e acham que, vixe, eu precisava bem urgente de uma personal (stylist/ shopper/ trainer/ complete aqui com outros ajudantes). Mas eu só peço opinião alheia pra ter certeza que a minha é boa o suficiente. E que as barras dobradas da calça não achatam minha silhueta, mas sim a destacam.
Se eu acho tudo perfeito? Longe disso. O nariz é grande demais, as coxas roçam uma na outra, teria que fazer um extreme makeover semanal nas minhas sobrancelhas... Mas podendo evitar a dor, pra quê correr na direção dela? Tento com integrais, saias em formato de A (com tênis, sempre), corretivo sob os olhos. E acho que fica é bom.
Não sei se eu tenho um transtorno de imagem do Mundo Bizarro ou falta de espelho em casa. Não sei se o 'problema' é falta de vaidade ou excesso de orgulho. Só sei que eu jogo no meu time - transtornada além da conta.
quinta-feira, 5 de setembro de 2013
Tomara
Aí a gente fica sempre se acreditando aquela pessoa altamente cética. Cééética, cética. Eu não acredito em fantasmas, vida após a morte, reencarnação. Eu até acredito em objetos voadores não-identificados, mas só pela incompetência da identificação, não que eles portem seres de outros planetas. Eu não acredito em duendes - e magia, pra mim, é tomar café e ver o líquido bater na cuca e acelerar o coração. Eu não acredito em bruxas ou fadas, só no poder científico da natureza mesmo. E acredito menos que tudo no sistema financeiro, em bolsa de valores e no risco-Brasil. Mas aí a gente, cééética, se escuta um dia dizendo 'ai, tomara que...'. Tomara. Tomara?!
'Tomara que o exame não aponte problema de saúde'. A rigor, se a gente for pensar, o tomara não muda a coisa: se estiver doente, o exame mostra; se não estiver doente, o exame mostra. 'Tomara' não vai mudar o resultado do exame. Ou vai?
Torcer pro time de futebol - faz diferença? Você e sua torcida entram em campo, mudam a trajetória da bola, acrescentam braçadas na água ou impulsionam os joelhos e a panturrilha? Não, na verdade. Mas os atletas sempre contam que a torcida a favor tem uma força incrível. Dá pra ser cético e gostar de esporte, então?
Torcer pela felicidade de alguém. Que diabo? A felicidade de alguém é algo tão particular que a gente pode aqui vestir sainha e agitar pom-poms no ar e ainda ser incapaz de mudar qualquer coisa na felicidade daquela pessoa amada. Mas as boas vibrações ganham os céus, batem no satélite e são capazes de atingir lá o outro, dando uma alegrada? Minha amiga que mora no exterior diz que sim, que fica mais feliz quando sabe que eu pensei nela. Dá, aliás, pra ser cética e ter amizade? Amizade não se pega, não se come... 'tomara que sejamos amigos pra sempre'. Pra sempre nem existe!
Tomara. Tomara, tomara, ai, tomara! Dizem os cientistas de uma revista médica que eu li há alguns anos (não tenho a fonte exata, você vai ter que ser menos cético e acreditar em mim apenas) que pensar positivo e desejar coisas boas, sim, tem influência no organismo. Que o corpo sabe quando a gente se anima, manda vibes legais pro cérebro, que solta lá sua magia de substâncias no sangue e evita doenças. Dizem também, os craques da medicina, que, por outro lado, bastam cinco minutos de stress reforçado pra jogar nosso sistema imunológico abaixo de zero. Então seu chefe chama na sala com cara séria, você entra em nóia, alguém espirra do seu lado... pronto, gripe causada por não ser capaz de mentalizar 'tomara que não seja demissão'. É isso?
Não sei. Só sei que ser cética me ajuda e atrapalha, mesmo sendo algo totalmente não-palpável. Eu não creio em cristais ou reza, mas eu digo muito 'tomara'. Tomara que dê certo.
'Tomara que o exame não aponte problema de saúde'. A rigor, se a gente for pensar, o tomara não muda a coisa: se estiver doente, o exame mostra; se não estiver doente, o exame mostra. 'Tomara' não vai mudar o resultado do exame. Ou vai?
Torcer pro time de futebol - faz diferença? Você e sua torcida entram em campo, mudam a trajetória da bola, acrescentam braçadas na água ou impulsionam os joelhos e a panturrilha? Não, na verdade. Mas os atletas sempre contam que a torcida a favor tem uma força incrível. Dá pra ser cético e gostar de esporte, então?
Torcer pela felicidade de alguém. Que diabo? A felicidade de alguém é algo tão particular que a gente pode aqui vestir sainha e agitar pom-poms no ar e ainda ser incapaz de mudar qualquer coisa na felicidade daquela pessoa amada. Mas as boas vibrações ganham os céus, batem no satélite e são capazes de atingir lá o outro, dando uma alegrada? Minha amiga que mora no exterior diz que sim, que fica mais feliz quando sabe que eu pensei nela. Dá, aliás, pra ser cética e ter amizade? Amizade não se pega, não se come... 'tomara que sejamos amigos pra sempre'. Pra sempre nem existe!
Tomara. Tomara, tomara, ai, tomara! Dizem os cientistas de uma revista médica que eu li há alguns anos (não tenho a fonte exata, você vai ter que ser menos cético e acreditar em mim apenas) que pensar positivo e desejar coisas boas, sim, tem influência no organismo. Que o corpo sabe quando a gente se anima, manda vibes legais pro cérebro, que solta lá sua magia de substâncias no sangue e evita doenças. Dizem também, os craques da medicina, que, por outro lado, bastam cinco minutos de stress reforçado pra jogar nosso sistema imunológico abaixo de zero. Então seu chefe chama na sala com cara séria, você entra em nóia, alguém espirra do seu lado... pronto, gripe causada por não ser capaz de mentalizar 'tomara que não seja demissão'. É isso?
Não sei. Só sei que ser cética me ajuda e atrapalha, mesmo sendo algo totalmente não-palpável. Eu não creio em cristais ou reza, mas eu digo muito 'tomara'. Tomara que dê certo.
quinta-feira, 27 de junho de 2013
Todos juntos vamos, pra frente, eu e você!
Depois de virar um yakult no meio da cozinha (e em cima da criança) e enfiar uma farpa debaixo da unha, eu admito que o dia não tinha se tornado, assim, colorido. O cinza lá fora dizia o mesmo, assim como a garoa fina marcada para qualquer momento decisivo, como estender as roupas lavadas ou sair pra comprar qualquer coisa na feira.
Aí eu tive más notícias sobre trabalho (mentira, foi sobre o dinheiro que o trabalho renderia, porque notícia ruim sobre trabalho eu tiro é de letra... já o calote...). Aí eu tive notícias não tão boas sobre amigos. Aí a coisa foi ficando, assim, sombria.
Então eu decidi que, sendo o penúltimo dia de aula da mais velha, a gente podia enfiar o pé na jaca e fingir de rico e pedir um almoço japonês pelo telefone. Melhor, pela internet, coisa de rico classudo e moderno. Eu pedi mesmo, pedi até rolinho primavera pra acompanhar. E o aviso de 40 minutos pra entrega se traduziu em 1h30, o que me obrigou a fazer um macarrão instantâneo pras meninas - sim, aquele guardado no fundo do armário, coberto de poeira de farinha de linhaça, destinado apenas a uma possível hecatombe nuclear.
Dado o atraso, saímos às pressas, fora do prumo, que tinha ficado lá em 12h45. Sendo agora 13h15, era abraçar o capeta e correr. E corremos, mas, lógico, dentro do modelo civilizado de estar em chamas por dentro, mas respirar fundo pra ir aplacando esse fogo. Aplacamos antes de o portão da garagem fechar. Estávamos começando a achar por bem cantar "Pai Francisco entrou na roda" quando um homem aparentemente não-medicado pelo psiquiatra sentou com a mão na buzina. Porque o semáforo abriu. Há dois segundos.
Bom, a gente abanou a mão pra ele em sinal de 'bandeira branca, amor, não posso mais, pela saudade que me invade eu peço paz'. E seguimos.
Na quadra seguinte, apinhada de automóveis, uma senhora jogou seu carro de lado, no espaço onde estariam carros estacionados, e... bem, "cortou caminho" para chegar primeiro no farol. Passou, trincando rodas, e partiu. Nossa.
Foram mais dois quarteirões de taxistas em fila dupla e um garoto que simplesmente parou no meio da via de mão dupla pra deixar a caranga furiosa com o manobrista. Desejei, secretamente, que o manobrista fosse aquele que pegou a Ferrari guiada por Ferris Bueller. E que ele tenha tido um dia divertido.
Crianças entregues, tarefa cumprida, entre mortos e feridos salvamo-nos todos. Eu espero que todos. Porque, ó: eu sou a mais favorável a sair na rua em manifestação por um país melhor, mais justo, mais sério. Só que não sei se adianta sair todo de branco, todo de preto, todo pintado, todo manhoso, todo portando cartazes em um dia só na década.
Serve, sim, se a gente sair de casa, também nos outros dias, deixando pra trás o saco estourando de cheio e passar da porta pra rua querendo fazer o país melhor hoje. E amanhã. E todo dia, toda hora. Não adianta chorar e gritar pelo yakult derramado, adianta superá-lo.
Aí eu tive más notícias sobre trabalho (mentira, foi sobre o dinheiro que o trabalho renderia, porque notícia ruim sobre trabalho eu tiro é de letra... já o calote...). Aí eu tive notícias não tão boas sobre amigos. Aí a coisa foi ficando, assim, sombria.
Então eu decidi que, sendo o penúltimo dia de aula da mais velha, a gente podia enfiar o pé na jaca e fingir de rico e pedir um almoço japonês pelo telefone. Melhor, pela internet, coisa de rico classudo e moderno. Eu pedi mesmo, pedi até rolinho primavera pra acompanhar. E o aviso de 40 minutos pra entrega se traduziu em 1h30, o que me obrigou a fazer um macarrão instantâneo pras meninas - sim, aquele guardado no fundo do armário, coberto de poeira de farinha de linhaça, destinado apenas a uma possível hecatombe nuclear.
Dado o atraso, saímos às pressas, fora do prumo, que tinha ficado lá em 12h45. Sendo agora 13h15, era abraçar o capeta e correr. E corremos, mas, lógico, dentro do modelo civilizado de estar em chamas por dentro, mas respirar fundo pra ir aplacando esse fogo. Aplacamos antes de o portão da garagem fechar. Estávamos começando a achar por bem cantar "Pai Francisco entrou na roda" quando um homem aparentemente não-medicado pelo psiquiatra sentou com a mão na buzina. Porque o semáforo abriu. Há dois segundos.
Bom, a gente abanou a mão pra ele em sinal de 'bandeira branca, amor, não posso mais, pela saudade que me invade eu peço paz'. E seguimos.
Na quadra seguinte, apinhada de automóveis, uma senhora jogou seu carro de lado, no espaço onde estariam carros estacionados, e... bem, "cortou caminho" para chegar primeiro no farol. Passou, trincando rodas, e partiu. Nossa.
Foram mais dois quarteirões de taxistas em fila dupla e um garoto que simplesmente parou no meio da via de mão dupla pra deixar a caranga furiosa com o manobrista. Desejei, secretamente, que o manobrista fosse aquele que pegou a Ferrari guiada por Ferris Bueller. E que ele tenha tido um dia divertido.
Crianças entregues, tarefa cumprida, entre mortos e feridos salvamo-nos todos. Eu espero que todos. Porque, ó: eu sou a mais favorável a sair na rua em manifestação por um país melhor, mais justo, mais sério. Só que não sei se adianta sair todo de branco, todo de preto, todo pintado, todo manhoso, todo portando cartazes em um dia só na década.
Serve, sim, se a gente sair de casa, também nos outros dias, deixando pra trás o saco estourando de cheio e passar da porta pra rua querendo fazer o país melhor hoje. E amanhã. E todo dia, toda hora. Não adianta chorar e gritar pelo yakult derramado, adianta superá-lo.
quarta-feira, 12 de junho de 2013
Eu carrego corações
Não é que eu seja, assim, uma fanática por poemas. Pra dizer a verdade, eu nem sei se eu entendo todos os poemas ou mesmo gosto da maioria. Daí que eles, os que eu entendo e gosto, acabam chegando na minha mente dos modos mais inusitados. Tem um que eu vi em um filme chamado "In Her Shoes", por exemplo. É com a Cameron Diaz e a Tony Collette, perfeitas nos papéis de duas irmãs muito diferentes sacaneadas pela vida e tentando se entender.
A irmã mais nova lê esse poema, o que é um grande feito pra dislexia dela, e é o momento mais bonito do filme. Eu gosto demais do sentido dessas palavras de E. E. Cummings - e achei legal colocar hoje, Dia dos Namorados, pra todo mundo ler. Porque essa é minha comemoração romântica favorita: o amor por todo mundo, os amigos, as crianças, de quem é ou foi, e não só de quem é mesmo namorado, casado ou tico-tico-no-fubá, como diria Silvio Santos (um poeta menos compreendido).
Então que vocês tenham o coração bem celebrado hoje! E celebrem o amor por todo mundo que fizer parte dos seus corações. Eu carrego o coração de todos desejando mais amor onde quer que vocês estejam!
I carry your heart with me
(I carry it in my heart)
I’m never without it
anywhere I go you go, my dear; and whatever is done
by only me is your doing, my darling
I fear no fate (for you are my fate, my sweet)
I want no world for beautiful they are, you are my world, my true
Here is the deepest secret nobody knows
(here is the root of the root and the bud of the bud
and the sky of the sky of a tree called Life); which grows
higher than soul can hope or mind can hide
and this is the wonder that’s keeping the stars apart
I carry your heart
(I carry it in my heart)
Eu carrego o seu coração comigo.
Eu o carrego no meu coração.
Eu nunca estou sem ele
Aonde quer que eu vá, você vai, minha querida.
E o que quer que eu faça sozinho, foi você, minha querida.
Eu não temo o destino.
Porque você é o meu destino, minha doçura.
Eu não quero o mundo, por mais belo que seja.
Porque você é o meu mundo, minha verdade.
Esse é o maior dos segredos que ninguém sabe.
Você é a raiz da raiz, é o botão do botão.
E o céu do céu de uma árvore chamada Vida.
Que cresce mais alto do que a alma pode esperar
Ou a mente esconder. Este é o milagre que distância as estrelas.
Eu carrego o seu coração.
Carrego no meu coração.
E. E. Cummings
A irmã mais nova lê esse poema, o que é um grande feito pra dislexia dela, e é o momento mais bonito do filme. Eu gosto demais do sentido dessas palavras de E. E. Cummings - e achei legal colocar hoje, Dia dos Namorados, pra todo mundo ler. Porque essa é minha comemoração romântica favorita: o amor por todo mundo, os amigos, as crianças, de quem é ou foi, e não só de quem é mesmo namorado, casado ou tico-tico-no-fubá, como diria Silvio Santos (um poeta menos compreendido).
Então que vocês tenham o coração bem celebrado hoje! E celebrem o amor por todo mundo que fizer parte dos seus corações. Eu carrego o coração de todos desejando mais amor onde quer que vocês estejam!
I carry your heart with me
(I carry it in my heart)
I’m never without it
anywhere I go you go, my dear; and whatever is done
by only me is your doing, my darling
I fear no fate (for you are my fate, my sweet)
I want no world for beautiful they are, you are my world, my true
Here is the deepest secret nobody knows
(here is the root of the root and the bud of the bud
and the sky of the sky of a tree called Life); which grows
higher than soul can hope or mind can hide
and this is the wonder that’s keeping the stars apart
I carry your heart
(I carry it in my heart)
Eu carrego o seu coração comigo.
Eu o carrego no meu coração.
Eu nunca estou sem ele
Aonde quer que eu vá, você vai, minha querida.
E o que quer que eu faça sozinho, foi você, minha querida.
Eu não temo o destino.
Porque você é o meu destino, minha doçura.
