sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Sei nem porque é que faz

Vou dizer, é bem longa a lista de coisas que sabe-se lá por que alguém perde tempo precioso fazendo. Como por exemplo:

- Sala de ginástica em edifícios é um uso bem paspalho de espaço. Quantos vão naquele lugarejo queimar umas bordas recheadas? E quantos vão por mais de uma semana? E quem vai por mais de uma semana por prazer? Pessoal do ramo imobiliário que quiser ser mais sensato, favor instalar uma pizzaria ou sanduicheria com delivery para todos os andares do prédio por elevador de comida que desemboca na sala. Sucesso.

- Desfile das escolas de samba campeãs parece reprise - e não necessariamente dos filmes favoritos. Porque, né, quem chega ao sábado posterior ao carnaval com o mesmo pique e a fantasia intacta? O que se vê é um monte de moleque com chapéu capenga, roupa com lantejoulas de menos e pulando com um certo cansaço no corpo. E quem, por favor, assiste? Só as mães desses moleques.

- Esfira de verdura é outro atentado contra o senso. Sei nem por que fazer uma esfira que não vai carninha temperada ou queijinho derretido ou mesmo uma calabresa condimentada. Esfira de verdura deve ter sido inventada por uma mãe árabe que não se conformava de o Abdulzinho torcer o nariz pros vegetais.

- Outro item completamente dispensável é brinquedo para crianças menores de 1 ano. Falando sério: custam caro e fazem sons discutíveis em volume alto demais. Isso tudo numa fase em que o pivete só quer mesmo é brincar com a caixa, com o papel de presente amassado e morder e tentar o suicídio com aqueles arames de prender a coisa toda. Esqueçam tudo isso: dêem uma caixa de supermercado e dois rolos de papel-toalha naquelas maõzinhas gordinhas e vejam a felicidade genuína.

- O sinal de alerta é obrigatório nos veículos comercializados no país mas, bem, nos carros dos cidadãos com mais de 65 anos eles podiam ser removidos. Tiozinho não usa mesmo.

- Semana passada ouvi no rádio a notícia de que os bondes do bairro de Santa Tereza, no Rio de Janeiro, voltarão a operar depois de toda a reforma pela qual carros e trilhos passaram (depois daqueles absurdos acidentes com vítimas que marcaram 2011). E agora, dizia entusiasmada a repórter, os bondes circularão por 10 km, não mais 7 km! E agora as pessoas só poderão andar sentadas e pelo lado de dentro, não mais em pé ou segurando nos apoios pelo lado de fora! Sei... e pra que bonde, então, se a gente só vai mesmo é cumprir trajeto sentado como numa aborrecida van Penha-Lapa? Hã?

- Por fim, eu não sei nem por que é que a Academia de Cinema de Hollywood perde seu tempo indicando e premiando Woody Allen. Perceberam que ele não curte, não liga, brigado, tenho nojo? Então.

Ganhei um Oscar? Iupi.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Considerações sobre um Carnaval televisivo

Não que eu tenha ficado tão sem programa que passei os dias de Momo ali, grudada na telinha. Pra dizer a verdade, vi pouco. Porque rolava uma folia ali mesmo no gramado do sítio do vovô, muito legal e familiar, com serpentina jogada no telhado, água pelos ares e confete grudando na boca - e porque, bem, Carnaval pela TV é algo tão batido, né?

Parece, por exemplo, que se a escola não faz um carro alegórico de índio, um anjinho carnavalesco perde as asas. Todo ano tá lá a alegoria de índio - seja no enredo sobre as navegaçoes, sobre a morte, sobre Marte, sobre o vento que bate nos coqueiros na bela Pariquera-Açu nos dias de verão. Tinha um enredo sobre Londres esse ano, né? Pode procurar, devia ter um carro de índio ali.

