terça-feira, 24 de abril de 2012

Essa mania de fuçar o mundo

Fazendo um retrospecto aqui, eu acho que a minha sanha viajante começou mais ou menos aos 7 anos. Era uma época em que o meu pai viajava muito, quase que semanalmente, e eu atendia o telefone verde-água de disco pra escutar coisas como "tô aqui em Salvador, Flá, comendo camarão de frente pro mar!". Por mais que eu soubesse que ele ralava doidamente visitando concessionários e descascando só pepino, ouvir que ele tinha tomado um avião da Vasp, comido a comidinha que vinha na bandejinha, andado por estradas e ruas novas e comido camarão de frente pro mar me dava até uma torção no estômago. Ah, eu queria muito aquela vida. Camarão incluso.

Eu só fui comer camarão de frente pro mar em Salvador faz uns quatro anos. Mas foi um deleite que quase me fez chorar - e olha que deixaram pra mim a cadeira de costas pro mar, obrigando a uma manobra a cada onda. Foi como ganhar um selo na minha caderneta "Coisas para Fazer e Descobrir pelo Mundão". Sim, eu tenho essa caderneta imaginária. E ela é lotadinha de espaços em branco e de outros já preenchidos.

Acontece que, ao viajar, não dá pra ficar só ali pelo circuito padrão dos monumentos famosos, museus imperdíveis e catedrais de desmontar arcadas dentárias. Ao viajar, eu preciso de caminhos e sonhos mais específicos. Sempre foi assim. Eu fui com o prazer maior do mundo ver a Fontana di Trevi, me acotovelar com a turba e lançar a moedinha pelos ares; mas eu também precisei escarafunchar o mapa com lupa pra encontrar a Fontana delle Tartarughe, que fica num beco escuro no meio dos edifícios de 400 anos, porque tinha visto a foto dela em um livro da biblioteca quando tinha 12 anos.

Meti na cabeça que precisava ver a fonte, reboquei Dono da Casa por horas, mas achei a danada. Mais de uma década depois, ainda é a minha favorita em Roma.

Também aceito de bom grado os toques de amigos sobre "o crepe da barraquinha da esquina daquela praça bonita" ou coisa que o valha. Faço listas, ao sair de mala e cuia, caçando os desejos antigos, as imagens que guardei na cabeça e os highlights que vi em guias, sites e etcs.. É legal demais ver ao vivo, dias ou anos depois, aquilo que estava só na nossa mente.

A internet, aliás, só veio piorar a situação da minha caderneta à espera de selos impalpáveis. Era ver um filme que aparecia aquela livraria, lá ia eu checar o site da mesma, ver o endereço, desejar pôr as garras naqueles livros e respirar aquele ar. E aí teve o agravamento fatal: Google Mapas.

Agora não dá pra ler um livro de não-ficção ou assistir um filme que saio em disparada botando endereços no rastreador de ruas pra ver a fachada do bar, do hotel, da casa onde foi filmada a cena favorita do romancezinho. Eu passeio por Londres, Tóquio, San Francisco e afins toda semana - e até já dei uma vasculhada nas estradas do Havaí pra ver que tipo de carro vou alugar pra apreciar melhor a paisagem. Um dia. Quando a caderneta implorar por um selinho "rota dos vulcões, Oahu".

Em breve eu vou partir novamente pra mais uma busca dessas sem lenço e sem documento (mentira, com lenço e com documento, porque eu sou terminantemente contra nariz escorrendo e dias inúteis na salinha da imigração). Já tem uma lista impossível com itens como o restaurante daquela chef que escreveu o último livro que eu li, o mercado mais novo aberto na grande avenida, um parque suspenso que deve ser coisa de cinema, uma exposição, um bondinho, um sorvete... Vão ser poucos dias pra muitos selos invisíveis. Mas o que se realizar, tá bom. De outra vez eu saio à caça com uma nova lista sonhadora.




Valeu a pena a caçada

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Traga Zoboo de volta. E aquele dino também, vai

Eu não vou dizer que os Octonautas são chatos, porque são umas gracinhas. Nem vou esculhambar as Princesas do Mar, porque elas também fazem esse belo trabalho de falar dos oceanos. E longe de mim avacalhar com Os Piratas e suas Aventuras Coloridas, já que são bucaneiros E artistas, ou com o Dino Trem, ou com aqueles pôneis neuróticos e fofinhos, ou com World Word - que outro dia me lembrou como se dizia celeiro em inglês. Mas eu confesso, eu sinto falta do Barney. E do Thomas. E especialmente do Zoboomafoo.