Eu não quero o mundo, por mais belo que seja.
Porque você é o meu mundo, minha verdade.
Esse é o maior dos segredos que ninguém sabe.
Você é a raiz da raiz, é o botão do botão.
E o céu do céu de uma árvore chamada Vida.
Que cresce mais alto do que a alma pode esperar
Ou a mente esconder. Este é o milagre que distância as estrelas.
Eu carrego o seu coração.
Carrego no meu coração.
E. E. Cummings
quarta-feira, 15 de maio de 2013
All by myself
Tem aquele filme que eu adoro, que advém de um livro que eu adoro, chamado "About a Boy" - ou "Um Grande Garoto", na tradução brasileira que deve ter sido feita pelo Cascatinha. No filme, Hugh Grant entra na pele de um dos principais personagens e explica que, ao contrário da máxima "nenhum homem é uma ilha", ele é sim. Ele é Ibiza. Bom, eu não sou Ibiza. Talvez eu seja a Sicília. Ou Marajó.
É fato que estar sozinha não é um grande problema pra mim. Eu não fico chateada, solitária, chorando no cantinho. Eu fico bem sozinha. Invento modas, invento tarefas, falo com a minha pessoa... assim, bem louca mesmo. E vem de longa data.
Por exemplo: eu preferia mil vezes fazer trabalho escolar sozinha. Mil e quinhentas vezes. Não era uma opção complicada, porque tinha aquilo tudo - sempre me destacavam como parceiro um cabeção preguiçoso e que não me deixava mandar no grupo; sempre dava pau; sempre era uma dificuldade marcar horário com aquela gente pra reunir a dupla ou a quadrilha (ocupados, nossa... deviam ser as pessoas de 11 anos mais ocupadas do mundo, com suas... disputas de Super-trunfo?).
Enfim, eu preferia pesquisar e escrever sobre Tiradentes pela minha própria conta e risco. Assim como aprender a dirigir. Que saco aquela pessoa sentada no banco ao lado dando palpites e botando reparo... "Acelera mais", "acelera menos", "solta o freio", "não solta o breque na ladeira", "anda do seu lado da rua", "cuidado com a velhinha"... Um porre. Bom mesmo foi quando tomei certa prática e achei um carro emprestado de alguém bem desapegado (obrigada, mãe) e pude sair guiando sozinha, testando comandos e pedais no meu tempo, assim como a noção de distância e a manha da embreagem (desculpa de novo pelo amassado no portão, mãe).
Tão bem eu fico como dona do meu nariz que, pasmem, ninguém conheceu meu vestido de noiva até o momento de entrar no salão. Até ali, alguns viram o desenho, mas nada mais. Eu fui sozinha em todas as quatro provas que a costureira insistiu em fazer. A melhor parte foi que eu decidi tudo sobre ele - a não ser sobre aquele tico de tecido extra na saia, que eu mandei tirar, mas a moça da agulha se rebelou. Tive a impressão que ela ia chorar e dizer "se você tivesse uma acompanhante aqui aposto que ela concordaria comigo!". Mas eu não tinha. Até pra ela não concordar com a costureira mesmo.
Exames médicos: não faço questão de ninguém segurando a minha barra. Olha que eu fico com o coração na mão e talvez fosse bom alguém segurá-lo um pouco enquanto eu vou ali toma o décimo copinho de água, mas prefiro que não. Ficaria aquele clima de jogar conversa fora e fazer a social, quando na verdade só o que eu quero é morrer dez vezes. Não morro, aceito as picadas, as investigações arqueológicas e as doses de embaraço na salinha escura do exame de imagem e fim. Tomo um café com bolacha depois, acompanhada dos fones de ouvido com música, e fim mais ainda.
Nem no nascimento das minhas duas filhas necessitou muito acompanhamento. Especialmente no caso da primogênita. Marcar ultrassom no meio da tarde era muito mais ligeiro e tranquilo. E quem pode ficar saindo do trabalho plena 14h30 pra ver bebê cinza na telinha? Deixa comigo. Fui, vi e venci - e não levei dispositivo para gravação do conteúdo, desculpem. Foi para meus olhos apenas.
Mas é notório que, conforme o tempo passa, estar sozinha é quase tão possível quanto nadar pelada no Pólo Norte. Não acontece mais. Não há muita hora pra isso nos dias de semana, sempre lotados, nem nos fins de semana, lotados e com crianças. Não se pode tomar banho sem o banheiro ser devassado por menores, não se pode ler muito tempo sem tocar um celular ou fixo, não se pode nem ficar escondida no banco traseiro do carro lá na garagem por meras três horas antes que chamem a polícia... Dureza.
Hoje me contento em ser uma ilha internamente. Hoje devo ser, sei lá, uma das Keys lá da Flórida, que seria ilha não houvesse tanta ponte se pegando a elas. Eu sou uma ilha, mas a vida se encarrega de desembarcar turistas em mim a cada quarto de hora. Tudo bem nessa porção de terra cercada de gente por todos os lados.
É fato que estar sozinha não é um grande problema pra mim. Eu não fico chateada, solitária, chorando no cantinho. Eu fico bem sozinha. Invento modas, invento tarefas, falo com a minha pessoa... assim, bem louca mesmo. E vem de longa data.
Por exemplo: eu preferia mil vezes fazer trabalho escolar sozinha. Mil e quinhentas vezes. Não era uma opção complicada, porque tinha aquilo tudo - sempre me destacavam como parceiro um cabeção preguiçoso e que não me deixava mandar no grupo; sempre dava pau; sempre era uma dificuldade marcar horário com aquela gente pra reunir a dupla ou a quadrilha (ocupados, nossa... deviam ser as pessoas de 11 anos mais ocupadas do mundo, com suas... disputas de Super-trunfo?).
Enfim, eu preferia pesquisar e escrever sobre Tiradentes pela minha própria conta e risco. Assim como aprender a dirigir. Que saco aquela pessoa sentada no banco ao lado dando palpites e botando reparo... "Acelera mais", "acelera menos", "solta o freio", "não solta o breque na ladeira", "anda do seu lado da rua", "cuidado com a velhinha"... Um porre. Bom mesmo foi quando tomei certa prática e achei um carro emprestado de alguém bem desapegado (obrigada, mãe) e pude sair guiando sozinha, testando comandos e pedais no meu tempo, assim como a noção de distância e a manha da embreagem (desculpa de novo pelo amassado no portão, mãe).
Tão bem eu fico como dona do meu nariz que, pasmem, ninguém conheceu meu vestido de noiva até o momento de entrar no salão. Até ali, alguns viram o desenho, mas nada mais. Eu fui sozinha em todas as quatro provas que a costureira insistiu em fazer. A melhor parte foi que eu decidi tudo sobre ele - a não ser sobre aquele tico de tecido extra na saia, que eu mandei tirar, mas a moça da agulha se rebelou. Tive a impressão que ela ia chorar e dizer "se você tivesse uma acompanhante aqui aposto que ela concordaria comigo!". Mas eu não tinha. Até pra ela não concordar com a costureira mesmo.
Exames médicos: não faço questão de ninguém segurando a minha barra. Olha que eu fico com o coração na mão e talvez fosse bom alguém segurá-lo um pouco enquanto eu vou ali toma o décimo copinho de água, mas prefiro que não. Ficaria aquele clima de jogar conversa fora e fazer a social, quando na verdade só o que eu quero é morrer dez vezes. Não morro, aceito as picadas, as investigações arqueológicas e as doses de embaraço na salinha escura do exame de imagem e fim. Tomo um café com bolacha depois, acompanhada dos fones de ouvido com música, e fim mais ainda.
Nem no nascimento das minhas duas filhas necessitou muito acompanhamento. Especialmente no caso da primogênita. Marcar ultrassom no meio da tarde era muito mais ligeiro e tranquilo. E quem pode ficar saindo do trabalho plena 14h30 pra ver bebê cinza na telinha? Deixa comigo. Fui, vi e venci - e não levei dispositivo para gravação do conteúdo, desculpem. Foi para meus olhos apenas.
Mas é notório que, conforme o tempo passa, estar sozinha é quase tão possível quanto nadar pelada no Pólo Norte. Não acontece mais. Não há muita hora pra isso nos dias de semana, sempre lotados, nem nos fins de semana, lotados e com crianças. Não se pode tomar banho sem o banheiro ser devassado por menores, não se pode ler muito tempo sem tocar um celular ou fixo, não se pode nem ficar escondida no banco traseiro do carro lá na garagem por meras três horas antes que chamem a polícia... Dureza.
Hoje me contento em ser uma ilha internamente. Hoje devo ser, sei lá, uma das Keys lá da Flórida, que seria ilha não houvesse tanta ponte se pegando a elas. Eu sou uma ilha, mas a vida se encarrega de desembarcar turistas em mim a cada quarto de hora. Tudo bem nessa porção de terra cercada de gente por todos os lados.
Podem vir, a solidão morreu de velha
domingo, 14 de abril de 2013
A casa da árvore ponto com
No dia 11 de abril de 2003 eu sei exatamente o que eu estava fazendo. Eu estava ansiosa e eufórica, louca e alegre, apreensiva e motivada. Não, eu não tinha tomado uma carga extra de Fanta Uva, um vício daqueles tempos (que eu não pratico mais porque, bem, tenho medo de já estar roxa por dentro). Eu tinha embarcado, semanas antes, em um projeto todo novo, um site. Eu tinha, na verdade, embarcado, anos antes, em uma amizade.
Falemos primeiro da amizade. Ela foi forjada no fogo de um vulcão perdido no... mentira. Ela foi forjada no banco dianteiro de uma Ferrari 250 GT California... mentira. Ela foi forjada no banco traseiro de uma perua verde rumo a Walley World... mentira. Mentira, não. Tudo foi verdade: minha amizade com a Vivi e a Clarissa foi forjada em filmes que todas adorávamos, em músicas que todas cantávamos, em situações que todas passamos, em recordações de parentes, escolas, ruas, viagens, vacilos, acertos e no pudim que a gente dividia em todo jantar marcado no shopping. Do jantar - e das conversas - passamos ao site.
O site veio pra servir como um mural onde a gente pregava passado, presente e futuro. Era informal e irreverente nas palavras e temas, era a coisa mais profissional que eu já tinha feito na organização, no compromisso e no carinho. Por isso a gente escreveu e eles vieram. Vieram 30. Depois 80. Depois 200. Depois milhares. Cliques e mensagens de gente que morava daqui até o Japão, que tinha de 13 a 50 anos, que gostava de Fábio Jr. e de Iron Maiden.
Nós nos tornamos, pra muita gente, embaixadoras das coisas boas. De escrever bem, de ter boas memórias, de defender os absurdos, de resgatar a intimidade. E olha que a gente levou um ano pra dar nome completo e mostrar o rosto. Fôssemos só gente bem-lançada ou carinhas bonitas na internet... ninguém saberia.
Mas a gente sabia que fazia a coisa certa. Vivi era um poço profundo de bom gosto, elegância, delicadeza e ao mesmo tempo uma suburbana passa-mal que adquiriu um Snif-Snif porque ele era o mais feio da prateleira. Clá era um oásis de palhaçada virtual, uma desembestada que se pegava com ratos pela casa e ao mesmo tempo a melhor referência possível em literatura, música e arte de qualidade. Eu fiz o que pude pra acompanhar o ritmo. E tudo deu certo.
Deu certo a ideia de colocar pra fora nossas mais sinceras opiniões e recordações e a vontade máxima de fazer aquilo que nenhum emprego formal como redatoras rendia - escrever com liberdade. Deu certo ganhar um trocado primeiro com a revista Época, que nos contratou pra uma página fixa, depois com o portal IG, que apostou no nosso apelo. Deu certo, muito mais que tudo isso, trazer pra perto gente que procurava um canto seguro na internet pra fazer amizades com seus iguais. A gente era tudo diferente, mas tão iguais.
Foi a comunidade mais alternativa da qual eu pude participar. Eu, Clá e Vivi passamos por aqueles 2.470 textos juntas - com desentendimentos resolvidos em tempo recorde e sem rancores, sem cobranças e chatices, repartindo obrigações e contas com gentileza. E sobrevivemos também a dia de falta severa de dinheiro, a momentos duros e tristes, a novos rumos, à mudança de país, à chegada das crianças e partida de outros amores. Juntas e separadas, tivemos bem mais que nossos 15 minutos de fama.
Quando decidimos acabar, foi por isso também: porque o valor da amizade sempre precisaria ser maior que tudo - e era hora de acabar com tudo o mais. Por cima, felizes. Foi triste, mas foi bom. Eu ainda tenho dificuldade de dizer alto o nome Garotas que Dizem Ni. Mas a casa na árvore que montamos 10 anos atrás, na qual passou tanta gente e que serviu tão bem pra esse clube, fica pra sempre. Nelas e em mim.
Falemos primeiro da amizade. Ela foi forjada no fogo de um vulcão perdido no... mentira. Ela foi forjada no banco dianteiro de uma Ferrari 250 GT California... mentira. Ela foi forjada no banco traseiro de uma perua verde rumo a Walley World... mentira. Mentira, não. Tudo foi verdade: minha amizade com a Vivi e a Clarissa foi forjada em filmes que todas adorávamos, em músicas que todas cantávamos, em situações que todas passamos, em recordações de parentes, escolas, ruas, viagens, vacilos, acertos e no pudim que a gente dividia em todo jantar marcado no shopping. Do jantar - e das conversas - passamos ao site.
O site veio pra servir como um mural onde a gente pregava passado, presente e futuro. Era informal e irreverente nas palavras e temas, era a coisa mais profissional que eu já tinha feito na organização, no compromisso e no carinho. Por isso a gente escreveu e eles vieram. Vieram 30. Depois 80. Depois 200. Depois milhares. Cliques e mensagens de gente que morava daqui até o Japão, que tinha de 13 a 50 anos, que gostava de Fábio Jr. e de Iron Maiden.
Nós nos tornamos, pra muita gente, embaixadoras das coisas boas. De escrever bem, de ter boas memórias, de defender os absurdos, de resgatar a intimidade. E olha que a gente levou um ano pra dar nome completo e mostrar o rosto. Fôssemos só gente bem-lançada ou carinhas bonitas na internet... ninguém saberia.
Mas a gente sabia que fazia a coisa certa. Vivi era um poço profundo de bom gosto, elegância, delicadeza e ao mesmo tempo uma suburbana passa-mal que adquiriu um Snif-Snif porque ele era o mais feio da prateleira. Clá era um oásis de palhaçada virtual, uma desembestada que se pegava com ratos pela casa e ao mesmo tempo a melhor referência possível em literatura, música e arte de qualidade. Eu fiz o que pude pra acompanhar o ritmo. E tudo deu certo.
Deu certo a ideia de colocar pra fora nossas mais sinceras opiniões e recordações e a vontade máxima de fazer aquilo que nenhum emprego formal como redatoras rendia - escrever com liberdade. Deu certo ganhar um trocado primeiro com a revista Época, que nos contratou pra uma página fixa, depois com o portal IG, que apostou no nosso apelo. Deu certo, muito mais que tudo isso, trazer pra perto gente que procurava um canto seguro na internet pra fazer amizades com seus iguais. A gente era tudo diferente, mas tão iguais.
Foi a comunidade mais alternativa da qual eu pude participar. Eu, Clá e Vivi passamos por aqueles 2.470 textos juntas - com desentendimentos resolvidos em tempo recorde e sem rancores, sem cobranças e chatices, repartindo obrigações e contas com gentileza. E sobrevivemos também a dia de falta severa de dinheiro, a momentos duros e tristes, a novos rumos, à mudança de país, à chegada das crianças e partida de outros amores. Juntas e separadas, tivemos bem mais que nossos 15 minutos de fama.