E, se não tem índio, pelo menos tem um cabeção. Aja criatividade, nossa... Todo ano, toca bolar um carro com cabeção. Cabeção careca com boca nervosa, cabeção cabeludo black-power, cabeção de Medusa (esse ano tinham dois!), cabeção de ET, cabeção de elefante, águia, boi, carpa, cabeção de índio, lógico, ou uma ilustre personalidade morta da nossa cultura popular. Acho que as casas de artigos de arte que vendem para os carnavalescos já disponibilizam até uns cabeções de isopor prontos hoje em dia. Tem lá a gôndola das penas, a gôndola do brocado, a gôndola das fitas e o armazém com centenas de cabeções esperando comprador.

Carnaval pela TV mostra ainda uma obviedade: repórter que está mal com a diretoria de jornalismo de sua empresa. Porque, ô desprestígio ser colocado ali, pleno carnaval, pra perguntar um monte de groselha pra gente que não está escutando nada e responde qualquer asneira pra não desconcentrar. Ou vai ver é o contrário: repórter ganha a incumbência de cobrir Carnaval com a promessa de, assim que houver vaga, virar correspondente no estrangeiro. Sua um bocado aqui mas depois vai lá fazer matéria a cada 18 dias em Portugal! Negocião, meu rei.

Pior que emprego de repórter de Carnaval, só emprego de empurrador de carro alegórico. Acho inacreditável que ainda achem gente bacana e desapegada suficiente pra, em vez de brincar a avenida, ficar ali na lida. E olha, tem agravantes: chega na hora H, tem carro que não faz a curva e fica de fora da festa! Não entra na fila, estava fora das medidas ou quebrou uma torre qualquer! Te contar, um ano pra fazer o negócio e sujeito sequer foi lá tirar as medidas de largura e altura pra passar o carro? Gênio, hein? Faz um enredo pra ele no ano que vem.

E aí fica sem graça, todo um trabalhão perdido e as moças que estavam encarrapitadas no carro são obrigadas a desfilar no chão. E, faz favor, quem bota sandália de cabrocha e roupa mínima adora a passarela, mas quem está usando toda uma fantasia cara cheia de luxo e originalidade (not), não quer descer do salto. Até porque, gente de carro samba é nada, vá. Só sabe fazer aquele remelexo embaraçoso de quem tem muito dinheiro pra bancar a exposição, mas não tem tempo de fazer aula com Carlinhos de Jesus.

Mas aí a coisa dá errado, a TV mostra... e a gente fica aqui, no camarote mais cômodo do país, só descendo a lenha. Programão, dididididi!

Até o ano que vem, cabeção indígena!

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Deu na TV aberta

Só capto uns flashes desse Big Brother porque, né, quem tem tempo de ficar espiando a vida alheia com a nossa própria dando pinta? Mas pelo que pude ver... Bom, eu tenho uma sugestão para a próxima prova do líder: dividir o lindo gramado da "casa" e colocar cada participante de quatro em sua área pré-determinada; quem pastar o quadrante primeiro, é o novo líder! Porque eu vou dizer, ô que amostragem de gente burra naquele lugar. Vai daí, Bial.

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Entendo nada de direito e bem pouco dos rigores da lei, eu admito. Mas quando dizem que o rapaz de 21 anos matou a menina de 15 e isso foi crime passional, eu penso "naonde?". Crime passional devia valer só pra quem protege pai, mãe e filhos. Não tem paixão e muito menos amor que se ligue diretamente com homicídio entre crianças.

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Por que a Ilse Scamparini, a correspondente da Globo na Itália, vive com aquela fachada de viúva, hein? Pessoa mora na Bota, deve ganhar bem, só trabalha quando o Papa morre ou quando o navio com 4.500 afunda (e, diga-se, dá ambas as notícias com o mesmo tom e semblante, assim como ao falar dos vinhedos, tomates e mussarelas pro Globo Repórter). Ilse, animação, sim? Grata, ragazza.