Tenho uma teoria sobre os desenhos da TV. No nosso passado, aquele vivido lá nos jocosos anos 1970, 1980 e 1990, a vida ainda estava num ritmo simplório e festivo. As ondas de violência gratuita eram quase novidade e, pra parar na frente da televisão nesse tema, só com muito Crime da Rua Cuba. Então os desenhos, reflexos de nós em animação pra telinha, podiam muito bem se utilizar de bigornas, explosivos, instrumentos perfurocortantes, substâncias químicas duvidosas e até um 'tônico para Pica-Pau' que eu tenho certeza que era misturinha de ecstasy.

Podiam, porque a vida real era clara e limpa. Como a vida de hoje é muito mais sombria e perdida, os desenhos passaram a... bom, passaram a passar um pano. É muita musiquinha, muito abraço, muito construtivismo, muita didática, muita cor, brilho e magia. Não há cavalos mexicanos tentando esmagar crânios com um violão nem ursos hippies andando em motos imaginárias. Tem só coelhinho ensinando a desenhar, uns seres discutíveis brincando no quintal e cachorrinhos franceses falando sobre como é lindo e encantador ganhar um irmãozinho novo.

A criançada cai na feitiçaria porque é tudo tão doce e fofo e legal que não tem como não cair. E nós, os pais, caimos no sono enquanto o Sportacus come mais um 'doce do esporte' (é maçã, para os desavisados).

A gente cai no sono porque, bem, escutar o Peixonauta salvar mais uma lagoa da poluição se torna um pouco repetitivo. Mas somos agradecidos. É bem provável que uma ou outra criança aprenda mesmo uma ou duas coisas com os desenhos queriduxos do que com os adultos neuróticos e fanfarrões que os circundam hoje em dia.

E o problema maior é que, depois de conhecer essa gentinha, fica difícil livrar-se dela. Eu curti o episódio da rabeca quebrada por causa do desleixo da Angelina Ballerina; eu me peguei dançandinho com o Hi-5 mais de uma vez; eu parei e sentei e pensei onde as agruras de Madeleine iriam levá-la agora; eu cantei junto uma pá de músicas que o Barney nos ensinou e aprendi sobre iguanas e lhamas com o Zoboomafoo. Ah, tem aí Aventuras com os Kratts pra tentar compensar, mas cadê Zooboo, por favor?

Sim, eu sinto falta daquele lêmure - o de verdade e o de pano, que falava ao meu coração e me hipnotizava com aqueles olhões. A molecada se pega com os desenhos e, quando eles caducam, elas passam a achá-lo ridículo e 'de bebê'. Felizmente. Significa que estão passando de fase, deixando Little People pra trás com alegria e vergonhinha - e trocando o mimo televisivo por programas de adolescentes e/ou umas coisas loucas que aparecem no Cartoon (mas eu proíbo Ben 10, logicamente, porque Supremacia Alienígena é o cacete).

Passa pra eles, mas não pra nós. E basta que alguma loja de departamentos meta no DVD o Barney entoando o clássico 'Amo você, você me ama, somos uma família feliz' que lágrimas de saudades já brotam pavorosamente nas minhas vistas. Vai ver não é saudade do dinossauro carente em si, mas de um tempo bonito.


Eu, você e... cadê Zoboomafoo, pô?!

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Mulher é tudo vaca

É sim. É tudo va-ca. A gente é vaca quando estaciona primeiro na vaga. A gente é vaca quando é promovida. A gente é vaca quando usa saia curta, quando usa decote e quando usa biquini. Na praia. Com 40 graus.

Mulher é uma tremenda vaca quando manda o subordinado homem executar logo uma certa tarefa, cobrando o resultado que ele já teria dado se o chefe fosse homem. Mulher é vaca quando se impõe e defende um ponto de vista com gana - quando, se fosse um homem defendendo, ele seria apenas "exigente". E eu simplesmente a-do-ro aquela máxima que diz: "quando ganha cargo alto, mulher vira tudo vaca". Com atenção especial pro fato de aquela vaca "ganhar" cargo alto, nunca conquistar.

A gente é uma grandecíssima vaca ao paquerar o marido de outra e é mais vaca ainda no ponto de vista da que quer o nosso marido, porque está atravancando os trabalhos. Aliás, eu já vi muito mais mulher chamando outra de vaca do que homens... uma pena. Porque os homens adoram quando nós nos chamamos assim. Dá neles um gostinho de mulher ser uma coisinha tola que se engalfinha por nada.