Quando decidimos acabar, foi por isso também: porque o valor da amizade sempre precisaria ser maior que tudo - e era hora de acabar com tudo o mais. Por cima, felizes. Foi triste, mas foi bom. Eu ainda tenho dificuldade de dizer alto o nome Garotas que Dizem Ni. Mas a casa na árvore que montamos 10 anos atrás, na qual passou tanta gente e que serviu tão bem pra esse clube, fica pra sempre. Nelas e em mim.
terça-feira, 26 de março de 2013
Eu, ela e a Hannah Montana
Aí a menina ficou triste porque brigou com o namoradinho que descobriu seu segredo. Ela se refugiou num velho gazebo com roupas puídas e um violão e, no caderno, escreveu a letra de uma música. Tocou para o pai, que foi buscá-la no canto escondido, e dividiu com ele a mágoa na base do dueto bem afinado. Não é história de verdade, é uma parte do filme "Hannah Montana - O Melhor de Dois Mundos". Dezoito meses atrás, a Sabrina viu esse filme - e uma coisa tocou dentro dela. Moda de viola.
Algumas das amiguinhas da Sasá assistem novela, como Carrossel (no SBT) e Violetta (no Disney Channel). Eu vetei ambas em casa porque a primeira é bem porcaria e termina tarde e a segunda é bem porcaria e... é muito porcaria. Eu considero porcaria aquilo que eu não assinaria como escritora: o texto é chinfrim, os clichês correm soltos, o enredo é manjado e um bocado babaca. Nem são engraçadas. Porque a gente até aceita assistir uma porcaria, mas que seja pelo menos uma porcaria engraçada, poxa!
Novelas para a idade dela não são. Mas os seriados são. Aqueles que chamam de "enlatados americanos" - que nós, adultos, conhecemos tão bem do Sony ou da Warner e os pequenos conhecem dos canais infanto-juvenis. Quer dizer, nem todos conhecem: recentemente a Sabrina veio me contar que uma das amigas fica chateada que os pais não a deixam assistir seriados na TV a cabo. Não sei o motivo exato, mas suspeito do velho combo "é uma droga globalizada". São mesmo. Mas são engraçados e os diálogos e enredos costumam ser bem acertadinhos. Eu rio. Sabrina também.
Aí a gente chega na Hannah Montana. Enquanto série, a personagem nunca chegou aqui em casa. Acho que quando o seriado estrelado pela cantriz adolescente Miley Cyrus passava na TV, Sasá era pequena e ainda curtia mais um Backyardigans do que "filmes de gente viva", como ela chama (o que não é desenho). Passou batida toda febre de Hannah Montana. Anos mais tarde, já pelos 6 anos e meio, ela se engraçou com outras séries do tipo, como "Zack & Cody", "Jessie" e "iCarly". Vinha assistindo uns aqui e ali até que, um dia, o canal passou a propaganda de um "filme de gente viva" que estrearia logo. Ela pediu pra ver, eu deixei.
Sentei pra ver junto vários pedaços e entendi que era um longa da Hannah Montana, com a personagem pirando na fama e sendo levada de volta às raízes no meio rural nos Estados Unidos. Era engraçadinho. Na cena descrita lá no primeiro parágrafo, eu vi Sabrina de olhos estalados na tela. Es-ta-la-dos. O queixo estava até meio penso na cara. Ficou embasbacada com a menina e o violão.
Sasá já tinha, naquele mesmo mês, ficado animada com "Escola de Rock", visto no DVD. Mas a batida rock'n'roll estava muito avançada, acho; o country melódico fez melhor o trabalho de enaltecer os instrumentos e a canção em si. O rock plantou, a Hannah Montana colheu.
No Natal, a criança esqueceu qualquer boneca, jogo e outros e escreveu um calhamaço de cartas pro Noel trazer, porfavorzinho!, um violão de presente. Noel camelou pelas ruas, mas achou e trouxe o violão. No início das aulas, lá foi Sabrina driblar esportes e artes e se inscrever, decididamente, na aula de musicalização. Ela entendeu que pai e mãe não ajudariam nada nessa hora - porque eu, por exemplo, sou ruim até de tocar triângulo. Se o mundo musical dela dependesse dos parentes, ia a lugar nenhum. As aulas ensinaram muito. E aconteceu uma paixonite pelo violino, um flerte com o piano... e um amor descarado pelo violão.
Esse ano Sabrina correu ainda mais adiante e se colocou na aula de violão mesmo, nada mais de chocalhos, reco-recos e apitos no caminho. Só ela, o violão e a determinação. (E um apoio de pé, um apoio de partitura, pasta pras canções, "deixa minha unha do dedão sem cortar pra poder tocar melhor, vai, mãe?). Não, unha comprida só lá quando eu não for mais a responsável pela integridade dela.
No mais, fiz de tudo o que podia pra esse sonho de se expressar com o violão virasse uma realidade. Mas eu sei que eu fiz muito pouco. Ela fez tudo. A Hannah Montana fez mais ainda. Bobamente, com aquele roteiro engraçadinho e muito carisma, Hannah Montana despertou uma criança para a música. E, só por isso, ela já vai estar sempre no meu coração.
Algumas das amiguinhas da Sasá assistem novela, como Carrossel (no SBT) e Violetta (no Disney Channel). Eu vetei ambas em casa porque a primeira é bem porcaria e termina tarde e a segunda é bem porcaria e... é muito porcaria. Eu considero porcaria aquilo que eu não assinaria como escritora: o texto é chinfrim, os clichês correm soltos, o enredo é manjado e um bocado babaca. Nem são engraçadas. Porque a gente até aceita assistir uma porcaria, mas que seja pelo menos uma porcaria engraçada, poxa!
Novelas para a idade dela não são. Mas os seriados são. Aqueles que chamam de "enlatados americanos" - que nós, adultos, conhecemos tão bem do Sony ou da Warner e os pequenos conhecem dos canais infanto-juvenis. Quer dizer, nem todos conhecem: recentemente a Sabrina veio me contar que uma das amigas fica chateada que os pais não a deixam assistir seriados na TV a cabo. Não sei o motivo exato, mas suspeito do velho combo "é uma droga globalizada". São mesmo. Mas são engraçados e os diálogos e enredos costumam ser bem acertadinhos. Eu rio. Sabrina também.
Aí a gente chega na Hannah Montana. Enquanto série, a personagem nunca chegou aqui em casa. Acho que quando o seriado estrelado pela cantriz adolescente Miley Cyrus passava na TV, Sasá era pequena e ainda curtia mais um Backyardigans do que "filmes de gente viva", como ela chama (o que não é desenho). Passou batida toda febre de Hannah Montana. Anos mais tarde, já pelos 6 anos e meio, ela se engraçou com outras séries do tipo, como "Zack & Cody", "Jessie" e "iCarly". Vinha assistindo uns aqui e ali até que, um dia, o canal passou a propaganda de um "filme de gente viva" que estrearia logo. Ela pediu pra ver, eu deixei.
Sentei pra ver junto vários pedaços e entendi que era um longa da Hannah Montana, com a personagem pirando na fama e sendo levada de volta às raízes no meio rural nos Estados Unidos. Era engraçadinho. Na cena descrita lá no primeiro parágrafo, eu vi Sabrina de olhos estalados na tela. Es-ta-la-dos. O queixo estava até meio penso na cara. Ficou embasbacada com a menina e o violão.
Sasá já tinha, naquele mesmo mês, ficado animada com "Escola de Rock", visto no DVD. Mas a batida rock'n'roll estava muito avançada, acho; o country melódico fez melhor o trabalho de enaltecer os instrumentos e a canção em si. O rock plantou, a Hannah Montana colheu.
No Natal, a criança esqueceu qualquer boneca, jogo e outros e escreveu um calhamaço de cartas pro Noel trazer, porfavorzinho!, um violão de presente. Noel camelou pelas ruas, mas achou e trouxe o violão. No início das aulas, lá foi Sabrina driblar esportes e artes e se inscrever, decididamente, na aula de musicalização. Ela entendeu que pai e mãe não ajudariam nada nessa hora - porque eu, por exemplo, sou ruim até de tocar triângulo. Se o mundo musical dela dependesse dos parentes, ia a lugar nenhum. As aulas ensinaram muito. E aconteceu uma paixonite pelo violino, um flerte com o piano... e um amor descarado pelo violão.
Esse ano Sabrina correu ainda mais adiante e se colocou na aula de violão mesmo, nada mais de chocalhos, reco-recos e apitos no caminho. Só ela, o violão e a determinação. (E um apoio de pé, um apoio de partitura, pasta pras canções, "deixa minha unha do dedão sem cortar pra poder tocar melhor, vai, mãe?). Não, unha comprida só lá quando eu não for mais a responsável pela integridade dela.
No mais, fiz de tudo o que podia pra esse sonho de se expressar com o violão virasse uma realidade. Mas eu sei que eu fiz muito pouco. Ela fez tudo. A Hannah Montana fez mais ainda. Bobamente, com aquele roteiro engraçadinho e muito carisma, Hannah Montana despertou uma criança para a música. E, só por isso, ela já vai estar sempre no meu coração.
Hannah Montana começou, agora todo tempo é uma Ode à Alegria
quarta-feira, 13 de março de 2013
Uma nova revista para elle, ops, ela
Aí chegou a década de 1990 e todo mundo que tinha desconfiado ganhou certeza: o cigarro era coisa ruim mesmo. Rolou processo, protesto, piti - e um monte de filmes pra falar que a indústria do tabaco era feia e boba e mentiu dizendo que pitar um fumo era sucesso, quando na verdade era tiro na testa. Passados todos esses anos, até Hollywood (a do cinema, não a do "sucesso") desencanou de produções contando os bastidores do que todo mundo já sabia. Cigarro, a longo prazo, causava doença, morte e um futum lazarento na pessoa. Cigarro fazer mal é notícia velha. Então a gente já pode colocar na mesma seara as revistas femininas e essa coisa de "oh, elas estabelecem uma ditadura de beleza inalcançável e condena todas nós a morrer pobres, deprimidas, barangas e humilhadas!"? Chega, passou. Revista feminina te faz mal? Para de consumir, oras
O caso é que as revistas femininas de fato acabaram se enrolando em todo o processo de aquisição do "girl power" e, com os anos, o que era um periódico pra falar dos vestidos rodados da moda e de como arrumar bem a casa pro marido virou um emaranhado de informações loucas e/ou dispensáveis. Porque quantas matérias sobre biquínis, dietas e scarpins a gente consegue ler na vida? A maioria já deve ter tido sua cota.
As revistas femininas no Brasil, hoje, se limitam a meia dúzia de títulos que versam muito sobre roupa, sapato, maquiagem, cabelão e celebridades. Fazer o quê? Talvez as pesquisas digam que a mulher brasileira quer ler isso aí, ué. Eu, de minha parte, acho que pesquisa é o cacete e bom seria parar de ir sempre na mesma onda e criar a tendência, mostrar para a leitora uma coisa nova, descobrir e oferecer um caminho, e não servir só o arroz com feijão de anteontem. Isso dá azia. E gases. Ó, vai ver é por isso que as moças saem com aquela cara na foto da capa!
Eu sei, parece mesmo uma ditadura de gente fazendo carão (carão de quem não sabe multiplicar número de dois dígitos), vestindo roupas que só ficam bem em coxas que não se roçam, usando sapatos que causam joanete, sugerindo cardápios de água, torrada e peito de peru do café ao jantar e apostando que cremes anti-idade são máquina do tempo.
Mas não é uma ditadura que te aponta revólver, joga no bagageiro e leva pro porão escuso, tá? O jornaleiro não vai te perseguir pelas ruas se você disser "não, Juarez, obrigada mas hoje eu prefiro não levar a Fulana porque essa atriz da capa me assusta com tanto aplique e brocado e eu não gostei dessa chamada sobre '879 maneiras de trancar seu homem num cativeiro até ele te amar de verdade'". Juarez não liga. Você devia ligar menos também.
É só entretenimento, gente. Só isso. Digo com certeza, por conhecimento, que a revista não é uma entidade inteligente programada para desgraçar mulheres. A revista é um objeto inanimado feito por moças comuns, como eu e você, que comem, bebem, dormem, dormem com vários caras até achar o certo, dormem na reunião de pauta chata, viajam, vão ao cinema, têm filhos, problemas e contas a pagar. Elas são, na maioria, normais e bacanas - ao contrário do que Anna Wintour e "O Diabo Veste Prada" andaram propagando por aí.
Elas fazem o melhor que podem com a abertura que têm. O problema, se é que existe algum, talvez seja esse mesmo: no afã de encantar só a diretoria com centenas de páginas cintilantes, as revistas esqueceram de encantar as moças que trabalham ali mesmo. E eu. E você, garota comum. Gente que apenas acorda... gente. Que não é mulherzinha o tempo in-tei-ri-nho - e talvez gostasse de ler mais sobre lugares interessantes, sobre móveis ecológicos, sobre uma noite no karaokê e até sobre como dar um up no guarda-roupa sem gastar um carro zero. Reportagens legais pra pessoas de verdade que, sim, são mulheres e gostam de uma linguagem focada em si, com a sua pegada feminina, um pouco feminista, bastante maricota às vezes mas não sempre.
E, eu sei, dá raiva quando dizem que "mas então, temos sim este mês uma entrevista com a Isabel Allende e uma reportagem sobre o tráfico de crianças no Malawi!". Sim, e duas páginas depois tem uma moça com a silhueta característica do Malawi desfilando casacos com o valor do PIB do Malawi. Botar uma entrevista-cabeção em revista feminina, hoje, é como botar uma página de texto corrido na Playboy - é sistema de cotas apenas. Não é sério.
É isso, não é sério. Não leve a sério. E, se perceber que tá levando a sério, larga a coisa! Ninguém é obrigado a se basear em publicações. Se o lanche comprado no McDonald's não parece com o da foto, porque a gente precisa parecer?!
Pede ao Juarez da banca uma revista de viagem. De culinária. De esporte (mas só se amar futebol, que outra coisa quase não tem). Aposta em uma edição sobre patchwork, quem sabe você não se descobre um gênio da costura? Compra um caderno de violão. Compra um gibi! Eu recomendo os da Disney, estão em ótima fase. Ou compra mesmo a revista feminina, ignora o que parecer balela e segura o que é bom. Nem que seja a amostra grátis de perfume.
Na era da tecnologia, assina no tablet uma edição estrangeira - aproveita pra treinar um idioma e testar revistas nicho de mercado, que no exterior tem muita. Muita. Dá pra assinar revista só sobre primatas. Albinos. Do ocidente. Pode apostar.
O que não dá mais é pra se diminuir perante uma garota de 17 anos com o quadril de um melão e a pele de juventude e achar que o mundo vai te cobrar ser assim também. O mundo tá nem aí. Aliás, ele saiu há horas pra fumar um cigarro e não voltou.
O caso é que as revistas femininas de fato acabaram se enrolando em todo o processo de aquisição do "girl power" e, com os anos, o que era um periódico pra falar dos vestidos rodados da moda e de como arrumar bem a casa pro marido virou um emaranhado de informações loucas e/ou dispensáveis. Porque quantas matérias sobre biquínis, dietas e scarpins a gente consegue ler na vida? A maioria já deve ter tido sua cota.
As revistas femininas no Brasil, hoje, se limitam a meia dúzia de títulos que versam muito sobre roupa, sapato, maquiagem, cabelão e celebridades. Fazer o quê? Talvez as pesquisas digam que a mulher brasileira quer ler isso aí, ué. Eu, de minha parte, acho que pesquisa é o cacete e bom seria parar de ir sempre na mesma onda e criar a tendência, mostrar para a leitora uma coisa nova, descobrir e oferecer um caminho, e não servir só o arroz com feijão de anteontem. Isso dá azia. E gases. Ó, vai ver é por isso que as moças saem com aquela cara na foto da capa!
Eu sei, parece mesmo uma ditadura de gente fazendo carão (carão de quem não sabe multiplicar número de dois dígitos), vestindo roupas que só ficam bem em coxas que não se roçam, usando sapatos que causam joanete, sugerindo cardápios de água, torrada e peito de peru do café ao jantar e apostando que cremes anti-idade são máquina do tempo.