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Não sei como a Record ficou de fora da greve da Polícia Militar que se espalhou pelo país. Pra mim que a rede, sem polícia na rua virando pauta pros jornais da noite, da manhã e pro Carrossel Animado, fecha as portas. Deviam todos lá cruzar os braços e exigir a volta da notícia, digo, da polícia.

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Essa novela das 21h não tem Zé Mayer como galã, e sim como Náufrago? Que avanço, Vênus Platinada, uhu!

Ou Pé Grande. Ou o Rollo da Tina. Ou um Ewok. Tudo menos galã

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Por Henrietta

Não sei bem por que isso acontece - talvez uma boa fuga da rotina - mas eu tenho a mania (a dádiva? o desvio?) de me envolver doidamente com filmes e livros. Com os livros é pior até, por que os filmes acabam lá em duas horas e em mais duas eu já pensei muito sobre eles e é seguir vivendo. Mas os livros... Eles ficam a martelar na minha cabeça por dias, semanas, meses. Foi o caso da história impressa de Henrietta Lacks. Eu não esqueço mais da Henrietta, penso nela dia sim, dia não.

Quem me presenteou com "The Immortal Life of Henrietta Lacks" foi a minha querida Vivi. Na última visita dela em terras brasileiras, Vivi veio com um livro debaixo do braço, me entregou e disse: "foi o melhor livro que eu já li na vida". Ô, como eu desconfiei daquilo... Primeiro porque a Vivi é tão leitora que, cacete, como esse poderia ser, dentre centenas, o melhor que ela leu? Não sei se ela mantém a frase; eu mantenho. O melhor livro que já li.

Em primeiro lugar porque, até por ser jornalista, livros-reportagem são meus favoritos. Segundo porque, durante a leitura, a gente vai notando o nível de comprometimento de Rebecca Skloot, a autora. Ela tem esse nome meio assim, de monitora de acampamento do jardim da infância, mas ó: inacreditável a pesquisa, a dedicação, a perseverança de Rebecca ao contar a história de uma mulher negra, pobre, descendente de escravos, mãe, esposa e doadora involuntária das células que mudaram a minha e a sua vida.

Difícil explicar a situação toda que rendeu esse livro em algumas poucas linhas, em alguns poucos minutos. Para Rebecca Skloot, levou anos e anos e mais de 350 páginas. Eu vou tentar: Henrietta nasceu nos Estados Unidos, viveu com familiares em plantações trabalhando com tabaco e curtindo com os primos uma vidinha feliz. Ela casou com um desses primos, teve cinco filhos e, depois de sofrer penosa e horripilantemente com um câncer cervical, morreu em 1931 - por volta dos 30 anos. Atendida no hospital da famosa e hoje gabaritada Universidade Johns Hopkins, ela passou por tratamentos pra lá de dolorosos e, certa feita, teve amostras de tecido retiradas para pesquisa - num tempo em que (quando foi isso mesmo?) ninguém pedia pra um paciente pobre e negro a permissão dele ou da família para isso.

Bom, acontece que Henrietta, afinal, sucumbiu à doença. Mas as células retiradas do cérvix dela não. As células continuaram a se reproduzir mesmo depois de retiradas do corpo. Hoje sabe-se que isso não é feitiçaria e existem outras células, de outros pacientes, que têm o mesmo poder. Mas nenhuma como as de Henrietta, que carregam todas as características originais e, nas mãos de cientistas do mundo todo, resultaram em milhares de estudos decisivos para a medicina. Como uma coisinha tola aí chamada vacina contra poliomielite.

Acontece que a história toda parece assim uma coisa meio "pra doutor entender", mas não é. Em meio a todas as explicações técnicas, o que surge, isso sim, é a discussão sobre quem é dono do nosso corpo, os direitos e todos os meandros a respeito da ética na saúde e, além e acima de tudo isso, a família de Henrietta. O fato de eles terem sido excluídos da questão por anos, de jamais terem recebido um auxílio sequer vindo dos rendimentos da venda das células, de terem tido suas vidas reviradas, sacudidas e sovadas pela morte de uma mulher que carregava todos.