Já vi mulher sendo considerada uma vaca por pedir que o que fura fila tome sua linha e vá lá pro final. Já vi mulher sendo chamada de vaca porque ficou bonita demais com o penteado novo e chamou atenção. Já vi mulher sendo tratada como vaca no ônibus, no trem, no avião - e eu nunca fui de navio, mas tenho certeza que se a gente pedir uma espreguiçadeira pros folgados que sentam em uma e espalham as toalhas na outra, vão dizer que somos umas vacas.

Mulher é vaca porque tem dinheiro, porque tem prestígio e porque tem tutano. E quando não se têm nada disso, danou-se também, porque vão achar um meio de dizer que somos umas vacas, sei lá, porque "tá desempregada mas não deixa de fazer a unha".

E olha, a maior vaca de todas é a que joga charme. Ou não joga charme. Ou, mais que todas, a que aceita sair com o sujeito, mas depois decide que não está a fim do tico-tico-no-fubá - e, NOSSA, essa vai ser chamada de vaca pra todo o sempre. Ter uma escolha é a maior vaquice se que pode fazer.

O diabo é que mulher é vaca até quando é a presidenta da nação. Podiam dizer que é incompetente, pouco diplomática, lerda, grossa, chata, feia, boba... Mas escolhem dizer que "é uma vaca mesmo". Nenhum homem já foi repreendido e chamado de boi. Muito menos um presidente.

O que se ataca no homem é a virilidade - e todos os que não condizem logo são ditos "bichas". Com a gente é específico: vaca. Eu custo a entender como isso foi virando xingamento, mas acho que quer dizer que somos um bicho que dá pra todos os machos do bando. O que se ataca na mulher, portanto, é precisamente o sexo dela.

Claro que existe mulher coisa-ruim, como homem coisa-ruim. Claro que algumas são desonestas, maldosas, estúpidas, etc. e quetal. Mas por que tantas e tantas vezes todas nós somos umas vacas, aí é curioso de engolir. Eu sei é que eu já devo ter sido considerada uma vaca muitas vezes. Mesmo não sendo uma.

Eu gostaria muito que isso caísse em desuso. Globalmente - porque, ó que interessante, mulher é vaca em diversas culturas e idiomas. Eu curto as vacas e acho uma graça seus padrões lisos ou malhados e aquele leite gostoso que elas dão... mas eu não acho que as mulheres deveriam ser chamadas de vacas. Na minha presença muitas vezes elas são - e eu quero nem saber quem é que está rodeando a mesa e se a birita já subiu à mente, eu boto o Jabaquara em campo se ouvir uma coisa assim.

Quem diz que mulher é tudo vaca tem muito o que pastar.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Mundo velho sem porteira - e com Sabrina

Planejar viagem é comigo mesma. Eu planejo as que vou fazer um dia, as que provavelmente nem vou fazer, as que estão por vir logo e as que serão pra daqui muitos anos. Planejo inclusive as viagens de amigos e parentes - e às vezes eu acho que faço isso sem eles pedirem, por um prazer pessoal de ser enxerida. Uma enxerida turística.

Daí que eu sonho muito, às vezes em voz alta, e acho que acabei contaminando a Sabrina. Sabrina tem apenas 7 anos, mas ela sonha grande e profundamente. Hoje, no carro, nosso papo diário discorreu sobre viagens. Sasá quer férias. Deve estar estressada.

Eu perguntei pra ela sobre A Grande Viagem do Meio do Ano (que a gente promete faz tempo, desde que ela entrou na 'escola séria' e não pode mais faltar quando bem quiser, no meio de setembro, pra não perder terreno). Estamos batalhando esse break em julho faz tempo porque, desde que Olívia deu o ar de sua imensa graça aqui, as viagens longas e empolgadonas e custosas e com vôos de mais de 3 horas ficaram na geladeira. Mas, agora, estamos prontos pra embarcar Lica, essa malinha de viagem.

Daí que pretendemos nos aventurar pelo Velho Mundo esse ano. Sabrina está encantada com a ideia de conhecer Paris (coisa que ela sabe que ela já fez, mas a memória de 14 meses não ajudou a fixar, então... bora de novo). Perguntei o que ela queria ver em Paris.

- A Torre Eiffel! E subir nela. E ficar lá em cima um tempão.

Concordei que vai ser o máximo, que a gente pode ir sim. E o que mais?