Mas não é uma ditadura que te aponta revólver, joga no bagageiro e leva pro porão escuso, tá? O jornaleiro não vai te perseguir pelas ruas se você disser "não, Juarez, obrigada mas hoje eu prefiro não levar a Fulana porque essa atriz da capa me assusta com tanto aplique e brocado e eu não gostei dessa chamada sobre '879 maneiras de trancar seu homem num cativeiro até ele te amar de verdade'". Juarez não liga. Você devia ligar menos também.
É só entretenimento, gente. Só isso. Digo com certeza, por conhecimento, que a revista não é uma entidade inteligente programada para desgraçar mulheres. A revista é um objeto inanimado feito por moças comuns, como eu e você, que comem, bebem, dormem, dormem com vários caras até achar o certo, dormem na reunião de pauta chata, viajam, vão ao cinema, têm filhos, problemas e contas a pagar. Elas são, na maioria, normais e bacanas - ao contrário do que Anna Wintour e "O Diabo Veste Prada" andaram propagando por aí.
Elas fazem o melhor que podem com a abertura que têm. O problema, se é que existe algum, talvez seja esse mesmo: no afã de encantar só a diretoria com centenas de páginas cintilantes, as revistas esqueceram de encantar as moças que trabalham ali mesmo. E eu. E você, garota comum. Gente que apenas acorda... gente. Que não é mulherzinha o tempo in-tei-ri-nho - e talvez gostasse de ler mais sobre lugares interessantes, sobre móveis ecológicos, sobre uma noite no karaokê e até sobre como dar um up no guarda-roupa sem gastar um carro zero. Reportagens legais pra pessoas de verdade que, sim, são mulheres e gostam de uma linguagem focada em si, com a sua pegada feminina, um pouco feminista, bastante maricota às vezes mas não sempre.
E, eu sei, dá raiva quando dizem que "mas então, temos sim este mês uma entrevista com a Isabel Allende e uma reportagem sobre o tráfico de crianças no Malawi!". Sim, e duas páginas depois tem uma moça com a silhueta característica do Malawi desfilando casacos com o valor do PIB do Malawi. Botar uma entrevista-cabeção em revista feminina, hoje, é como botar uma página de texto corrido na Playboy - é sistema de cotas apenas. Não é sério.
É isso, não é sério. Não leve a sério. E, se perceber que tá levando a sério, larga a coisa! Ninguém é obrigado a se basear em publicações. Se o lanche comprado no McDonald's não parece com o da foto, porque a gente precisa parecer?!
Pede ao Juarez da banca uma revista de viagem. De culinária. De esporte (mas só se amar futebol, que outra coisa quase não tem). Aposta em uma edição sobre patchwork, quem sabe você não se descobre um gênio da costura? Compra um caderno de violão. Compra um gibi! Eu recomendo os da Disney, estão em ótima fase. Ou compra mesmo a revista feminina, ignora o que parecer balela e segura o que é bom. Nem que seja a amostra grátis de perfume.
Na era da tecnologia, assina no tablet uma edição estrangeira - aproveita pra treinar um idioma e testar revistas nicho de mercado, que no exterior tem muita. Muita. Dá pra assinar revista só sobre primatas. Albinos. Do ocidente. Pode apostar.
O que não dá mais é pra se diminuir perante uma garota de 17 anos com o quadril de um melão e a pele de juventude e achar que o mundo vai te cobrar ser assim também. O mundo tá nem aí. Aliás, ele saiu há horas pra fumar um cigarro e não voltou.
Fica fria, não é o general da ditadura, é só... uma moça com muita dor de cabeça?
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013
Família vende quase tudo
Sempre correm boatos aí dando conta de que "a Flávia? Ela joga tudo fora". Eu, de pés juntos e mãos unidas, juro que não jogo quase nada fora. Eu reciclo, eu doo, eu vendo. Eu jogo nada fora - só resíduos orgânicos mesmo, mas é que ninguém me deixa fazer compostagem nessa casa.
Reciclo mesmo com um pesinho na consciência, porque na verdade eu preferia que as coisas tivessem menos embalagens, invólucros, pacotes, plásticos. O que é aquela besteira de uma cabeça de brócolis vir sentada em uma bandeja de isopor e encapado com plástico grosso?
Doo bastante coisa também porque, sei lá, é mais forte que eu. Compro uma blusa nova, uma antiga vai embora, é como é. Não me interessa que talvez possa usar de novo daqui uns seis meses, pra fazer a pintura da parede da garagem ou tingir o cabelo... Não. Já não está em uso semanal, passar bem. Armários pequenos e pouca paciência com acúmulo me fazem remeter mensalmente boas sacolinhas de roupas, sapatos e artigos de cozinha (porque, caramba, não consigo olhar pra um jogo de três xícaras).
E vendo. Vendo sim. Porque nós vivemos em um país que ainda não aprendeu muito sobre a arte das vendas de garagem e na beleza de comprar coisas usadas mas em bom estado. A gente é muito esnobe ainda e não acha bonito comprar aquela mesinha por uns contos e lixar e pintar e usar. A gente só quer o que está estalando de novinho. Ah, que bobagem.
Porque sempre tem gente como a gente que também cuida muito bem dos objetos e que, nada de mais, de repente troca as coisas de lugar ou encapa o sofá e nada combina agora. E, aí, que mal haveria em vender/comprar aquilo que teve sua boa vida na casa de um e pode bem ir morar na casa de outro?
Eu gostaria de ter uma boa entrada de garagem, calçada ampla, boa de organizar tudo ali e esperar a galera vir comprar. Mas eu moro em prédio - e se eu colocar meus antigos pertences na saída de carros, provável que a filha da vizinha atropele meus pôsteres tão bonitos e os transforme em confete. Não seria um bom destino para Roy Lichtenstein.
Então, com a ajuda da rede, faço aqui meu 'garage sale' virtual. Só uma pontinha do iceberg de coisas que estão à venda. Sempre tem algo à venda na casa de quem 'joga tudo fora'.
Podemos tratar entrega com frete, hora de vir buscar com café e bolo, etc. e tal. Podemos dar mais informações também. Tudo no flaviapegorin@hotmail.com. Não se avexe: usados ainda têm seu valor, vamos achar novos lares pra eles.
Reciclo mesmo com um pesinho na consciência, porque na verdade eu preferia que as coisas tivessem menos embalagens, invólucros, pacotes, plásticos. O que é aquela besteira de uma cabeça de brócolis vir sentada em uma bandeja de isopor e encapado com plástico grosso?
Doo bastante coisa também porque, sei lá, é mais forte que eu. Compro uma blusa nova, uma antiga vai embora, é como é. Não me interessa que talvez possa usar de novo daqui uns seis meses, pra fazer a pintura da parede da garagem ou tingir o cabelo... Não. Já não está em uso semanal, passar bem. Armários pequenos e pouca paciência com acúmulo me fazem remeter mensalmente boas sacolinhas de roupas, sapatos e artigos de cozinha (porque, caramba, não consigo olhar pra um jogo de três xícaras).
E vendo. Vendo sim. Porque nós vivemos em um país que ainda não aprendeu muito sobre a arte das vendas de garagem e na beleza de comprar coisas usadas mas em bom estado. A gente é muito esnobe ainda e não acha bonito comprar aquela mesinha por uns contos e lixar e pintar e usar. A gente só quer o que está estalando de novinho. Ah, que bobagem.
Porque sempre tem gente como a gente que também cuida muito bem dos objetos e que, nada de mais, de repente troca as coisas de lugar ou encapa o sofá e nada combina agora. E, aí, que mal haveria em vender/comprar aquilo que teve sua boa vida na casa de um e pode bem ir morar na casa de outro?
Eu gostaria de ter uma boa entrada de garagem, calçada ampla, boa de organizar tudo ali e esperar a galera vir comprar. Mas eu moro em prédio - e se eu colocar meus antigos pertences na saída de carros, provável que a filha da vizinha atropele meus pôsteres tão bonitos e os transforme em confete. Não seria um bom destino para Roy Lichtenstein.
Então, com a ajuda da rede, faço aqui meu 'garage sale' virtual. Só uma pontinha do iceberg de coisas que estão à venda. Sempre tem algo à venda na casa de quem 'joga tudo fora'.
Decanter para vinho. A gente aprecia bem a bebidinha, mas, né... Família italiana, a gente mata na garrafa mesmo. O decanter está ficando chateado com isso e quer um novo lar. R$ 45.
VENDIDO
VENDIDO
Um massageador 'barra' diminuidor de celulite. Quase sem uso, porque a massagem é feita por sucção e me dava muita cócega. R$ 40.
VENDIDO
VENDIDO
Pôster do amigo Roy, supracitado, ainda na embalagem e com paspatur branco.
Mede 28 cm x 36 cm. R$ 20.
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Minha amada mesa de centro que serviu muito bem por cinco anos (e ninguém diria, porque ela é rústica e porque eu ameacei a vida de quem colocasse copos molhados sobre ela). R$ 150.
VENDIDO
Pôster sem moldura da marca Daimler-Chrysler adquirido por um entusiasta dos automóveis. Mede cerca de 60 cm x 35 cm. R$ 30
Pôster com moldura completa de um dos meus filmes favoritos de todos os tempos. Veio de Londres, foi emoldurado e agora quer um novo dono. Sem um defeitozinho sequer. R$ 100.
VENDIDO
'Michael, ela vai vender meu pôster... Chame o consiglieri e acaba com ela...'. Mentira, Vito jamais faria isso comigo porque esse outro pôster com moldura completa de outro dos meus filmes favoritos de todos os tempos, que também veio de Londres, está lindo e intacto. R$ 100.
VENDIDO
Pôster para fãs do líquido preto mais famoso do mundo. Ah, não, não é da Coca. Pode ser Pepsi?
Mede cerca de 20 cm x 35 cm. R$ 15.
VENDIDO
Go, Speed Racer! E checa se o macaco não está trancado no porta-malas. Pôster bonitinho, embalado e nunca exposto, mede cerca de 20 cm x 35 cm. R$ 15.
VENDIDO
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TV que muito me serviu para cozinhar e assistir barbaridades ao mesmo tempo (e não, não eram programas de receita com a Palmirinha, era filmão na TV a cabo). 6 polegadas, bom estado, aquilo tudo. R$ 90.
VENDIDO
VENDIDO
Precisa dizer que veio de Londres? Ah, o metrô... Decore as estações, impressione os amigos, vá um dia ver de perto. Pôster emoldurado e com vidro, intacto, lindinho. R$ 90.
VENDIDO
VENDIDO
Podemos tratar entrega com frete, hora de vir buscar com café e bolo, etc. e tal. Podemos dar mais informações também. Tudo no flaviapegorin@hotmail.com. Não se avexe: usados ainda têm seu valor, vamos achar novos lares pra eles.
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013
iMom
Eu e uma amiga falávamos um dia desses sobre um bom jeito de ganhar dinheiro rápido, fácil e na forma de 'bastante'. Eu sei, parece a classe média sofrendo de sua vidinha mais-ou-menos, tão opressora e terrível... mas a verdade é que os tempos estão bicudos pra quem tem a péssima mania de viver à margem do governo (pagando por fora pela escola, pela saúde, pelos seguros de todos os tipos etc.). Aí a gente achou que precisava de um dinheiro extra - e qual a melhor forma, hoje, senão vender uma ideia tecnológica muito bacana? Aquelas coisas que os garotos de 19 anos criam no dormitório da faculdade e depois vendem por zilhões. Bom, eu sou ruim de vender e já vão longe meus 19 anos, mas tenho umas ideias aí. Tá anotando, Dona Indústria de Aplicativos, Dispositivos e Outras Coisas Com as Quais Minhas Digitais Não Sabem Lidar? Então anote.
Na qualidade de mãe, eu sou uma fonte infindável de ideias para esse setor da sociedade. E olha que somos muitas. E olha que a gente não sabe instalar um bom antivírus no computador, mas somos fãs de tudo o que facilite e torne a vida mais sadia, alegre e funcional. Por exemplo, fotos dos nossos pituxitos da momõe em cada uma das mínimas cenas do dia a dia: tiramos, sim! Muitas! Mas perdemos vários cliques correndo em busca da câmera, ajustando foco, decidindo pelo uso ou não daquele horripilante flash-cega-nenê.
Muito mais negócio se alguém pudesse inventar um dispositivo acoplado aos nossos olhos, tipo um óculos bonito que pudesse ser acionado a cada momento visto por nós. Bebê riu, clique no óculos! A versão avançada poderia ser acionada por um piscar do olho? Eu agradeceria, porque perco meus óculos o tempo todo entre a papelada de trabalho e a roupa pra passar. Aproveita e insere uma opção de gravar vídeo também, eu acho bonitinho quando as meninas cantam canções inteiras em inglês errado.
Outro bom aplicativo para a vida real seria uma forma de gravar toda a rotina da criança para qualquer outro adulto que assumisse a liderança dos trabalhos. Como o pacotinho gosta da comida, onde prefere se aconchegar pra dormir, bicho de pelúcia favorito, canto mais apropriado pro castigo e frases de efeito pra evitar o castigo - tipo 'experimenta subir aí que você vai ver a mamãe virar um dragão em fúria'. Bastaria acessar a agenda e ver que agora é hora de brincar, depois precisa dar lanche, aí precisa sair 12h43 pra chegar na escola a tempo porque o trânsito no bairro parece enlouquecer exatamente às 12h44... Tudo isso.
Se der, podia incluir ainda uma máscara holográfica que deixasse o adulto responsável com a exata face da mãe ou do pai, conforme preferido no momento. Assim não tem aquele espetáculo da Broadway porque o pimpolho está morreeeendo de saudades da mamãe. Que saiu pela porta faz 38 segundos.
Os aparelhos que disponibilizam mapas, aliás, já podiam por favor evoluir para uma versão 'Pais em Desespero'? Porque é legal achar o monumento, o museu e a igreja, mas também seria ótimo descobrir onde fica o parquinho mais próximo, um restaurante amigo dos cadeirões ou um banheiro apropriado para trocas de fraldas - um que não se pareça com um beco de venda de crack ou uma jaula que comporta 12 gorilas destemperados.
Não é difícil, vai. Vocês conseguiram tornar sucesso de público aparelhos que se comunicam até com a MIR, aplicativos que fazem planta baixa e contam glóbulos vermelhos e jogos com passarinhos que assassinam porcos. Ponham aí as nossas necessidades maternais em prática. Toda mamãe agradece.
Na qualidade de mãe, eu sou uma fonte infindável de ideias para esse setor da sociedade. E olha que somos muitas. E olha que a gente não sabe instalar um bom antivírus no computador, mas somos fãs de tudo o que facilite e torne a vida mais sadia, alegre e funcional. Por exemplo, fotos dos nossos pituxitos da momõe em cada uma das mínimas cenas do dia a dia: tiramos, sim! Muitas! Mas perdemos vários cliques correndo em busca da câmera, ajustando foco, decidindo pelo uso ou não daquele horripilante flash-cega-nenê.
Muito mais negócio se alguém pudesse inventar um dispositivo acoplado aos nossos olhos, tipo um óculos bonito que pudesse ser acionado a cada momento visto por nós. Bebê riu, clique no óculos! A versão avançada poderia ser acionada por um piscar do olho? Eu agradeceria, porque perco meus óculos o tempo todo entre a papelada de trabalho e a roupa pra passar. Aproveita e insere uma opção de gravar vídeo também, eu acho bonitinho quando as meninas cantam canções inteiras em inglês errado.
Outro bom aplicativo para a vida real seria uma forma de gravar toda a rotina da criança para qualquer outro adulto que assumisse a liderança dos trabalhos. Como o pacotinho gosta da comida, onde prefere se aconchegar pra dormir, bicho de pelúcia favorito, canto mais apropriado pro castigo e frases de efeito pra evitar o castigo - tipo 'experimenta subir aí que você vai ver a mamãe virar um dragão em fúria'. Bastaria acessar a agenda e ver que agora é hora de brincar, depois precisa dar lanche, aí precisa sair 12h43 pra chegar na escola a tempo porque o trânsito no bairro parece enlouquecer exatamente às 12h44... Tudo isso.