"A Vida Imortal de Henrietta Lacks", felizmente nas livrarias brasileiras há muitos meses, é imperdível. E impossível não se sentir parte da história e se fazer um milhão de questionamentos pessoais, sociais, psicossociais e sobre a nossa humanidade. É de dar uma porrada na nossa espinha e bagunçar qualquer certeza que a gente tenha? Sim. Por isso mesmo esse é um livro pra ser lido. E vivido, e recordado pra sempre.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Minhas férias

Nós fomos à praia em família e a pousada não ficava perto da praia, ficava ao lado de um riozinho. Toda manhã, depois de um café indecente de tão bom, o Marcel levava a gente no barco pelo riozinho até atracar na areia e nos largar na praia. Comíamos milho cozido cortado com manteiga, bebíamos água de coco aos litros (e umas biritas malvadas também, não vou negar) e fazíamos castelos com e sem túnel subterrâneo - mas os sem túnel tinham graça nenhuma.

Cinco dias na praia, de férias, Dono da Casa, meninas e eu, valeram, como sempre, por uma vida. Aquela água salgada parece ter o dom de nos deixar contentes - e olha que as aulas de surfe ministradas ali na praia ficaram pra uma próxima, o que com certeza vai render as maiores risadas.

Peixe fresco pra comer, sol pra esquentar, uma cama pra cair de noite antes mesmo das 22h, que o vigor muscular para remar a canoa toda tarde e alegrar Sabrina não é mais aquele. Ficamos muito juntos, falamos muita besteira, comemos até um picolé de açaí pavoroso por engano - e eu ainda digo, em minha defesa, que a fruta da embalagem parecia demais uma uva. Tudo o que férias devem ser.

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Sabrina se mandou pro sítio da vó e do vô por uns 10 dias. Eu não sei bem o que aconteceu por lá, mas ela voltou mais cheinha, mais mimada, falando alto e me perguntando absurdos como "Mãe, você assiste a novela 'A Vida da Gente'? É legal!". Mais uns dias e ela começaria a fazer tricô, trocar os nomes das pessoas e achar o Agnaldo Rayol um pão.

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Lica e Sá precisaram ser despachadas pra casa dos parentes uma vez mais, por três dias, pra eu poder acompanhar o Dono da Casa numa viagem da firma. Antigamente eu abominava com bônus essas viagens, achando que ninguém ali tinha picas a ver comigo (como se eu fosse a artista principal) e que era um porre de gim tônica aturar o papo de certos tipos. Faz um tempo que mudei de ideia. Tenho uma sorte dos infernos e, toda vez, conheço alguém adorável que vale horas de papo. Minha nova amiga de infância é a Claudia, a portuguesa mais linda e divertida de todo o continente (o dela e o nosso).

Eu e Claudia ficamos na piscina onde ninguém ficava, papeamos sobre Portugal e sobre o Brasil, comemos lanches bons e refeições ruins, sorvemos com prazer umas caipirinhas, levamos picadas de insetos procurando um orquidário feio e seco, dançamos na festa e nos caçamos com olhares na multidão quando alguém meio chato alugava nossos ouvidos. Não vejo a hora de encontrá-la de novo. E de vir uma nova viagem da firma no ano que vem.

Em tempo: as meninas ficaram muitíssimo bem sem nós, mesmo a pequena, largada pela primeira vez. Parece que nem sentiram falta e acharam até que um bom negócio ficar sem pais por uns dias em troca de presentinhos safados. Em quase sequei por dentro de saudades e tive a impressão onipresente de ter esquecido algo em casa - não chaves ou óculos; talvez filhas. Mas sobrevivemos.

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Quando eu era pequena havia um poderoso highlight pra aplacar a dor do fim de férias: comprar e arrumar o material escolar. Era um tal de adquirir borrachas cheirosas, cadernos e livros estalando de novos e uns extras como caixas de lápis de cor de 24 joias raras. Era uma diversão ímpar passar o plástico sobre todos eles, encapando cada qual pra não estragar e empilhar tudo na mesa pro dia de voltar às aulas. E agora eu sei porque eu amava tanto tudo isso: não era eu a responsável por essa porra.

