terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Um muro de enorme distância

Outro dia uma conhecida convidou para visitar a casa dela. Lindo prédio, maravilhoso apartamento, daqueles com mil cômodos, salões coletivos de tudo quanto é coisa, quadras, piscinas, pistas de caminhada... devia ter até um portal mágico pro paraíso, mas esse eu não vi. Lá pelo meio do já manjado "tour-pela-casa-nova-não-repara-a-bagunça", a moça me diz assim: "é uma delícia aqui. São dois por andar, mas as entradas são independentes e eu nem vejo quem mora ali ao lado".

Ela não disse por mal, claro. É uma ótima pessoa, muito gentil e generosa. Ela só quis dizer que a privacidade do lugar era mesmo um espetáculo. Eu até aceito que muito adorem isso, essa separação de entradas, paredes desconectadas, muros altos e a chance de jamais saber que cara tem o vizinho. Aceito, mas não entendo bem.

Pra maioria de nós, o vizinho é o humano não-família mais próximo que existe. O núcleo familiar de fato fica ali, dentro da residência, mas o restante dos parentes mora em outras ruas, bairros, cidades e até estados e países. Eu, por exemplo, estou a 33km em linha reta ou 1h20 de tráfego intenso da casa da minha mãe. Se me faltar um ovo pro bolo já batido ou se me dá um troço nas costas, adianta nada ligar lá pra santa mãe, viu... Até ela checar, o bolo já desandou e o travamento ortopédico pode me deixar pra sempre com a postura do Quasímodo.

A pessoa mais próxima, aqui ao lado, é o Marcelo. Marcelo é meu vizinho de porta, é artista famoso, toca muitos instrumentos e reclama bastante das portas que o povo do prédio deixam abertas. Marcelo também viaja muito se apresentando, então não contamos um com o outro pra coisas práticas. Mas sempre batemos um papo sobre música, sobre o Rio de Janeiro, sobre o calor/frio horrendo que vem fazendo.

Saber que cara o Marcelo tem, como o cabelo dele fica zoneado de manhã (ó, eu só sei porque às vezes nos vemos quando eu vou tirar o lixo, hein?!) ou o que ele acha das UPPs não compromete em nada a minha privacidade. Eu sei algo dele, ele sabe algo de mim e, precisando, temos os telefones um do outro - pra caso de "Flávia, seu apartamento virou uma bola de fogo!", quem sabe.

Além do Marcelo tem a Dona Lucy, que mora aqui abaixo e já recebeu muita encomenda pra mim (e eu pra ela). Tem a Flávia, que divide o apê com a Juliana, e são duas meninas fofas e que recebem amigos bonzinhos que não fazem farra. Tem a Isabel, seu marido e seus três cãezinhos no térreo, vizinha de porta com a Rosinha e o Jefferson, dois figuras de marca que às vezes queimam o almoço de domingo por estarem ligados no futebol.

Eu sei algo dos meus vizinhos, de seus hábitos, de seus gostos e suas vidas no geral. Não precisamos ver uns aos outros de pijama - mas já até aconteceu. Não é questão de um se meter na vida do outro ou invadir espaço, mas somos uma coletividade, não tem como negar.

Eu sei qual TV a cabo eles assinam, qual banco utilizam e onde compram roupas - tudo pela mesa de correspondência. Sei algumas músicas que escutam, sei uns paus que rolam quando brigam, sei que carro dirigem (e como estacionam mal na garagem, putz...). Saber tudo isso, saber os rostos deles e estar aqui caso dê uma grande merda faz parte de sermos uma comunidade. Eu acho bom isso.

Antigamente algumas pessoas viviam em vilas e partilhavam tanto xícaras de açúcar quanto a hora de olhar as crianças brincando na rua. Todo mundo estava ali pra todo mundo, as casas mantinham portas abertas e janelas boas pra apoiar o cotovelo e trocar uma ideia. Hoje quase não se trocam mais ideias. E se o vizinho de condomínio toca a campainha pra pedir um sonrisal, já é motivo pra pânico.

Uma besteira isso. Nós, pessoas, dependemos umas das outras. E se existem pessoas que podem acompanhar nossa rotina de perto nas horas boas e ruins - e ainda regar nossas plantas e evitar que elas virem pó seco -, são os vizinhos. Quando dá um xabu federal, por exemplo, é importante a gente saber quem mora ao lado. Por exemplo: há um ano aquele rapaz que está com prisão decretada por ser suspeito principal de mandar matar a ex-namorada, a advogada Mércia Nakashima, está foragido. Foragido onde, eu me pergunto. Em Atlântida?

Onde quer que esse sujeito esteja, ele tem vizinhos. Ele precisa receber comida, roupas, ajuda. Alguém poderia olhar pra casa ao lado e notar o homem, por favor?

Meninos e meninas são sequestrados e passam ANOS na casa ao lado - e quando a polícia finalmente se toca, os vizinhos vêm com aquele "nossa, eu nunca reparei". Não se trata, de novo, de bisbilhotice. Se trata de interesse pelo outro e por nós mesmos.