Se der, podia incluir ainda uma máscara holográfica que deixasse o adulto responsável com a exata face da mãe ou do pai, conforme preferido no momento. Assim não tem aquele espetáculo da Broadway porque o pimpolho está morreeeendo de saudades da mamãe. Que saiu pela porta faz 38 segundos.
Os aparelhos que disponibilizam mapas, aliás, já podiam por favor evoluir para uma versão 'Pais em Desespero'? Porque é legal achar o monumento, o museu e a igreja, mas também seria ótimo descobrir onde fica o parquinho mais próximo, um restaurante amigo dos cadeirões ou um banheiro apropriado para trocas de fraldas - um que não se pareça com um beco de venda de crack ou uma jaula que comporta 12 gorilas destemperados.
Não é difícil, vai. Vocês conseguiram tornar sucesso de público aparelhos que se comunicam até com a MIR, aplicativos que fazem planta baixa e contam glóbulos vermelhos e jogos com passarinhos que assassinam porcos. Ponham aí as nossas necessidades maternais em prática. Toda mamãe agradece.
Alô, indústria? Precisamos conversar sobre umas ideias aí...
quarta-feira, 19 de dezembro de 2012
Fogo no pavio, nas panelas, no coração
Eu gosto mesmo de Natal. Pega eu, você e seu emburramento com o Natal.
Eu gosto do rito em si que traz com ele o fim do ano e uma mudança clássica - a do calendário e a da vida mesmo.
Eu gosto de ter 'O Grande Dia de Montar a Árvore'. Eu gosto de tocar um CD bem vagabundo com Jingle Bells cantado em inglês, espanhol e turco. Gosto de tirar a poeira de todas as caixas de enfeites, de erguer aquela árvore artificial safada e pedir a ajuda das crianças pra criar o encanto com brocado vermelho, laçarotes e a estrela de arame na ponteira.
Eu gosto de acrescentar estrelinhas em todos os puxadores de gaveta e de sair à caça de presentinhos pra todos os envolvidos. O tio da perua ganhou chocolates. As professoras ganharam sabonetes cheirosos. O Papai Noel recebeu carta - e retificação, porque um detalhe importante foi esquecido. Eu não gosto do trânsito no shopping, por isso eu compro a maioria das coisas nas ruas, mas... ah, eu vou no shopping sim, tem lá um idoso vestido de vermelho que cede balas, é legal.
Eu gosto de pensar no cardápio e na arrumação da mesa. Eu gosto de peru. Gosto mesmo, pode tirar sarro: eu gosto de peru no Natal e sonho com o dia em que finalmente as pessoas passarão a noite na minha casa. Já sonhei tudo: eu vou assar o peru com manteiga à beça e levá-lo à mesa inteiro. Vou fazer arroz com amêndoas e molho em separado, além de farofa sem coisas doces e uma torta gostosa e legumes grelhados com sal grosso e azeite e ervas. E eu vou fazer drinques fortes e servir champanhe de verdade em taças de verdade. E eu vou usar um vestido vermelho. E eu vou ligar o ar condicionado na casa dos 19 graus, assim a gente não entra em combustão espontânea.
Eu gosto de ver a carinha das crianças abrindo os presentes... Eu gosto de ver a cara de todo mundo abrindo os presentes. Eu odeio amigo secreto e brincadeiras tipo 'inimigo secreto' - mas posso viver com ela se a maioria achar engraçado, vai. Céus.
Eu gosto de tudo sobre o Natal, e olha que eu não sou nem nunca fui católica (a despeito do que diz o meu fabuloso 'certificado de Primeira Comunhão'). Eu gosto do espírito. De dar e acolher, de esquecer as desavenças e curtir o momento, de entrar numa vibe positiva e num futuro melhor e mais divertido.
O diabo é que eu esmoreço às vezes e saio do espírito. Especialmente quando as pessoas:
- estão mais preocupadas com a grana gasta no presente do que com o regalo em si;
- estão loucamente preocupadas em não sujar seus fogões e em lavar a louça;
- estão insanamente preocupadas com pingos de vinho no tapete;
- estão dando uma banana para a alegria em grupo e só focam no saco cheio individual;
- estão dizendo 'não vejo a hora de acabar essa coisa de Natal';
À esses, o meu pesar. Poderia sugerir um toque de canela aqui, um chapéu de feltro bicolor ali... Mas eu não vou sugerir nada. Cada um tem modo próprio de encarar cada data. Eu não saio correndo atrás do trio-elétrico no Carnaval, então não fico dizendo quem tem que embrulhar pacotes com papel colorido e fita.
Eu posso dizer uma coisa, porém: o Natal pode ser uma ótima oportunidade de fazer uma seleção mental de pessoas e situações e pinçar ali o que é importante de verdade. Não necessita tender bolinha com molho agridoce ou meias decoradas presas no batente por isso, eu sei, pode ser feito em qualquer dia. Mas ritos são sempre valorosos. Ajudam a gente a se posicionar sobre o mundo. Eu me posiciono a favor da festança, de um brinde com borbulhas e de um abraço sincero e apertado.
Sinta-se abraçado por mim nesse Natal! Mesmo você aí, emburradinho.
Eu gosto do rito em si que traz com ele o fim do ano e uma mudança clássica - a do calendário e a da vida mesmo.
Eu gosto de ter 'O Grande Dia de Montar a Árvore'. Eu gosto de tocar um CD bem vagabundo com Jingle Bells cantado em inglês, espanhol e turco. Gosto de tirar a poeira de todas as caixas de enfeites, de erguer aquela árvore artificial safada e pedir a ajuda das crianças pra criar o encanto com brocado vermelho, laçarotes e a estrela de arame na ponteira.
Eu gosto de acrescentar estrelinhas em todos os puxadores de gaveta e de sair à caça de presentinhos pra todos os envolvidos. O tio da perua ganhou chocolates. As professoras ganharam sabonetes cheirosos. O Papai Noel recebeu carta - e retificação, porque um detalhe importante foi esquecido. Eu não gosto do trânsito no shopping, por isso eu compro a maioria das coisas nas ruas, mas... ah, eu vou no shopping sim, tem lá um idoso vestido de vermelho que cede balas, é legal.
Eu gosto de pensar no cardápio e na arrumação da mesa. Eu gosto de peru. Gosto mesmo, pode tirar sarro: eu gosto de peru no Natal e sonho com o dia em que finalmente as pessoas passarão a noite na minha casa. Já sonhei tudo: eu vou assar o peru com manteiga à beça e levá-lo à mesa inteiro. Vou fazer arroz com amêndoas e molho em separado, além de farofa sem coisas doces e uma torta gostosa e legumes grelhados com sal grosso e azeite e ervas. E eu vou fazer drinques fortes e servir champanhe de verdade em taças de verdade. E eu vou usar um vestido vermelho. E eu vou ligar o ar condicionado na casa dos 19 graus, assim a gente não entra em combustão espontânea.
Eu gosto de ver a carinha das crianças abrindo os presentes... Eu gosto de ver a cara de todo mundo abrindo os presentes. Eu odeio amigo secreto e brincadeiras tipo 'inimigo secreto' - mas posso viver com ela se a maioria achar engraçado, vai. Céus.
Eu gosto de tudo sobre o Natal, e olha que eu não sou nem nunca fui católica (a despeito do que diz o meu fabuloso 'certificado de Primeira Comunhão'). Eu gosto do espírito. De dar e acolher, de esquecer as desavenças e curtir o momento, de entrar numa vibe positiva e num futuro melhor e mais divertido.
O diabo é que eu esmoreço às vezes e saio do espírito. Especialmente quando as pessoas:
- estão mais preocupadas com a grana gasta no presente do que com o regalo em si;
- estão loucamente preocupadas em não sujar seus fogões e em lavar a louça;
- estão insanamente preocupadas com pingos de vinho no tapete;
- estão dando uma banana para a alegria em grupo e só focam no saco cheio individual;
- estão dizendo 'não vejo a hora de acabar essa coisa de Natal';
À esses, o meu pesar. Poderia sugerir um toque de canela aqui, um chapéu de feltro bicolor ali... Mas eu não vou sugerir nada. Cada um tem modo próprio de encarar cada data. Eu não saio correndo atrás do trio-elétrico no Carnaval, então não fico dizendo quem tem que embrulhar pacotes com papel colorido e fita.
Eu posso dizer uma coisa, porém: o Natal pode ser uma ótima oportunidade de fazer uma seleção mental de pessoas e situações e pinçar ali o que é importante de verdade. Não necessita tender bolinha com molho agridoce ou meias decoradas presas no batente por isso, eu sei, pode ser feito em qualquer dia. Mas ritos são sempre valorosos. Ajudam a gente a se posicionar sobre o mundo. Eu me posiciono a favor da festança, de um brinde com borbulhas e de um abraço sincero e apertado.
Sinta-se abraçado por mim nesse Natal! Mesmo você aí, emburradinho.
quinta-feira, 22 de novembro de 2012
Tumdum, tumdum
Eu só precisava que alguém escutasse o meu coração. Escutasse mesmo, pra valer, prestando atenção em mim e nos detalhes. Ouvisse com calma e cuidado e sem pressa, que não pode escutar um coração com pressa. E pode esquecer a filosofia, eu queria realmente que alguém escutasse o meu coração - assim, com estetoscópio mesmo.
Mas achar um(a) doutor(a) que fizesse isso parecia impossível como encontrar panetone sem caixa amassada no Pão de Açúcar. Ninguém queria. Ninguém queria botar a coisinha grudada no peito e escutar, ninguém queria medir sequer a pressão arterial. Percebi que, hoje, isso compromete: se a pessoa estiver tendo um ataque, quem escutou e mediu precisa socorrer. E deus nos livre de ter que socorrer um atacado, né? Amém!
Ninguém queria escutar e, aquele que foi obrigado, fez marromêno. E me mandou acalmar. Ora, se isso fosse possível eu não precisaria me abalar até o local de atendimento de enfermos e pagar 20 paus de estacionamento, eu só me acalmava e pronto. Mas não era tão fácil. E não era nada grave também, parece. Mas ninguém podia escutar?
Aí uma boa alma me indicou um bom profissional. E eu fiquei pas-ma. Doutor José me atendeu, ouviu e falou muito pouco. Bem pouco mesmo - o que deixa uma verborrágica incorrigível como eu muito incomodada. Eu queria médico que falasse um monte, horas, num bate-papo-clínico de sonho (sonho hipocondríaco, eu sei). Bom, ele falava pouco, mas agia.
Doutor José, pas-mem, me mandou subir numa maca toda profissa e com papel arrumadinho por cima. ME OLHOU NOS OLHOS! Quase apaixonei, porque acho que nenhum médico me olha nos olhos desde a Clínica Modelo, em São Bernardo do Campo, nos idos de 1978, quando eu ganhava pirulito no final.
Olhou nos olhos, baixou a região da olheira com cuidado, mandou olhar pra cima. Acho que um médico não faz isso desde 1978 mesmo - não só comigo, com todos no planeta todo. Tomou pulso no pulso. Mediu a pressão! Ó, e nem foi preso por isso.
Então ele mandou deitar na maca. Deve fazer tanto tempo que um médico não faz exame assim de paciente que poderia até ser considerado assédio. Mas não era, era sapiência. Ele apertou a barriga, ele apertou o pescoço, ele apertou até minhas canelas. Ele escutou o peito com a coisinha de escutar. Me senti com três anos de novo. E contente.
Doutor José pediu uma bateria de exames os mais bestas e padrão, só pra saber como eu vou no geral. Já avisou que estresse is a bitch (não com essas palavras) e muito do que eu sinto parece muito vir daí. Mas ele quer checar tudo direitinho e, resultados em mãos, me mostrar a luz no fim do túnel - a boa, não aquela que nos leva pro campo de golfe nas estrelas.
O consultório dele é daqueles que tem escrito na plaquinha 'Doutor José XXXX', clínico geral. Eu gosto de clínicos gerais. Eles são como pão com manteiga - é simples, é corriqueiro, mas sana todos os aspectos da fome e fica na nossa memória e coração (poética e fisiologicamente).
Doutor José, se falasse só um tico mais e fizesse umas piadas sobre verminose, seria eleito meu guru para sempre. Eu ainda preciso ver se ele vai se adequar - porque eu sou iludida quanto à prática médica, como explicado aqui. Mas tem grande chance. Ele ouviu meu coração, isso é sinal e tanto.
Mas achar um(a) doutor(a) que fizesse isso parecia impossível como encontrar panetone sem caixa amassada no Pão de Açúcar. Ninguém queria. Ninguém queria botar a coisinha grudada no peito e escutar, ninguém queria medir sequer a pressão arterial. Percebi que, hoje, isso compromete: se a pessoa estiver tendo um ataque, quem escutou e mediu precisa socorrer. E deus nos livre de ter que socorrer um atacado, né? Amém!
Ninguém queria escutar e, aquele que foi obrigado, fez marromêno. E me mandou acalmar. Ora, se isso fosse possível eu não precisaria me abalar até o local de atendimento de enfermos e pagar 20 paus de estacionamento, eu só me acalmava e pronto. Mas não era tão fácil. E não era nada grave também, parece. Mas ninguém podia escutar?
Aí uma boa alma me indicou um bom profissional. E eu fiquei pas-ma. Doutor José me atendeu, ouviu e falou muito pouco. Bem pouco mesmo - o que deixa uma verborrágica incorrigível como eu muito incomodada. Eu queria médico que falasse um monte, horas, num bate-papo-clínico de sonho (sonho hipocondríaco, eu sei). Bom, ele falava pouco, mas agia.
Doutor José, pas-mem, me mandou subir numa maca toda profissa e com papel arrumadinho por cima. ME OLHOU NOS OLHOS! Quase apaixonei, porque acho que nenhum médico me olha nos olhos desde a Clínica Modelo, em São Bernardo do Campo, nos idos de 1978, quando eu ganhava pirulito no final.
Olhou nos olhos, baixou a região da olheira com cuidado, mandou olhar pra cima. Acho que um médico não faz isso desde 1978 mesmo - não só comigo, com todos no planeta todo. Tomou pulso no pulso. Mediu a pressão! Ó, e nem foi preso por isso.
Então ele mandou deitar na maca. Deve fazer tanto tempo que um médico não faz exame assim de paciente que poderia até ser considerado assédio. Mas não era, era sapiência. Ele apertou a barriga, ele apertou o pescoço, ele apertou até minhas canelas. Ele escutou o peito com a coisinha de escutar. Me senti com três anos de novo. E contente.
Doutor José pediu uma bateria de exames os mais bestas e padrão, só pra saber como eu vou no geral. Já avisou que estresse is a bitch (não com essas palavras) e muito do que eu sinto parece muito vir daí. Mas ele quer checar tudo direitinho e, resultados em mãos, me mostrar a luz no fim do túnel - a boa, não aquela que nos leva pro campo de golfe nas estrelas.
O consultório dele é daqueles que tem escrito na plaquinha 'Doutor José XXXX', clínico geral. Eu gosto de clínicos gerais. Eles são como pão com manteiga - é simples, é corriqueiro, mas sana todos os aspectos da fome e fica na nossa memória e coração (poética e fisiologicamente).
Doutor José, se falasse só um tico mais e fizesse umas piadas sobre verminose, seria eleito meu guru para sempre. Eu ainda preciso ver se ele vai se adequar - porque eu sou iludida quanto à prática médica, como explicado aqui. Mas tem grande chance. Ele ouviu meu coração, isso é sinal e tanto.
segunda-feira, 29 de outubro de 2012
Under pressure
Todo mundo que eu conheço é um pouco estressado. Um pouco ou muito. Relax mesmo, mesmo mesmo, só uns três ou quatro - e um deles eu diria que é mais pra morto-vivo, daí a pressão baixa. Porque a minha também é alta. Eu estou aí na seara dos estressados. Eu nem diria, vá, estressada: eu sou irritada, mandona, histérica, implacável, meio grossa, paranoica e muito, muito hipocondríaca. Eu acho que eu sou hipocondríaca por causa de todo o resto. E aí o ciclo é que eu fico nervosa, estresso e em seguida começo a sentir dores de cabeça, dores nas costas, uma pontada no pescoço, formigamento... é tumor cerebral, eu sei que é.