O material da Sabrina tomou uns 12 dias de apuros. Livros faltando nessa editora e naquela livraria, cadernos muito específicos duros de encontrar mesmo na internet, uma montanha de dinheiro tostada e uma dor lancinante quando a tesoura sem ponta acertou meu polegar.

Pra não falar sobre a hora de encapar a coisa toda com aquele plástico virado no demônio que escorregava e girava e se retorcia. E olha que eu tenho uma certa habilidade manual. Imagino as pobres mães que não a tem. Se bem que Sabrina já contou que a maioria das crianças levou tudo sem encapar. Eu vivo no passado, aparentemente.

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Nessas férias a Olívia andou. Andou e caiu, andou e tombou, andou e ameaçou correr. E correu um pouco. Nasceram mais dois dentes, agora incisivos e superiores, desses bons pra rasgar carninha. Está crescendo como bambu no mato, essa dengosa. E as férias passam rápido demais pra aproveitar isso e todo o resto, não?

Essa não era a nossa praia. Ano que vem, quem sabe?

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

2012/SS

Eu adoro listas de resoluções de fim/começo de ano. Primeiro porque elas são igualmente otimistas e mentirosas - e eu acho hilário prometer perder aqueles sete quilos extras quando, já na virada, estamos lá chafurdando num perfil gostoso. Depois, porque listas são um tratado com a gente mesmo; e tem coisa mais humana e mais bonita que resolver coisas com a gente mesmo?

Não interessa que a resolução seja fogo de palha e passe 365 engavetada. Interessa é resolver, porque pelo menos aquilo vai ficar latejando na cabeça e, ué, vai que acontece?! Não por obra divina, mas por nossa obra mesmo. De tanto mentalizar, a gente acaba se convencendo a fazer. Meio "O Segredo" isso? Não sei, não li "O Segredo"... Olha minha primeira resolução para 2012 aí! 1) Ler livros que se tornaram best-seller mesmo tendo um tema absurdo e que eu avacalho sem ter lido, assim posso falar (mal) com sapiência.

Uma boa resolução de ano novo, porém, na minha opinião, tem nada a ver com essas bobeiras estéticas. Perder aqueles sete quilos mencionados no início? Só se for pela saúde, hein, não pra caber numa calça jeans 38. Até porque, as calças jeans 40, 42, 44 e 46 estão aí pra isso. Emagrecer, melhorar o guarda-roupa, tirar aquela pinta suspeita, passar mais vezes na academia que na padaria - tudo isso só vale se for pelo puro prazer de envergar uma carcaça mais produtiva. Funilaria e pintura sim; SÓ funilaria e pintura não, ok? E aí vem mais uma pra mim: 2) Algum esporte, mulher, qualquer esporte! Vamos, se mexe, acha um jeito e acha um tempo! O estúdio de pilates fica a exatos 35 metros daqui, fazfavor?!

Resolução de ano novo que começa errada por definição também não presta. Não me venha com essa coisa de trocar de carro; venha-me com trocar o carro pela bicicleta, pelo metrô, por patins roxos com cadarços amarelos! Se é pra resolver mudar, muda com gosto. Nada de redecorar a casa e pintar a parede "pérola" com tinta "palha", tá? Esqueçamos que o Brasil é esse reino do "verde, amarelo, azul e bege" na hora de decorar: vamos direto aos vermelhões, ao ocre estiloso, ao azul-caribe e ao roxo-berinjela. 2012 tem que ser mais ousado. Pronta pra determinar aqui a número 3. 3) Dar fim à lista de pendências desse apartamento e fazer sumir aquele banheiro mofado, escuro e relaxado que parece a toca de um roedor. Olááá banheiro que dá gosto!