- E quero comer todo o macarron que eu puder!

Perdida no sotaque eu disse 'mas por que comer tanto macarrão na França, ué?'.

- MACARROOOON! Não macarrão, macarrão eu como aqui em casa!

Planejamos ir nos parques correr e pular, decidimos ir no museu de ciências e, depois que eu contei que há uma Disney ali perto, ela decretou que um dia todo será lá. Tudo bem.

O papo seguiu sobre os lugares pra ir nesse mundão velho e eu sugeri que, um dia, ela vá conhecer o Japão com o Dono da Casa - destino de desejo de ambos, mas longe do meu coração por enquanto porque 28 horas de viagem ninguém merece. E a Olívia nem sabe onde fica Osasco, que dirá Tóquio. Sasá mais uma vez delirou.

- Oba, eu vou com o papai e nós vamos comprar aquele gato que ergue uma pata só.

Ah, mas eu disse que um dia também quero viajar só eu e ela, pra gente bater mais papos e ficar juntinhas. Perguntei pra onde seria.

- Canadá!, disse a figura.

- Uau, Canadá, que demais! Lá tem as paisagens mais lindas, Sá, montanhas, florestas, bosques, lagos e umas cidades legais demais. Eu quero ir contigo sim. Mas o que é que você escutou sobre o Canadá, o que você acha que tem de bacana lá?

- Os canadenses.

Pronto. Um dia a Sabrina não vai ser só uma viajante inveterada, uma doida por culturas e cenários diferentes e uma psicopata dos mapas como eu. Ela vai ser funcionária da ONU. Certeza.

terça-feira, 13 de março de 2012

Mas só se...

Eu conheço um monte de gente que anda pela casa dos 30 e está com aquela senhora dúvida sobre ter ou não filhos. Seus problemas acabaram, minha gente querida que ainda curte baladinha mas já vê nascer cabelos brancos nos flancos da cabeça e têm dúvidas se quer ou não morrer solitário e esquecido!

Posso dar minha visão do caso. É fácil. Só tenha filhos...

- se você não liga de usar banheiro público todos os dias da sua vida. Sim, porque o lindo banheiro da sua suíte, mesmo tão privativo e aconchegante, será diariamente invadido por gente de pouca estatura que não bate, não liga pra sua privacidade e não pode esperar pra saber 'onde tá o meu coisinho, manhê?';

- se você não tem nojo de quase nada. Porque é certo que, dia ou outro, será preciso beber daquele copo visguento onde o diabinho babou horas intermináveis (porque o copo precisa ser esvaziado porque o segurança não permite a entrada de bebida ou coisa que o valha);

- se você adora mostrar suas partes corporais privadas em público, quando os 'de menor' puxam a blusa da mamãe pelo decote até a altura do umbigo ou levantam a saia da supracitada mamãe em busca de esconderijo secreto;

- se você não liga de ser excluída de todo e qualquer evento social mais descolado e jovial 'porque, né, a gente sabe que você nunca vai porque tem a criança...' (a palavra 'criança', aqui, deve ser pronunciada como se fosse 'lepra');

- se você aceita bem umas rugas de preocupação a mais a cada febre sem sentido, virose misteriosa ou queda na qual aquela cabecinha molinha e miúda acertou a quina da mesa com a força de uma bigorna em queda livre;

- se você não faz questão de ter uma conversa com sua cara-metade que tenha início, meio e fim;

- se você faz questão de continuar sendo o filho dos seus pais - porque no exato instante que netos nascem, eles dão fim ao posto de pai e mãe e viram apenas o vovô e a vovó (e você, no caso, passará a ser somente a entidade dispensável que acompanha o 'tesourinho da bobozinha!');

- se você acha normal observar rostos transtornados quando adentra a cabine do avião com um bebê nos braços - e todos te fazem sentir como alguém que está embarcando com uma jaguatirica devoradora de humanos e com alto-falantes embutidos;

- se você gosta de assistir o mesmo desenho animado no DVD por 849 vezes seguidas - cantando junto;

- se você concorda em, no fim do dia, se parecer mais com a Cuca do que com a Angelina Jolie.


Mas aviso também que você não deve de modo algum ter filhos se...

- você não pretende conhecer o maior amor que há nesse mundo, não tem intenção de surtar de alegria e contentamento por ter a chance de ver outro ser humano crescer dia a dia e nem quer viver com a constante sensação de ser amado e estar completo e feliz.