Foi o que eu disse pro doutor Thiago no PS quando ele me atendeu. Eu vinha de episódios de muita pressão alta - que ele minimizou dizendo que nem era tudo isso de alta e que essas medições de máquina de farmácia são tão precisas quanto os atacantes da seleção de futebol da Malásia. Ele me disse pra ir embora relaxar, comer menos sal, fazer exercícios pelamordedeus e, caso persistissem os sintomas, consultar um médico. Eu pensei que era isso que eu estava fazendo... Mas ok, o doutor Thiago tinha mesmo uns 14 anos, acho. Eu sempre acho que os médicos que não são grisalhos e não usam suspensórios e bengala são crianças e sabem nada. Desculpem, médicos.
Mas daí parece que não era um tumor cerebral mesmo (apesar de terem se recusado a fazer a tomografia). Parece que era estresse. Ainda é, porque o pescoço duro está aqui comigo. A moça do laboratório que colheu três tupperwares de sangue meu hoje mediu a pressão e disse 13 por 8. Disse que o que eu tenho deve ser "pressão alta causada por jaleco branco", dado meu nervoso com doutores. Como ela usava cinza e ficou me falando sobre a árvore que caiu ontem com a chuva, hoje a pressão está boa. Boa, não ótima. Eu quero estar sempre ótima, não boa.
Em minha defesa eu quero explicar: eu tenho medo de morrer. Até o dia 29 de janeiro de 2005, eu tinha ZERO medo de morrer. Zero mesmo. Era capaz de planejar os quitutes do meu funeral e decidir sobre o lançamento das cinzas sem piscar ou derramar uma lágrima. No dia 30 a Sabrina nasceu e eu passei a ter muito medo de deixar a coisa mais preciosa do mundo sem eira nem beira. E isso ficou latente até 19 de setembro de 2010, quando então nasceu a Olívia e o medo de morrer virou pânico profundo, um abismo negro e cheio de limo de tormenta e desespero. Freud explica?
Bom, se ele não explica, eu sim. Ficou tudo tão deliciosamente legal e perfeito que eu não quero mais não ter isso. Eu amo o Dono da Casa com todos os meus órgãos vitais e essas duas meninas me completam. Quem abriria mão disso impunemente? E quem não teria medo do tumor cerebral? Quem, quem??
Além disso, eu sonho com muitas coisas. Os lugares que eu quero ir, por exemplo. E se eu morrer sem ver Praga, Viena, Budapeste e Moscou? E se eu perder a chance de molhar os pés nas praias do Cabo San Lucas ou jamais ver as cerejeiras em flor no Japão? Eu ainda quero tanto... Quero tanto ver a África, a Oceania, seis territórios na Ásia e todo o exército amarelo... E se?
O diabo de tudo isso é conseguir respirar fundo (sem sentir uma pontada no peito e achar que é ataque... ok, eu paro). E depois perceber que esse é um comportamento muito ridículo e inútil e sair do ciclo de cabecear toxinas do mal para o meu próprio sangue. É parar, raciocinar e deixar de pensar porcaria. E seguir com o jogo.
Um jogo que fica estacionado por semanas quando eu entro nessas. Não fui almoçar com o Tércio pra comemorar o aniversário dele. Não mandei aquele email de trabalho que vai resultar num projeto bacanudo. Não fui visitar o meu irmão. Não ajudei minha irmã com a louça de domingo. Não terminei minhas obrigações (nem as chatas nem as legais). Disse muito não e bem pouco sim.
Peço desculpas a todos os envolvidos. Até pra minha acupunturista e pajé Stella - por ser um monolito difícil de trabalhar e por não conseguir soltar a cabeça. Eu não solto a cabeça nas mãos dela por nada no mundo, não sei por que. Acho que eu não solto a cabeça e fim. Mas não gosto e quero mudar. Eu quero soltar a cabeça. Soltar a cabeça, deixar a pia suja e a máquina de lavar lotada, os sapatos espalhados.
Eu quero ser menos ágil ao volante e menos católica com horários marcados (afinal, eu sempre acabo esperando todo mundo por 20 minutos mesmo). Eu quero respirar até dar aquela vertigenzinha sem achar que isso é câncer de pulmão! Eu quero só menos estresse. Pra mim e pra todos nós.
Foi o que eu disse pro doutor Thiago no PS quando ele me atendeu. Eu vinha de episódios de muita pressão alta - que ele minimizou dizendo que nem era tudo isso de alta e que essas medições de máquina de farmácia são tão precisas quanto os atacantes da seleção de futebol da Malásia. Ele me disse pra ir embora relaxar, comer menos sal, fazer exercícios pelamordedeus e, caso persistissem os sintomas, consultar um médico. Eu pensei que era isso que eu estava fazendo... Mas ok, o doutor Thiago tinha mesmo uns 14 anos, acho. Eu sempre acho que os médicos que não são grisalhos e não usam suspensórios e bengala são crianças e sabem nada. Desculpem, médicos.
Mas daí parece que não era um tumor cerebral mesmo (apesar de terem se recusado a fazer a tomografia). Parece que era estresse. Ainda é, porque o pescoço duro está aqui comigo. A moça do laboratório que colheu três tupperwares de sangue meu hoje mediu a pressão e disse 13 por 8. Disse que o que eu tenho deve ser "pressão alta causada por jaleco branco", dado meu nervoso com doutores. Como ela usava cinza e ficou me falando sobre a árvore que caiu ontem com a chuva, hoje a pressão está boa. Boa, não ótima. Eu quero estar sempre ótima, não boa.
Em minha defesa eu quero explicar: eu tenho medo de morrer. Até o dia 29 de janeiro de 2005, eu tinha ZERO medo de morrer. Zero mesmo. Era capaz de planejar os quitutes do meu funeral e decidir sobre o lançamento das cinzas sem piscar ou derramar uma lágrima. No dia 30 a Sabrina nasceu e eu passei a ter muito medo de deixar a coisa mais preciosa do mundo sem eira nem beira. E isso ficou latente até 19 de setembro de 2010, quando então nasceu a Olívia e o medo de morrer virou pânico profundo, um abismo negro e cheio de limo de tormenta e desespero. Freud explica?
Bom, se ele não explica, eu sim. Ficou tudo tão deliciosamente legal e perfeito que eu não quero mais não ter isso. Eu amo o Dono da Casa com todos os meus órgãos vitais e essas duas meninas me completam. Quem abriria mão disso impunemente? E quem não teria medo do tumor cerebral? Quem, quem??
Além disso, eu sonho com muitas coisas. Os lugares que eu quero ir, por exemplo. E se eu morrer sem ver Praga, Viena, Budapeste e Moscou? E se eu perder a chance de molhar os pés nas praias do Cabo San Lucas ou jamais ver as cerejeiras em flor no Japão? Eu ainda quero tanto... Quero tanto ver a África, a Oceania, seis territórios na Ásia e todo o exército amarelo... E se?
O diabo de tudo isso é conseguir respirar fundo (sem sentir uma pontada no peito e achar que é ataque... ok, eu paro). E depois perceber que esse é um comportamento muito ridículo e inútil e sair do ciclo de cabecear toxinas do mal para o meu próprio sangue. É parar, raciocinar e deixar de pensar porcaria. E seguir com o jogo.
Um jogo que fica estacionado por semanas quando eu entro nessas. Não fui almoçar com o Tércio pra comemorar o aniversário dele. Não mandei aquele email de trabalho que vai resultar num projeto bacanudo. Não fui visitar o meu irmão. Não ajudei minha irmã com a louça de domingo. Não terminei minhas obrigações (nem as chatas nem as legais). Disse muito não e bem pouco sim.
Peço desculpas a todos os envolvidos. Até pra minha acupunturista e pajé Stella - por ser um monolito difícil de trabalhar e por não conseguir soltar a cabeça. Eu não solto a cabeça nas mãos dela por nada no mundo, não sei por que. Acho que eu não solto a cabeça e fim. Mas não gosto e quero mudar. Eu quero soltar a cabeça. Soltar a cabeça, deixar a pia suja e a máquina de lavar lotada, os sapatos espalhados.
Eu quero ser menos ágil ao volante e menos católica com horários marcados (afinal, eu sempre acabo esperando todo mundo por 20 minutos mesmo). Eu quero respirar até dar aquela vertigenzinha sem achar que isso é câncer de pulmão! Eu quero só menos estresse. Pra mim e pra todos nós.
Eu podia ir de Queen, mas eu vou de Frankie
quarta-feira, 24 de outubro de 2012
Mas eu não entendo
Ah, bom, tem só umas 897 mil coisas que eu não entendo sobre a humanidade. Que alguém passe fome, por exemplo. Que crianças sejam obrigadas a sofrer com a guerra. E que, diabos, alguém que usa calça saruel se ache com razão pra criticar o meu crocs. Mas, dentre as coisas que eu não entendo, discutamos só duas hoje:
- Homem após homem, mulher após mulher
Não é sobre a insensata divisão heteros e homos. Bom, até é, que os heteros têm umas ideias... O que eu não entendo é, ainda hoje, o Dono da Casa ouvir algo como "vocês vão ter um terceiro filho? Cê não gostaria de tentar um menino?". Deixa ver: o pessoal acha que homem quer ter filho homem pra ter onde depositar a perpetuação de sua espécie, é isso? E que as mães querem ter meninas pra poder repassar toda sua feminilidade pra outra geração? Que coisa mais esquisita. Eu não sei por que o Dono da Casa sequer viria a cogitar isso. Vieram duas meninas pra nós - e, depois disso, ele é comemorado, endeusado, acarinhado e abalroado e agarrado todos os dias assim que põe o primeiro pé em casa. Por duas meninas que simplesmente o adoram e topam todas as paradas dele (como jogar bola, jogar freesbee, caçar tatu-bola, pegar fruta no pé ou qualquer barbaridade). Quem disse que um moleque faria melhor ou mesmo diferente? Coisa mais ininteligível.
- Essa coisa de pirar com namoricos e a posse
Se tiver uma explicação científica, é essa que eu quero. Porque a do "mas eu aaaaamo ele(a)" não reconheço. Eu sei que é difícil só gostar de quem gosta da gente. Eu sei que tem gente sensacional demais pra não ser amada e desejada. Mas daí a pessoa não quer nossa companhia, não aceita nossos gracejos e abraços e beijinhos e carinho sem ter fim, e não quer passear de mãos dadas com a gente e fica brava quando descobre que a gente fuçou no celular dela e que ligou pra ela e desligou aquelas 87 vezes no fim de semana e não achou graça de nos achar escondidos debaixo de sua cama e... acabou, né? Segue o jogo, por favor. Bota a pessoa no arquivo da mente e começa a olhar em volta, porque provavelmente está-se deixando passar muita gente boa. E chorar no cantinho é válido por algumas semanas ou até uns meses. Depois para, que isso vai ser tão válido e eficiente na sua vida quanto o uso de aparelhos de ginástica da Polishop.
E se você não me entender, eu tento explicar de novo. O que nunca se explica.
- Homem após homem, mulher após mulher
Não é sobre a insensata divisão heteros e homos. Bom, até é, que os heteros têm umas ideias... O que eu não entendo é, ainda hoje, o Dono da Casa ouvir algo como "vocês vão ter um terceiro filho? Cê não gostaria de tentar um menino?". Deixa ver: o pessoal acha que homem quer ter filho homem pra ter onde depositar a perpetuação de sua espécie, é isso? E que as mães querem ter meninas pra poder repassar toda sua feminilidade pra outra geração? Que coisa mais esquisita. Eu não sei por que o Dono da Casa sequer viria a cogitar isso. Vieram duas meninas pra nós - e, depois disso, ele é comemorado, endeusado, acarinhado e abalroado e agarrado todos os dias assim que põe o primeiro pé em casa. Por duas meninas que simplesmente o adoram e topam todas as paradas dele (como jogar bola, jogar freesbee, caçar tatu-bola, pegar fruta no pé ou qualquer barbaridade). Quem disse que um moleque faria melhor ou mesmo diferente? Coisa mais ininteligível.
- Essa coisa de pirar com namoricos e a posse
Se tiver uma explicação científica, é essa que eu quero. Porque a do "mas eu aaaaamo ele(a)" não reconheço. Eu sei que é difícil só gostar de quem gosta da gente. Eu sei que tem gente sensacional demais pra não ser amada e desejada. Mas daí a pessoa não quer nossa companhia, não aceita nossos gracejos e abraços e beijinhos e carinho sem ter fim, e não quer passear de mãos dadas com a gente e fica brava quando descobre que a gente fuçou no celular dela e que ligou pra ela e desligou aquelas 87 vezes no fim de semana e não achou graça de nos achar escondidos debaixo de sua cama e... acabou, né? Segue o jogo, por favor. Bota a pessoa no arquivo da mente e começa a olhar em volta, porque provavelmente está-se deixando passar muita gente boa. E chorar no cantinho é válido por algumas semanas ou até uns meses. Depois para, que isso vai ser tão válido e eficiente na sua vida quanto o uso de aparelhos de ginástica da Polishop.
E se você não me entender, eu tento explicar de novo. O que nunca se explica.
terça-feira, 2 de outubro de 2012
O bonde das tigronas
Quando a Sabrina nasceu, eu admito que mudei bem pouco a minha vida. Eu já trabalhava em casa e assim continuei; eu nunca fui mesmo de balada forte regada a coisa que parece produto pra limpar janela e segui me satisfazendo com a pizza da sexta à noite; eu e o Dono da Casa gostávamos bem de viajar - e foi fácil botar a criança na mochila e girar o mundo do mesmo jeito. Nessa última questão, eu admito que virei alvo da patrulha: metade achava um absurdo viajar com criança pequena, metade achava que a gente até podia ir, mas que devia ficar aqui pertinho, ir comer uma lula frita no Embaré já era lucro e tals... Olha, talvez a coisa que eu tenha menos mudado com o nascimento da Sabrina foi que continuei dando picas pra opinião dos outros.
Achava absolutamente ridículo imaginar viajar sem a minha criança. Achava estúpido quando me diziam que já estava bom ter cuidado dela por um ano e meio até mandar na escola e devia voltar a trabalhar fora. Achava uma cretinice aquela coisa que outras mães diziam sobre "precisar de um tempo só com o marido". Hoje eu acho que cada um pensa o que quiser - e mudei só alguns pontinhos.
Bom, ainda acho incrivelmente estranho não estar perto da Sabrina e da Olívia, que chegou pra botar mais malas no bagageiro do avião e afazeres na "to-do-list" diária. Mas confesso que canso mais rápido e às vezes peço arrego. Sou eu quem faz a comida, dá a comida, dá comida no sentido de bronca mesmo. Sou eu quem levo, busco e canto junto no caminho. Sou eu quem veste, banha, acarinha, ajuda na lição, discute sobre a moral de "Esqueceram de Mim" no que concerne à atuação da família na formação de caráter. Sou eu quem está pro que der e vier - contando só com a ajuda providencial do Dono da Casa, mais ninguém. Estar sem crianças por perto é esquisito.
Mas, depois de 7 anos amando essa dinâmica, esse ano eu descobri a beleza de passar cinco dias longe de tudo isso. Ganhei de presente do Dono da Casa uma passagem para encontrar minha amada amiga no estrangeiro - e passei quase uma semana batendo perna e papo. Foi uma DOIDEIRA.