E sim, eu acho boas essas coisas todas estruturais e práticas, mas cadê sonho, né? Carro, casa, carcaça... Tudo lindo, mas onde ficam nossos anseios, nossos desejos mais sentimentais? Anote, sim: 4) Caribe; 5) EuroDisney; 6) Barcelona; 7) Washington com Boston com Chicago com uma paradinha em Nova York e quiçá uma espiadela ali em Nantucket. Lista de resolução que não inclua uma ou mais viagens deve ser sumariamente inflamada com querosene.

A lista boa, só pra ficar claro, também deve incluir namorados, casamentos, descasamentos, bebês, adoção de bichos (e de bebês, por que não?), reconciliações, pedidos de desculpas por carta, fone ou video, jantares à meia-luz, atividades em grupo, atividades em solitário e toda sorte de barbaridades que a gente achar que vai melhorar nosso astral.

Falei em astral? Bom. Minha oitava resolução tem a ver com ele. 8) SS. Sem Surtar. Neste ano que entra eu tenho a árdua tarefa interna de fazer minha vida sem surtar. Parar com os chiliques por falta de dinheiro e ir ganhá-lo. Deixar de dar pipocos quando alguém fica doente achando que estamos todos condenados à morte (quer dizer, a gente está condenado à morte por definição, mas não precisa ser hoje e devido a um vírus letal desconhecido comedor de carne). Acabar com esses ataques de choro por motivo torpe e com as sapateadas por mazelas nem mesmo comprovadas. SS.

Se em 2012 eu surtar 10% menos, tá valendo. 20%, vai. Lista tem que ser aposta alta. Nada de prometer subir de estagiário pra junior. Mira logo na diretoria! E se acontecer uma gerência, ó que delícia?! Acho que chutar alto e se satisfazer com um pouco a menos é sensato. Arriscar pouquinho e se espantar com o extradiordinário acontece muito menos - porque nós somos humanos e preguiçosos. Deseje muito, queira bastante, curta o qualquer coisa que for conseguido!

2012 vem aí e eu resolvo abraçá-lo de corpo, alma e malas prontas. Você também?

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Um muro de enorme distância

Outro dia uma conhecida convidou para visitar a casa dela. Lindo prédio, maravilhoso apartamento, daqueles com mil cômodos, salões coletivos de tudo quanto é coisa, quadras, piscinas, pistas de caminhada... devia ter até um portal mágico pro paraíso, mas esse eu não vi. Lá pelo meio do já manjado "tour-pela-casa-nova-não-repara-a-bagunça", a moça me diz assim: "é uma delícia aqui. São dois por andar, mas as entradas são independentes e eu nem vejo quem mora ali ao lado".

Ela não disse por mal, claro. É uma ótima pessoa, muito gentil e generosa. Ela só quis dizer que a privacidade do lugar era mesmo um espetáculo. Eu até aceito que muito adorem isso, essa separação de entradas, paredes desconectadas, muros altos e a chance de jamais saber que cara tem o vizinho. Aceito, mas não entendo bem.

Pra maioria de nós, o vizinho é o humano não-família mais próximo que existe. O núcleo familiar de fato fica ali, dentro da residência, mas o restante dos parentes mora em outras ruas, bairros, cidades e até estados e países. Eu, por exemplo, estou a 33km em linha reta ou 1h20 de tráfego intenso da casa da minha mãe. Se me faltar um ovo pro bolo já batido ou se me dá um troço nas costas, adianta nada ligar lá pra santa mãe, viu... Até ela checar, o bolo já desandou e o travamento ortopédico pode me deixar pra sempre com a postura do Quasímodo.

A pessoa mais próxima, aqui ao lado, é o Marcelo. Marcelo é meu vizinho de porta, é artista famoso, toca muitos instrumentos e reclama bastante das portas que o povo do prédio deixam abertas. Marcelo também viaja muito se apresentando, então não contamos um com o outro pra coisas práticas. Mas sempre batemos um papo sobre música, sobre o Rio de Janeiro, sobre o calor/frio horrendo que vem fazendo.