Ajudei pacas, dizaí.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Eu, elas e as nossas irmãs

Foi lá pelos 5 anos que eu me lembro de ver a Raquel pela primeira vez. Com certeza eu a vi antes, passeando na praça de carrinho pelas mãos das nossas mães, mas memória tem limite. Bom, eu conheci a Raquel assim, no bairro e desde sempre, e só lá pelos 15 anos vieram a Caren e a Fabiane. Vou contar: naqueles idos de 1990, éramos as quatro Cavaleiras do Apocalipse, dominando a cidade, zunindo pelas ruas, ganhando experiência. Só nas nossas mentes, claro.

Na realidade, nós éramos quatro exemplares da nerdice. A Raquel ainda era mais descolada, bonitona, altona, loirona como só as famosas eram (e aqui cabe a explicação que, no meu tempo, só havia o termo 'famosa', não 'popular', que só desembarcou no ABC Paulista com o advento do "Barrados no Baile"). A Caren também era loirona e altona, mas menos descolada, ligeiramente tímida, muito romântica e poética e musical desde o bercinho dela. Fabiane era nada loira e pouco alta, mas compensava numa personalidade que dominava a sala inteirinha em exatos 4 segundos. E eu era aquilo lá, uma coisa mei estranha que, sabe-se lá por que, agradava a bem pouca gente. Mas agradava minhas garotas. Era tudo o que me bastava.

Eu e as meninas vivíamos umas nas casas das outras. Literalmente. Eram fins de semana e mais fins de semana que eu ficava sem ver sequer a fuça dos meus pais porque me bandeava pras bicamas e colchões extras da Rá, da Cá e da Fabi. Elas também lá em casa. Meus pais, seguramente, já faziam compra de mês pensando em alimentar mais três bocas em fase de crescimento.

Um crescimento que era mais físico que mental, eu diria. Olhando pras adolescentes de hoje, eu não vejo à mim e às minhas amigas. Nós queríamos ser safas, mas éramos, isso sim, umas bocós. De marca. De marca Pakalolo - mas só quando o dinheiro dava.

A gente fofocava interminavelmente sobre os meninos, sobre as chatinhas da escola, sobre bobagens da TV, escrevíamos cartas umas pras outras, guardávamos em caixas de sapato, traçávamos planos de conhecer a distante Europa, fofocávamos mais sobre os meninos. E endeusávamos nossas irmãs. Não que elas ou nós tivéssemos conhecimento disso, lógico, porque, 'no papel', todas odiávamos as nossas irmãs. Eram todas mais velhas. Credo.

A irmã da Raquel era a destemida, sempre a bordo de um Passat branco meio marretado mas muito interessante aos nossos olhos de gente que ia a pé. A irmã da Caren era a internacional, sabida, intercambista, nosso sonho de consumo em experiência de vida. A irmã da Fabi era a inteligente, uma crânio de dar raiva e ainda amiga de todo mundo que importava naquela cidade e na cidade vizinha (o A e o B do ABC). E a minha irmã era... bicho, em 1990, a minha irmã já era casada e tinha uma filha. Como competir com aquilo? Minha irmã, e as outras, eram gente grande. Não tinha pra nós.

Mesmo não admitindo, a gente tinha um olho na nossa vida colegial muito louca da pesada e outro olho naquelas garotas espertas e cheias das manhas - e das roupas bonitas. Sim, porque as irmãs mais velhas têm esse dom: elas têm as roupas da moda, elas ganham seu dinheiro, elas arranjam namorados que dirigem, elas berram com as nossas mães de um jeito que dá vergonha, mas que a gente adoraria ter coragem de berrar.

As nossas irmãs mais velhas achavam a gente bem pirralha, eu acho. Porque elas estavam ali, ganhando a vida ou prestando vestibular ou se formando ou conhecendo a Ásia, a Oceania e todo o exército amarelo e a gente estava... bom, sentadas na calçada bebendo (escondidas) batida de amendoim ou datilografando trabalho sobre embriologia. E a gente nem tinha internet pra perder horas online e fazer de conta que éramos bem lançadas!

Nossas irmãs nos ensinaram coisas que elas nem imaginam, eu tenho certeza que as meninas concordariam comigo. Elas abriram caminhos nunca dantes navegados pra gente poder ser um bando de folgadas que, aos 16, já saiam à noite usando shorts com meia-calça se achando gente. Não fossem elas brigarem por horários, por privacidade e pelo direito de usar gel com glitter e saia curta, a gente não teria tido qualquer chance.