Nos dois primeiros dias eu, por várias vezes, batia a mão nas cadeiras procurando chaves, carteira ou sacolas imaginárias - pra depois sacar que eu não tinha esquecido nada disso, eu tinha é crianças a menos pra cuidar. No almoço ou jantar, era o sentimento mais maluco não precisar levar ninguém ao banheiro ou fazer colheradas de comida ou desenhar no jogo americano. Éramos só eu, minha amiga, os quitutes e quantos minutos eu quisesse apreciando o cheiro do café.
Isso foi de uma importância pra minha organização mental difícil de descrever. Mas eu tento: eu estava ficando louca e esgotada e os dias de folga vieram a permitir que eu não me jogasse da janela ou mordesse um transeunte na rua. Eu curti sem culpa alguma e voltei nova pra ser uma mãe melhor.
Quando outros caras casados souberam do que o Dono da Casa me proporcionou com seu plano de milhas aéreas, acho que ele quase virou alvo de atentado. De novo, metade achou que a gente estivesse se separando e a outra metade achou que ele fez isso pra compensar alguma bela merda que tinha feito comigo. Não foi. Ele fez por amor. E eu aceitei por amor também.
O caso é que, deixar um pouco esse palco e ir ali ser só eu mesma, não a mãe, a jornalista, a motorista, a cozinheira, a equilibrista e a mulher barbada do circo (quem tem tempo pra estética?), foi bom pra todos nós. Em muitas casas as coisas são até divididas mais igualmente, com pais e mães meiando as tarefas, mas sendo eu quem fica mais em casa, natural que me sobrem mais atividades. Assim, eu estar na total posse das minhas faculdades mentais é importante pra todos aqui. Como muitas mamães precisam. "Happy wife, happy life", é o que seu sempre digo...
Algumas amigas quiseram saber como foi isso e se "Dono da Casa deu conta". Ele deu conta - ele é um adulto saudável e inteligente, com dois braços e duas pernas e amado pelas filhas, como poderia dar alguma coisa errada? Elas queriam é saber mesmo, eu acho, se funcionaria pra elas. E se a vontade e a coragem vierem, eu sugiro que todas tentem. Eu acho até que as agências de turismo estão perdendo tempo ao não criar um produto específico para mães. Pode chamar até "Mães em Férias da Porra da Rotina".
Podiam criar esse pacote de cinco dias em cidades encantadoras, cheias de museus e restaurantes onde a gente come o que quiser e não o que precisa dividir com os filhos, e curte umas profundas respiradas e um tempo pra ler no parque ou uma noite toda dormindo em "X" na cama do hotel glamouroso. Ou que seja numa barraca no mato, nem importa.
O que importa mesmo é entender que, sim, as pessoas que são as maiores responsáveis pela logística da família merecem e precisam de um tempo de vez em quando. Precisam recuperar um tempo pra si - pra pensar, pra refletir, pra fazer nada ou só pra tomar um banho completo sem gente invadindo o banheiro berrando "manhêêê, cadê o meu coisinho?".
Eu fui, vi e fiquei bem, assim como todo o meu pessoal. Quem quiser entrar nesse bonde tem o meu apoio e o meu apreço. É uma mudança valorosa para um dia a dia alegre, mas complexo, e uma boa chance de ignorar o que todo mundo acha e ir ficar contente e dominar a própria vida por uns poucos dias. Na volta, contem-me tudo!
Achava absolutamente ridículo imaginar viajar sem a minha criança. Achava estúpido quando me diziam que já estava bom ter cuidado dela por um ano e meio até mandar na escola e devia voltar a trabalhar fora. Achava uma cretinice aquela coisa que outras mães diziam sobre "precisar de um tempo só com o marido". Hoje eu acho que cada um pensa o que quiser - e mudei só alguns pontinhos.
Bom, ainda acho incrivelmente estranho não estar perto da Sabrina e da Olívia, que chegou pra botar mais malas no bagageiro do avião e afazeres na "to-do-list" diária. Mas confesso que canso mais rápido e às vezes peço arrego. Sou eu quem faz a comida, dá a comida, dá comida no sentido de bronca mesmo. Sou eu quem levo, busco e canto junto no caminho. Sou eu quem veste, banha, acarinha, ajuda na lição, discute sobre a moral de "Esqueceram de Mim" no que concerne à atuação da família na formação de caráter. Sou eu quem está pro que der e vier - contando só com a ajuda providencial do Dono da Casa, mais ninguém. Estar sem crianças por perto é esquisito.
Mas, depois de 7 anos amando essa dinâmica, esse ano eu descobri a beleza de passar cinco dias longe de tudo isso. Ganhei de presente do Dono da Casa uma passagem para encontrar minha amada amiga no estrangeiro - e passei quase uma semana batendo perna e papo. Foi uma DOIDEIRA.
Nos dois primeiros dias eu, por várias vezes, batia a mão nas cadeiras procurando chaves, carteira ou sacolas imaginárias - pra depois sacar que eu não tinha esquecido nada disso, eu tinha é crianças a menos pra cuidar. No almoço ou jantar, era o sentimento mais maluco não precisar levar ninguém ao banheiro ou fazer colheradas de comida ou desenhar no jogo americano. Éramos só eu, minha amiga, os quitutes e quantos minutos eu quisesse apreciando o cheiro do café.
Isso foi de uma importância pra minha organização mental difícil de descrever. Mas eu tento: eu estava ficando louca e esgotada e os dias de folga vieram a permitir que eu não me jogasse da janela ou mordesse um transeunte na rua. Eu curti sem culpa alguma e voltei nova pra ser uma mãe melhor.
Quando outros caras casados souberam do que o Dono da Casa me proporcionou com seu plano de milhas aéreas, acho que ele quase virou alvo de atentado. De novo, metade achou que a gente estivesse se separando e a outra metade achou que ele fez isso pra compensar alguma bela merda que tinha feito comigo. Não foi. Ele fez por amor. E eu aceitei por amor também.
O caso é que, deixar um pouco esse palco e ir ali ser só eu mesma, não a mãe, a jornalista, a motorista, a cozinheira, a equilibrista e a mulher barbada do circo (quem tem tempo pra estética?), foi bom pra todos nós. Em muitas casas as coisas são até divididas mais igualmente, com pais e mães meiando as tarefas, mas sendo eu quem fica mais em casa, natural que me sobrem mais atividades. Assim, eu estar na total posse das minhas faculdades mentais é importante pra todos aqui. Como muitas mamães precisam. "Happy wife, happy life", é o que seu sempre digo...
Algumas amigas quiseram saber como foi isso e se "Dono da Casa deu conta". Ele deu conta - ele é um adulto saudável e inteligente, com dois braços e duas pernas e amado pelas filhas, como poderia dar alguma coisa errada? Elas queriam é saber mesmo, eu acho, se funcionaria pra elas. E se a vontade e a coragem vierem, eu sugiro que todas tentem. Eu acho até que as agências de turismo estão perdendo tempo ao não criar um produto específico para mães. Pode chamar até "Mães em Férias da Porra da Rotina".
Podiam criar esse pacote de cinco dias em cidades encantadoras, cheias de museus e restaurantes onde a gente come o que quiser e não o que precisa dividir com os filhos, e curte umas profundas respiradas e um tempo pra ler no parque ou uma noite toda dormindo em "X" na cama do hotel glamouroso. Ou que seja numa barraca no mato, nem importa.
O que importa mesmo é entender que, sim, as pessoas que são as maiores responsáveis pela logística da família merecem e precisam de um tempo de vez em quando. Precisam recuperar um tempo pra si - pra pensar, pra refletir, pra fazer nada ou só pra tomar um banho completo sem gente invadindo o banheiro berrando "manhêêê, cadê o meu coisinho?".
Eu fui, vi e fiquei bem, assim como todo o meu pessoal. Quem quiser entrar nesse bonde tem o meu apoio e o meu apreço. É uma mudança valorosa para um dia a dia alegre, mas complexo, e uma boa chance de ignorar o que todo mundo acha e ir ficar contente e dominar a própria vida por uns poucos dias. Na volta, contem-me tudo!
Mamãe vai ali e já vem
terça-feira, 28 de agosto de 2012
Quero ser grande
Meus papos favoritos com a Sabrina quase sempre acontecem em trânsito. No carro, a pé, não importa: o ir e vir sempre traz as conversas mais instigantes e divertidas. E surpreendentes. Hoje, ao acompanhá-la até a casa de uma amiguinha, de novo.
A coisa começou com ela me dizendo, do nada, que quando ela morrer vai 'deixar pedido' que alguém a enterre bem do meu lado. Eu achei boa ideia passar o fim dos dias pegada com ela, mas expliquei que, na verdade, se fosse pra escolher, acho que eu preferia ser cremada. Ela sabe o que é cremação, pra minha surpresa. E perguntou onde eu queria que ela 'me jogasse'. 'Onde é o seu lugar favorito, mãe?'.
Eu disse que o meu lugar favorito, sempre, é onde estão ela, Lica e o Dono da Casa - não importa o cenário, me importa é a companhia. Mas que, depois de estar com eles ou estar na nossa casa, meu lugar favorito no mundo é Roma. E depois Londres. E depois San Francisco. E depois Paris, depois Verona, depois Florença e depois... ô, a lista segue longe. Sabrina curtiu o rumo da prosa.
Falou os lugares favoritos dela e acrescentou, como que avisando, que um dia a gente PRECISA ir pra Amazônia. Eu vibrei e contei pra ela que o meu sonho, na verdade, é cortar a Amazônia de barco. E que existe um navio bem do bonito que faz isso docemente, em quatro ou cinco dias, passeando naquela lindeza sobre as águas. Sasá quis saber se o rio ia dar no mar - e eu expliquei que sim, o rio sempre vai dar no mar, mas que o navio não chega ali porque o rio é longo demais. O maior de todos. 'Sabe que o Amazonas é tão comprido que não fica só no Brasil, pega outros países também, Sá?'.
Ao ouvir falar do Peru, ela achou engraçado um país com nome de ave. Falamos longamente sobre o Peru e como eu suspeito que Lima deve ser uma cidade bonita demais e como seria legal passar uns dias lá e outros em Cuzco, no caminho pra ir conhecer Machu Picchu. 'Machu Picchu! Eu ouvi falar desse lugar, mãe, que a vovó já foi lá. Como é Machu Picchu?'.
Esfregando as mãos, estalando dedos e limpando a garganta em puro delírio de poder falar sobre isso, contei pra ela sobre os dias populosos da cidade, como ela 'sumiu' e como foi redescoberta. Eu adoro a trajetória de Machu Picchu porque sempre me pareceu um misto de História de fato e conto misterioso de livro de aventuras. Animadíssima sobre o lugar, ela amou saber sobre o trem Vistadome, que leva turistas até lá hoje em dia, e torceu pra chegar logo o dia de ir ver ao vivo.
E aí franziu o cenho. E falou que fica preocupada de tanta gente ir pra lá e... e... 'e se as pessoas jogarem lixo lá??'. Bom, eu disse que esperamos que isso não aconteça. Que me parece que o tipo de turma que vai até lá é mais consciente e não vai ficar jogando lixo no chão e desgraçando um lugar tão especial. E aí:
'Mãe, eu vou crescer e virar lixeira. Dessas que vai em todos os países do mundo recolhendo lixo e acabando com ele. Tipo reciclagem, só que mais ainda. Sabe? Eu acho que eu vou fazer um clube do lixo, e a gente pode dar ideias pra acabar com ele. Porque imagina se o lixo fica tanto e tanto que começa a chegar no mar e nas cidades perdidas! E a gente não vai poder ver mais nada e descobrir as cidades perdidas que ainda não foram achadas! É, eu vou ser uma lixeira.'
A gente começa falando sobre morte, mas sempre envereda pra vida. Isso que eu adoro.
A coisa começou com ela me dizendo, do nada, que quando ela morrer vai 'deixar pedido' que alguém a enterre bem do meu lado. Eu achei boa ideia passar o fim dos dias pegada com ela, mas expliquei que, na verdade, se fosse pra escolher, acho que eu preferia ser cremada. Ela sabe o que é cremação, pra minha surpresa. E perguntou onde eu queria que ela 'me jogasse'. 'Onde é o seu lugar favorito, mãe?'.
Eu disse que o meu lugar favorito, sempre, é onde estão ela, Lica e o Dono da Casa - não importa o cenário, me importa é a companhia. Mas que, depois de estar com eles ou estar na nossa casa, meu lugar favorito no mundo é Roma. E depois Londres. E depois San Francisco. E depois Paris, depois Verona, depois Florença e depois... ô, a lista segue longe. Sabrina curtiu o rumo da prosa.
Falou os lugares favoritos dela e acrescentou, como que avisando, que um dia a gente PRECISA ir pra Amazônia. Eu vibrei e contei pra ela que o meu sonho, na verdade, é cortar a Amazônia de barco. E que existe um navio bem do bonito que faz isso docemente, em quatro ou cinco dias, passeando naquela lindeza sobre as águas. Sasá quis saber se o rio ia dar no mar - e eu expliquei que sim, o rio sempre vai dar no mar, mas que o navio não chega ali porque o rio é longo demais. O maior de todos. 'Sabe que o Amazonas é tão comprido que não fica só no Brasil, pega outros países também, Sá?'.
Ao ouvir falar do Peru, ela achou engraçado um país com nome de ave. Falamos longamente sobre o Peru e como eu suspeito que Lima deve ser uma cidade bonita demais e como seria legal passar uns dias lá e outros em Cuzco, no caminho pra ir conhecer Machu Picchu. 'Machu Picchu! Eu ouvi falar desse lugar, mãe, que a vovó já foi lá. Como é Machu Picchu?'.
Esfregando as mãos, estalando dedos e limpando a garganta em puro delírio de poder falar sobre isso, contei pra ela sobre os dias populosos da cidade, como ela 'sumiu' e como foi redescoberta. Eu adoro a trajetória de Machu Picchu porque sempre me pareceu um misto de História de fato e conto misterioso de livro de aventuras. Animadíssima sobre o lugar, ela amou saber sobre o trem Vistadome, que leva turistas até lá hoje em dia, e torceu pra chegar logo o dia de ir ver ao vivo.
E aí franziu o cenho. E falou que fica preocupada de tanta gente ir pra lá e... e... 'e se as pessoas jogarem lixo lá??'. Bom, eu disse que esperamos que isso não aconteça. Que me parece que o tipo de turma que vai até lá é mais consciente e não vai ficar jogando lixo no chão e desgraçando um lugar tão especial. E aí:
'Mãe, eu vou crescer e virar lixeira. Dessas que vai em todos os países do mundo recolhendo lixo e acabando com ele. Tipo reciclagem, só que mais ainda. Sabe? Eu acho que eu vou fazer um clube do lixo, e a gente pode dar ideias pra acabar com ele. Porque imagina se o lixo fica tanto e tanto que começa a chegar no mar e nas cidades perdidas! E a gente não vai poder ver mais nada e descobrir as cidades perdidas que ainda não foram achadas! É, eu vou ser uma lixeira.'
A gente começa falando sobre morte, mas sempre envereda pra vida. Isso que eu adoro.
sábado, 25 de agosto de 2012
Da vida doméstica
Fácil desejar perder uns quatro quilos. Difícil fazer isso sem entrar no cheque especial. Porque queijo branco custa muito mais que muçarela; tudo o que é integral tem valor extra, assim como os orgânicos; quinoa vale mais que arroz, peixe tá pela hora da morte, o azeite extra-virgem é só pros milionários; e eu nem vou começar a falar sobre as castanhas. Se os esquilos soubessem o patrimônio que têm em patas, os humanos já teriam há muito sido dominados.
