Achava absolutamente ridículo imaginar viajar sem a minha criança. Achava estúpido quando me diziam que já estava bom ter cuidado dela por um ano e meio até mandar na escola e devia voltar a trabalhar fora. Achava uma cretinice aquela coisa que outras mães diziam sobre "precisar de um tempo só com o marido". Hoje eu acho que cada um pensa o que quiser - e mudei só alguns pontinhos.
Bom, ainda acho incrivelmente estranho não estar perto da Sabrina e da Olívia, que chegou pra botar mais malas no bagageiro do avião e afazeres na "to-do-list" diária. Mas confesso que canso mais rápido e às vezes peço arrego. Sou eu quem faz a comida, dá a comida, dá comida no sentido de bronca mesmo. Sou eu quem levo, busco e canto junto no caminho. Sou eu quem veste, banha, acarinha, ajuda na lição, discute sobre a moral de "Esqueceram de Mim" no que concerne à atuação da família na formação de caráter. Sou eu quem está pro que der e vier - contando só com a ajuda providencial do Dono da Casa, mais ninguém. Estar sem crianças por perto é esquisito.
Mas, depois de 7 anos amando essa dinâmica, esse ano eu descobri a beleza de passar cinco dias longe de tudo isso. Ganhei de presente do Dono da Casa uma passagem para encontrar minha amada amiga no estrangeiro - e passei quase uma semana batendo perna e papo. Foi uma DOIDEIRA.
Nos dois primeiros dias eu, por várias vezes, batia a mão nas cadeiras procurando chaves, carteira ou sacolas imaginárias - pra depois sacar que eu não tinha esquecido nada disso, eu tinha é crianças a menos pra cuidar. No almoço ou jantar, era o sentimento mais maluco não precisar levar ninguém ao banheiro ou fazer colheradas de comida ou desenhar no jogo americano. Éramos só eu, minha amiga, os quitutes e quantos minutos eu quisesse apreciando o cheiro do café.
Isso foi de uma importância pra minha organização mental difícil de descrever. Mas eu tento: eu estava ficando louca e esgotada e os dias de folga vieram a permitir que eu não me jogasse da janela ou mordesse um transeunte na rua. Eu curti sem culpa alguma e voltei nova pra ser uma mãe melhor.
Quando outros caras casados souberam do que o Dono da Casa me proporcionou com seu plano de milhas aéreas, acho que ele quase virou alvo de atentado. De novo, metade achou que a gente estivesse se separando e a outra metade achou que ele fez isso pra compensar alguma bela merda que tinha feito comigo. Não foi. Ele fez por amor. E eu aceitei por amor também.
O caso é que, deixar um pouco esse palco e ir ali ser só eu mesma, não a mãe, a jornalista, a motorista, a cozinheira, a equilibrista e a mulher barbada do circo (quem tem tempo pra estética?), foi bom pra todos nós. Em muitas casas as coisas são até divididas mais igualmente, com pais e mães meiando as tarefas, mas sendo eu quem fica mais em casa, natural que me sobrem mais atividades. Assim, eu estar na total posse das minhas faculdades mentais é importante pra todos aqui. Como muitas mamães precisam. "Happy wife, happy life", é o que seu sempre digo...
Algumas amigas quiseram saber como foi isso e se "Dono da Casa deu conta". Ele deu conta - ele é um adulto saudável e inteligente, com dois braços e duas pernas e amado pelas filhas, como poderia dar alguma coisa errada? Elas queriam é saber mesmo, eu acho, se funcionaria pra elas. E se a vontade e a coragem vierem, eu sugiro que todas tentem. Eu acho até que as agências de turismo estão perdendo tempo ao não criar um produto específico para mães. Pode chamar até "Mães em Férias da Porra da Rotina".
Podiam criar esse pacote de cinco dias em cidades encantadoras, cheias de museus e restaurantes onde a gente come o que quiser e não o que precisa dividir com os filhos, e curte umas profundas respiradas e um tempo pra ler no parque ou uma noite toda dormindo em "X" na cama do hotel glamouroso. Ou que seja numa barraca no mato, nem importa.
O que importa mesmo é entender que, sim, as pessoas que são as maiores responsáveis pela logística da família merecem e precisam de um tempo de vez em quando. Precisam recuperar um tempo pra si - pra pensar, pra refletir, pra fazer nada ou só pra tomar um banho completo sem gente invadindo o banheiro berrando "manhêêê, cadê o meu coisinho?".
Eu fui, vi e fiquei bem, assim como todo o meu pessoal. Quem quiser entrar nesse bonde tem o meu apoio e o meu apreço. É uma mudança valorosa para um dia a dia alegre, mas complexo, e uma boa chance de ignorar o que todo mundo acha e ir ficar contente e dominar a própria vida por uns poucos dias. Na volta, contem-me tudo!
Mamãe vai ali e já vem