Saber que cara o Marcelo tem, como o cabelo dele fica zoneado de manhã (ó, eu só sei porque às vezes nos vemos quando eu vou tirar o lixo, hein?!) ou o que ele acha das UPPs não compromete em nada a minha privacidade. Eu sei algo dele, ele sabe algo de mim e, precisando, temos os telefones um do outro - pra caso de "Flávia, seu apartamento virou uma bola de fogo!", quem sabe.

Além do Marcelo tem a Dona Lucy, que mora aqui abaixo e já recebeu muita encomenda pra mim (e eu pra ela). Tem a Flávia, que divide o apê com a Juliana, e são duas meninas fofas e que recebem amigos bonzinhos que não fazem farra. Tem a Isabel, seu marido e seus três cãezinhos no térreo, vizinha de porta com a Rosinha e o Jefferson, dois figuras de marca que às vezes queimam o almoço de domingo por estarem ligados no futebol.

Eu sei algo dos meus vizinhos, de seus hábitos, de seus gostos e suas vidas no geral. Não precisamos ver uns aos outros de pijama - mas já até aconteceu. Não é questão de um se meter na vida do outro ou invadir espaço, mas somos uma coletividade, não tem como negar.

Eu sei qual TV a cabo eles assinam, qual banco utilizam e onde compram roupas - tudo pela mesa de correspondência. Sei algumas músicas que escutam, sei uns paus que rolam quando brigam, sei que carro dirigem (e como estacionam mal na garagem, putz...). Saber tudo isso, saber os rostos deles e estar aqui caso dê uma grande merda faz parte de sermos uma comunidade. Eu acho bom isso.

Antigamente algumas pessoas viviam em vilas e partilhavam tanto xícaras de açúcar quanto a hora de olhar as crianças brincando na rua. Todo mundo estava ali pra todo mundo, as casas mantinham portas abertas e janelas boas pra apoiar o cotovelo e trocar uma ideia. Hoje quase não se trocam mais ideias. E se o vizinho de condomínio toca a campainha pra pedir um sonrisal, já é motivo pra pânico.

Uma besteira isso. Nós, pessoas, dependemos umas das outras. E se existem pessoas que podem acompanhar nossa rotina de perto nas horas boas e ruins - e ainda regar nossas plantas e evitar que elas virem pó seco -, são os vizinhos. Quando dá um xabu federal, por exemplo, é importante a gente saber quem mora ao lado. Por exemplo: há um ano aquele rapaz que está com prisão decretada por ser suspeito principal de mandar matar a ex-namorada, a advogada Mércia Nakashima, está foragido. Foragido onde, eu me pergunto. Em Atlântida?

Onde quer que esse sujeito esteja, ele tem vizinhos. Ele precisa receber comida, roupas, ajuda. Alguém poderia olhar pra casa ao lado e notar o homem, por favor?

Meninos e meninas são sequestrados e passam ANOS na casa ao lado - e quando a polícia finalmente se toca, os vizinhos vêm com aquele "nossa, eu nunca reparei". Não se trata, de novo, de bisbilhotice. Se trata de interesse pelo outro e por nós mesmos.

Custa nada, quando chega um vizinho novo, ir lá levar um bolinho, uma violeta. É o convite pra uma relação ótima, seja o vizinho aqueles que flutuam pela casa quietos como a brisa, seja o vizinho baterista do Korn. Formar uma boa relação, próxima e sadia, é bom até pra isso: pra ter a liberdade de ligar lá em cima um dia e dizer "Temístocles, abaixa essa merda de rádio que eu não aguento mais a Ivete Sangalo cantando dentro em minha mente? Brigada, lindo, te adoro!".

A palavra vizinho vem do latim vicinus e quer dizer "que vive perto" ou "próximo". Eu sou a favor de sempre conhecer o próximo.

Tem gente que era fã de Friends, mas não reconhece
a fuça do próprio vizinho