* * * * *
Aliás, por falar em comida, eu peguei muito amor em um programa da TV a cabo chamado 'Cupom Mania'. Pode rir, mas é ciência pura, não mania: o show fala de pessoas que são, nos EUA, conhecidas como 'couponers'. As cuponeiras (maioria esmagadora de mulheres) são aquelas que não apenas recortam vales-compra dos jornais e revistas, mas imprimem na internet, escrevem para empresas pedindo os bônus e, no ato de compras de uns US$ 1.000, pagam menos de 10% disso. Cidadã me mata saindo do mercado com seis carrinhos de compras tendo desembolsado 20 mangos. Eu confesso que ainda não entendi por que, diabos, elas precisam estocar tanto molho de churrasco, isotônico e papel-toalha, mas vá lá: são itens que não estragam logo e podem mesmo ser estocados. Dono da Casa abomina 'Cupom Mania' com cada célula do corpo orgulhoso dele, mas eu acho que comprar um monte de produto de limpeza e artigos de toilette e pagar um nada só usando pedacinhos de papel é muita esperteza. E me corroo por dentro pensando por que, ó vida, isso ainda não existe nesse Brasil de preços absurdos.
* * * * *
A TV anda mesmo me consumindo. Mas só a cabo. Se eu dependesse de televisão aberta eu já teria metido duas azeitonas na têmpora. A programação parece a mesma de 1978. Os programas de humor não me trazem um esboço de sorriso, só sobrancelhonas arqueadas em choque. Essas novelas pelas quais o povo se bate... sério, um festival de misoginia absurda e torturante. Silvio Santos está completamente gagá - e não de uma forma engraçada -, Luciano Huck só ganha mais e mais espaço e se eu ouvir a voz do Datena ou da Sônia Abrão por mais de 30 segundos minha língua enrola e eu estrebucho. Reclamam que a TV a cabo se repete muito e tem intervalos comerciais demais. Concordíssimo. Mas ainda prefiro rever 'A Lenda do Tesouro Perdido' e dizer junto cada fala do que entregar minh'alma pro Jornal Nacional.
* * * * *
Essa secura me obriga a ligar o umidificador às 9h e desligar somente às 21h. Não posso abrir as janelas, porque um pó negro quase ácido invade a casa e as narinas dos menores de 8 anos, causando um bafafá. A mistura de calorzinho com névoa úmida está me fazendo crer que eu moro na Serra do Mar. Tô só esperando a chegada dos Bandeirantes.
* * * * *
Viver cercada por duas menininhas doces e divertidas é tudo de melhor nessa existência. Mas como eu sinto falta de ter direito exclusivo ao banheiro... Ou eu estou no banheiro e ele é invadido por gente de cerca de 1 metro; ou eu já adentro o banheiro com elas no meu encalço, tomando a dianteira no espelho e espalhando livros pelo chão ou fazendo inventário do armarinho de cosméticos aos meus pés. Ao tomar banho, outro dia, pela enésima vez, o recinto foi violado - e vale avisar que o banheiro dá para a janela que dá para a rua que dá para outro prédio bem com as janelas sempre abertas. Se eu passar a cobrar dos vizinhos pelo peep-show, será que eu consigo comprar um banheiro só meu? Ou pelo menos uma tranca?
* * * * *
Essa vida de estar muito em casa está me deixando monotemática. Preciso urgente sair desse círculo antes que eu comece a colocar bobes no cabelos e cobrir com um lenço, debruçar nas janelas e chamar a vizinhança pra café com bolo. Trabalhar em casa é lindo, mas se aproxima o dia de voltar a ter emprego, hein.
Aliás, por falar em comida, eu peguei muito amor em um programa da TV a cabo chamado 'Cupom Mania'. Pode rir, mas é ciência pura, não mania: o show fala de pessoas que são, nos EUA, conhecidas como 'couponers'. As cuponeiras (maioria esmagadora de mulheres) são aquelas que não apenas recortam vales-compra dos jornais e revistas, mas imprimem na internet, escrevem para empresas pedindo os bônus e, no ato de compras de uns US$ 1.000, pagam menos de 10% disso. Cidadã me mata saindo do mercado com seis carrinhos de compras tendo desembolsado 20 mangos. Eu confesso que ainda não entendi por que, diabos, elas precisam estocar tanto molho de churrasco, isotônico e papel-toalha, mas vá lá: são itens que não estragam logo e podem mesmo ser estocados. Dono da Casa abomina 'Cupom Mania' com cada célula do corpo orgulhoso dele, mas eu acho que comprar um monte de produto de limpeza e artigos de toilette e pagar um nada só usando pedacinhos de papel é muita esperteza. E me corroo por dentro pensando por que, ó vida, isso ainda não existe nesse Brasil de preços absurdos.
A TV anda mesmo me consumindo. Mas só a cabo. Se eu dependesse de televisão aberta eu já teria metido duas azeitonas na têmpora. A programação parece a mesma de 1978. Os programas de humor não me trazem um esboço de sorriso, só sobrancelhonas arqueadas em choque. Essas novelas pelas quais o povo se bate... sério, um festival de misoginia absurda e torturante. Silvio Santos está completamente gagá - e não de uma forma engraçada -, Luciano Huck só ganha mais e mais espaço e se eu ouvir a voz do Datena ou da Sônia Abrão por mais de 30 segundos minha língua enrola e eu estrebucho. Reclamam que a TV a cabo se repete muito e tem intervalos comerciais demais. Concordíssimo. Mas ainda prefiro rever 'A Lenda do Tesouro Perdido' e dizer junto cada fala do que entregar minh'alma pro Jornal Nacional.
Essa secura me obriga a ligar o umidificador às 9h e desligar somente às 21h. Não posso abrir as janelas, porque um pó negro quase ácido invade a casa e as narinas dos menores de 8 anos, causando um bafafá. A mistura de calorzinho com névoa úmida está me fazendo crer que eu moro na Serra do Mar. Tô só esperando a chegada dos Bandeirantes.
Viver cercada por duas menininhas doces e divertidas é tudo de melhor nessa existência. Mas como eu sinto falta de ter direito exclusivo ao banheiro... Ou eu estou no banheiro e ele é invadido por gente de cerca de 1 metro; ou eu já adentro o banheiro com elas no meu encalço, tomando a dianteira no espelho e espalhando livros pelo chão ou fazendo inventário do armarinho de cosméticos aos meus pés. Ao tomar banho, outro dia, pela enésima vez, o recinto foi violado - e vale avisar que o banheiro dá para a janela que dá para a rua que dá para outro prédio bem com as janelas sempre abertas. Se eu passar a cobrar dos vizinhos pelo peep-show, será que eu consigo comprar um banheiro só meu? Ou pelo menos uma tranca?
Essa vida de estar muito em casa está me deixando monotemática. Preciso urgente sair desse círculo antes que eu comece a colocar bobes no cabelos e cobrir com um lenço, debruçar nas janelas e chamar a vizinhança pra café com bolo. Trabalhar em casa é lindo, mas se aproxima o dia de voltar a ter emprego, hein.
Pela hora da morte, minina...
quinta-feira, 9 de agosto de 2012
Gentil
- Mãe, o que é isso que você passa no rosto?
- Maquiagem, Sá.
- Eu sei, mas o que é isso aí, do vidrinho?
- É base.
- Pra que serve?
- Ah, pra dar uma ajeitada no rosto, pra pele ficar com aparência mais bonita.
- Eu posso passar?
- Claro que não, você tem o rosto perfeito de verdade.
- Eu não tenho, não. Eu nem tenho as pintinhas no nariz que nem as suas.
Aí a gente dá uns vinte apertões e beijões, enxuga discretamente os olhos molhados e dá-lhe um tapinha no bumbum mandando voltar pro Reino da Fofura, que é de onde ela deve ter vindo.
- Maquiagem, Sá.
- Eu sei, mas o que é isso aí, do vidrinho?
- É base.
- Pra que serve?
- Ah, pra dar uma ajeitada no rosto, pra pele ficar com aparência mais bonita.
- Eu posso passar?
- Claro que não, você tem o rosto perfeito de verdade.
- Eu não tenho, não. Eu nem tenho as pintinhas no nariz que nem as suas.
Aí a gente dá uns vinte apertões e beijões, enxuga discretamente os olhos molhados e dá-lhe um tapinha no bumbum mandando voltar pro Reino da Fofura, que é de onde ela deve ter vindo.
sábado, 28 de julho de 2012
Adocica, meu amor, adocica
O que é que eu vou fazer se era superengraçado tirar barato das pessoas que usavam aquelas bolinhas açucaradas guardadas em vidrinhos? A gente lá, falando sobre ciência e pesquisas comprovadas e a relação causa/efeito e a ação das drogas calculadas e o povo querendo me convencer de que a tal homeopatia faria o serviço na base de torrões de sacarose? Ah, quer conversar sobre feitiçaria liga pro Merlin, obrigada.
Mas aí, passados esses talvez 20 anos... eu sucumbi. É, eu sei, pode começar a sarrear de volta. Eu traí as minhas crenças - aquelas que eu nem sei mais quais eram - e, há coisa de quatro meses, estou dando homeopatia pra fortalecer o sistema imunológico das minhas filhas. E, quando é o caso, tratar também nariz escorrendo e inflamaçõezinhas leves. Às vezes eu ainda rio ao pegar o vidro e contar 10 glóbulos e inserir na goela das pobres. Mas ó: chega um momento em que a gente faz praticamente qualquer negócio pra ganhar uma ajuda contra os males infantis. Feio é não dar uma chance pra novas artimanhas.
O caso é que era um tal de mês sim, mês também, ver menina com coisinhas de saúde. E isso vai transtornando a minha cabeça fraca. Eu posso mover um trem na unha, mas eu não domino vírus e bactérias (ainda). Então, dado o saco cheio com a alopatia, resolvi dar também uma chance pra nova pediatra, a moça de fala mansa, gestual de monge e cara de sacerdotisa, e suas beberagens. Quer dizer, assim fica parecendo que a Doutora Fátima é um mix de Fada do Carvalho com a Feiticeira do He-Man. Mas não, ela só joga nas duas frentes: entramos com o armamento pesado quando necessário, mas também apostamos na farmácia de manipulação e aquela coisa zen toda.
Bom, a rigor eles não dizem ter nada de zen, mágico ou supernatural na homeopatia. Eles dizem que é ciência pura. Eu ainda acho discutível uma receita que manda fabricar bolinhas doces com 'germes e poeira' e coisas do tipo. De vez em quando olho bem procurando também 'balinhas de goma', 'um toque de pirlimpimpim' e 'agora misture com amor e vire à direita até o amanhã'.
O caso todo é que, há quatro meses... a coisa vem funcionando. Pegam muito menos melecas e, quando pegam, saram em coisa de dia ou dois. É claro que tem o fato de as duas estarem crescendo e ficando mais fortes e mais sabidas e parando de lamber corrimão de shopping center à menor distração dos pais. Mas, não sei, acho que as bolinhas ajudam. E aquele outro vidrinho com o líquido que tem gosto de birita também.
O diabo da homeopatia é que eles querem que eu leve a sério, mas não me ajudam (eles, no caso, são todos os envolvidos: a pediatra, o farmacêutico manipulador, os autores de livros especializados e a minha irmã, que insiste nessa coisa faz 20 anos). Faço lá as bolotas; e depois vêm as recomendações. Mantenha longe do calor e em local seco e ventilado. Bom, até aí qualquer remédio pede isso. E também não pode deixar a coisa perto de aparelhos elétricos e ondas magnéticas. Complicou, porque aqui a casa é pequena.
Então eu não posso deixar no armário das louças, porque o microondas fica ao lado; não posso deixar na bancada porque é onde carregam-se celulares e tablets; não posso deixar na sala por causa do computador e da televisão e nem na pia, no guarda-comida ou em cima da geladeira, porque bate sol em tudo isso e viola a primeira regra. Não posso deixar no banheiro porque eu tomo banho quente e o recinto não tem janela- e, quando eu acabo o banho, o local ganha o apelido de As Brumas de Avalon. Não tenho onde deixar essas bolotas; acho que vou ensacar tudo, amarrar uma corda e pendurar pra fora da janela.
E tem também a administração. Não pode dar o liquidinho em colher de metal. Não pode dar com o estômago cheio. Olha, essas meninas comem o dia inteiro como dois pequenos búfalos. Nunca tem estômago vazio aqui, a gente é meio italiano! Como proceder?
Eu sei é que eu vou dando como posso e acho que vai dando certo. Mal, eu já vi que não faz. E as meninas curtem, é como uma sobremesa que ajuda a curar. Às vezes ainda faço a gracinha de dizer 'sabia que a palavra homeopatia vem do grego homeo = bolinha e patia = açúcar?'. Mas aceito perder a piada se for pra viver com a saúde das menores mais em paz.
Mas aí, passados esses talvez 20 anos... eu sucumbi. É, eu sei, pode começar a sarrear de volta. Eu traí as minhas crenças - aquelas que eu nem sei mais quais eram - e, há coisa de quatro meses, estou dando homeopatia pra fortalecer o sistema imunológico das minhas filhas. E, quando é o caso, tratar também nariz escorrendo e inflamaçõezinhas leves. Às vezes eu ainda rio ao pegar o vidro e contar 10 glóbulos e inserir na goela das pobres. Mas ó: chega um momento em que a gente faz praticamente qualquer negócio pra ganhar uma ajuda contra os males infantis. Feio é não dar uma chance pra novas artimanhas.
O caso é que era um tal de mês sim, mês também, ver menina com coisinhas de saúde. E isso vai transtornando a minha cabeça fraca. Eu posso mover um trem na unha, mas eu não domino vírus e bactérias (ainda). Então, dado o saco cheio com a alopatia, resolvi dar também uma chance pra nova pediatra, a moça de fala mansa, gestual de monge e cara de sacerdotisa, e suas beberagens. Quer dizer, assim fica parecendo que a Doutora Fátima é um mix de Fada do Carvalho com a Feiticeira do He-Man. Mas não, ela só joga nas duas frentes: entramos com o armamento pesado quando necessário, mas também apostamos na farmácia de manipulação e aquela coisa zen toda.
Bom, a rigor eles não dizem ter nada de zen, mágico ou supernatural na homeopatia. Eles dizem que é ciência pura. Eu ainda acho discutível uma receita que manda fabricar bolinhas doces com 'germes e poeira' e coisas do tipo. De vez em quando olho bem procurando também 'balinhas de goma', 'um toque de pirlimpimpim' e 'agora misture com amor e vire à direita até o amanhã'.
O caso todo é que, há quatro meses... a coisa vem funcionando. Pegam muito menos melecas e, quando pegam, saram em coisa de dia ou dois. É claro que tem o fato de as duas estarem crescendo e ficando mais fortes e mais sabidas e parando de lamber corrimão de shopping center à menor distração dos pais. Mas, não sei, acho que as bolinhas ajudam. E aquele outro vidrinho com o líquido que tem gosto de birita também.
O diabo da homeopatia é que eles querem que eu leve a sério, mas não me ajudam (eles, no caso, são todos os envolvidos: a pediatra, o farmacêutico manipulador, os autores de livros especializados e a minha irmã, que insiste nessa coisa faz 20 anos). Faço lá as bolotas; e depois vêm as recomendações. Mantenha longe do calor e em local seco e ventilado. Bom, até aí qualquer remédio pede isso. E também não pode deixar a coisa perto de aparelhos elétricos e ondas magnéticas. Complicou, porque aqui a casa é pequena.
Então eu não posso deixar no armário das louças, porque o microondas fica ao lado; não posso deixar na bancada porque é onde carregam-se celulares e tablets; não posso deixar na sala por causa do computador e da televisão e nem na pia, no guarda-comida ou em cima da geladeira, porque bate sol em tudo isso e viola a primeira regra. Não posso deixar no banheiro porque eu tomo banho quente e o recinto não tem janela- e, quando eu acabo o banho, o local ganha o apelido de As Brumas de Avalon. Não tenho onde deixar essas bolotas; acho que vou ensacar tudo, amarrar uma corda e pendurar pra fora da janela.
E tem também a administração. Não pode dar o liquidinho em colher de metal. Não pode dar com o estômago cheio. Olha, essas meninas comem o dia inteiro como dois pequenos búfalos. Nunca tem estômago vazio aqui, a gente é meio italiano! Como proceder?
E, além de tudo, parecem sagu
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