Custa nada, quando chega um vizinho novo, ir lá levar um bolinho, uma violeta. É o convite pra uma relação ótima, seja o vizinho aqueles que flutuam pela casa quietos como a brisa, seja o vizinho baterista do Korn. Formar uma boa relação, próxima e sadia, é bom até pra isso: pra ter a liberdade de ligar lá em cima um dia e dizer "Temístocles, abaixa essa merda de rádio que eu não aguento mais a Ivete Sangalo cantando dentro em minha mente? Brigada, lindo, te adoro!".

A palavra vizinho vem do latim vicinus e quer dizer "que vive perto" ou "próximo". Eu sou a favor de sempre conhecer o próximo.

Tem gente que era fã de Friends, mas não reconhece
a fuça do próprio vizinho

7 comentários:

Nanael Soubaim disse...

Vivemos em uma época de extremo individualismo, Mamma Flávia. As pessoas acostumaram-se a acreditar que "Posso ajudar?" é o mesmo que "Agora eu tomo conta da tua vida". Nada é da conta de ninguém, cada um por si e todos contra todos, entre outros refrões que eu só via em filmes apocalipticos dos anos oitenta.

Saudades de quando eu tinha o que se podia chamar de Vizinhos

Paulinha disse...

Ai que invejinha boa de vc ter vizinhos, Flavia.
Eu só tenho de vizinhos um casal de velhinhos que moram um cadim longinho de mim.
Mas... quem manda querer morar no Centro né? Só tenho vizinhos e movimento, dia de semana até as 22h rsrsrs
Tem horas que é bom,mas tem horas quem um vizinho faz uma faaaalta!
Muito bom esse post viu? Mostrar o quão bom é ser humano.
Bjks estaladas pra ti e seus vizinhos!

Sara disse...

Meus primeiros vizinhos foram de fato uma família, que até hoje chamo de vó, tio, prima. Nós morávamos num desses prédios pequenos, e fazíamos festas, ceias de natal, tudo juntos. Depois de algumas mudanças e alguns vizinhos fofoqueiros, sem educação e que nem olham pra sua cara depois, a única coisa que me vem à mente é que "não se fazem mais vizinhos como antigamente". E provavelmente eu tenha mudado também, porque apesar de sorrir, falar bom dia, boa tarde, boa noite, eu prefiro mesmo não "conhecer" os vizinhos (não que eu tenha orgulho de falar isso...).
PS: Você é vizinha do Marcelo Camelo??? rsrsrs

Marcelo disse...

Eu moro em casa e no subúrbio, esse onde o clima de vizinhança do Chaves ainda subsiste. Tem o Seu Rubens, mecânico que quebrava galhos já pra minha finada vovó e continua uma mão na roda pros que ficaram. A Dona Elza, em cujo quintal eu costumava catar goiabas quando era pequeno. E por aí afora...

By the way, gostaria de conhecer esse meu xará Marcelo. Cada vez tenho mais orgulho do meu nome, que nunca vi batizando gente que não prestasse.

Ana Luísa disse...

Que lindo esse texto, Flávia! Eu também sou super a favor de conhecer/poder contar com os vizinhos! Quando a gente morava em Vitória, mamãe era super amiga da vizinha de cima, e uma sempre quebrando galho da outra.. No prédio de São Paulo, tinham várias também, até aquela que se mudou para um prédio na rua transversal, mas continuou sendo vizinha de prédio no espírito. Isso sem falar na vizinha de porta, que casou, mudou pra lá, e logo chegou um bebê, e depois o outro, e eles começaram a crescer, e de vez em quando deixávamos as portas abertas só para eles aparecerem engatinhantes e lindos no meio da minha sala! Ah, que delícia..
Aqui em Curitiba o povo é mais fechado. No meu prédio de São Paulo eram 80 apartamentos, e a coisa mais difícil era eu topar com alguém que não conhecia. Altas conversas gostosas de elevador, piscina..
Meu prédio de Curitiba, se não me engano, tem míseros 14 apartamentos, e se eu sei o nome de 5 pessoas é muito. Meu vizinho de porta é um velhinho, mas não dos fofos. Do tipo que fuma no corredor e no elevador. Minha vizinha de cima sim, é fofa. O marido dela também é mega fofo, eles tem uma filhinha de quase 2 anos que ainda estava na barriga quando me mudei. E eles me chamaram 128398 vezes para ir lá conhecer a menina, mas sempre que eu tentava ir, eles não estavam em casa.. e a gente continua se topando no elevador. Quando a menina fez um ano eles vieram trazer o convite! Não pudemos ir, mas levamos um ursão de presente, e assim a gente se gosta, e eu sei onde tocar se precisar de um pacote de farinha.. mas sinto muita, muita falta dos meus vizinhos de São Paulo!
Desculpa o comentário gigante, mas sabe quando você toca num assunto que a pessoa tá precisando falar sobre? hehe.
Beijos!

Denize Barros disse...

eu queria muito ser tua vizinha. pronto.

mihuda disse...

eu ai comentar aqui, mas ficou tão grande que achei melhor responder com um texto no meu blog, uma atualização do que escrevi aqui: Vizinhos - O Início, Vizinhos - Parte 2,
Vizinhos - Parte 3 e Vizinhos - O Fim :)