Hoje eu vejo pouco a Caren e a Fabiane, infelizmente. E, pior ainda, não vejo mais a Raquel. As irmãs delas, então, eu vejo é nada - mas sei de notícias, sei que continuam rolos-compressores de sabedoria e mão-na-massa e que vivem felizes suas vidas de adultas. As adultas que sempre foram nas nossas mentes e que a gente nunca vai conseguir imitar por completo.

segunda-feira, 5 de março de 2012

1 livro + 1 série - 1 vergonha

Posso nem dizer que fico avexada de falar sobre esses gostos porque, ah, a vida é muito curta pra vergonhas.

1 livro
Eu fiquei sabendo que havia um filme, achei bonitinho. Mas soube que era baseado em um livro, o que me interessou mais. Porque o Matt Damon é um lindo e tals, mas é sempre bom conhecer a história pela boca de quem contou primeiro.

"Compramos um Zoológico" grudou como bala toffee na minha cabeça. Foi o título catchy, eu confesso: quem, por favor, compra um zoológico? Eu nem sabia que zoológicos estavam à venda - achei que era coisa de prefeitura ter zoológico. Coisa pública. Não é não. Bom, eu não sei como funciona no Brasil, mas agora sei tudo sobre comprar e administrar um zôo na Inglaterra.

Sim, porque o filme com o Matt Damon, me contaram, passa nos Estados Unidos. Eu acho que Hollywood compra direitos das histórias dos outros e, na preguiça de gravar além-mar com atores que falam inglês mais bonito, transformam tudo em "coisa nossa". Enfim, o verdadeiro Benjamin Mee, autor de "Compramos um Zoológico", é um inglês figura que faz de tudo. Formado em jornalismo e psicologia, é perito em trabalhos manuais, escreveu um livro sobre o humor dos animais, vendeu um apê em Londres e foi viver na França com a esposa e os dois filhos, Ella e Milo.

Daí um dia a irmã maluca desse maluco enviou a ele um prospecto falando sobre a venda de um zoológico particular em Dartmoor, lá na área mais chuvarenta da Inglaterra. A mãe maluca do maluco estava disposta a vender sua casona e mudar, junto com dois dos filhos malucos, pro zoológico. Ben topa e vai na fé - mesmo com jaulas de tigres inseguras, leões precisando de dentista, lobos desembestados, um porco-espinho furioso, um clima maldito, uma esposa com câncer, contas altíssimas.

A história do livro me pegou, eu confesso. A ousadia dessa gente de virar a mesa e começar de novo em um negócio familiar completamente fora de propósito me pegou. Eu curto essas loucuras. Eu li e quis comprar um zoológico e sair da mesmice e ir viver uma coisa diferente. Eu consertaria cercas e reformaria o restaurante e cuidaria da anta e dos pavôes com a família Mee. Tenho nem vergonha de dizer.

1 série
No princípio, era apenas "The Big Bang Theory", um seriado fdp de engraçado que me fazia ficar com um sorriso estampado por horas só de lembrar daqueles diálogos. E aí num dia, ao dar mamadeira pra Olívia e não poder soltá-la pra alcançar o controle remoto, fui obrigada a ver aquela série que vinha depois da minha. Uma tal de "2 Broke Girls".

Achei que mais uma série era demais no meu currículo, queria nem começar a acompanhar mais nada (mas vale informar que caí nessa e em "Alcatraz" também porque, né, "Lost" não foi suficiente pra me deixar aborrecida). Mas comecei.

Acontece que eram duas meninas, as protagonistas. Já gostei. E não é que era engraçadinha a premissa da socialite falida virar colega de emprego e de quarto de uma garçonete demente e boca-suja de Williamsburg? Ah, os diálogos eram bons. Nossa, as referências eram hilárias. Pronto, elas me ganharam.

Muito se fala de não haver, depois de "Friends", nenhuma série para trintões. Bom, eu não concordo. Simplesmente porque nós, trintões de hoje, somos imaturos demais, acho. E a gente se contenta com séries pra gente de 20 e poucos que sejam genuinamente divertidas. Essa é. "2 Broke Girls" é engraçada por ser a mescla da garota que a gente é com a que a gente queria ser. Ou porque é como as amigas de verdade se tratam em qualquer cenário financeiro. Ou só é engraçada porque é mesmo. Ora, não me pressione. Eu já disse que não tenho mais tempo pra vergonhas.

Max e Caroline


Os Mee