sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Cut the crap

Teve um tempo em que eu acordava já afobada. Saltava da cama como uma Daiane dos Santos em boa fase, estrelando pela casa para arrumar bagunças, varrer chão, guardar pratos, caçar roupas perdidas. Daí corria cuidar da criança, daí corria mandar uns e-mails, daí corria no mercado, daí corria fazer meia dúzia de telefonemas, daí corria escrever um texto, daí corria... Olha, era muita correria. Ao meio-dia, eu já estava querendo colocar pijama e ir dormir de novo, tamanho o cansaço.

E vocês sabem o que acontece com quem pira assim e fica nesse bagaço, né? Xinga, chora, reclama, torna-se um porre de gim tônica em baile de carnaval. Ou seja: teve um tempo em que eu fazia coisas demais e depois ficava uma chata, culpando o mundo. Mas não era culpa do mundo.

Fui eu quem quis não ter empregada nem babá nem nada semelhante. Fui eu quem quis voltar a costurar, estudar francês, ter um site, trabalhar por conta, cuidar da Sabrina - e, com tudo isso, ainda queria ser aquela amiga sempre a postos, aquela pessoa com quem se pode contar a qualquer hora do dia ou da noite pra conversar, passear, almoçar, jantar, farrear e que sempre, sempre dizia "claro que eu faço, pra ontem!".

Percebi, com muito custo, que entrevistar pessoas no telefone enquanto virava a omelete e entreteninha a bebê no carrinho não dava certo. A pessoa ao telefone me irritava; a omelete ressecava; a criança notava. Tudo acabava saindo, mas saía meia-boca - o que me deixava ainda mais frustrada, cansada e nervosa. Caiu a ficha de que era preciso cortar. Cortar, cortar, cortar! Palavra de ordem: cortar.

Cortei as obrigações que eram idiotas e não levavam a nada. Cortei a onda da auto-faxina e da mão-de-vaquice e chamei a Lucy pra ajudar com limpeza pesada a cada 15 dias. Cortei umas amizades que já não eram amizades há muito tempo, só pareciam. Cortei mais umas duas ou três coisas e ganhei um tempo enorme, usado pra brincar de maquiadora ou recorte e colagem, pra trabalhar concentrada, pra dormir relaxada, pra papear com prazer.

E daí é só olhar pra trás, hoje, e ver que a maioria dos problemas eu só ACHAVA que tinha. Tinha nada. Não era preciso manter perfil atualizado em rede social. Não era preciso estar sempre disponível, e quem me amava de verdade entendeu rápido. Não necessitava afofar as almofadas a cada meia hora e nem me dispor a fazer 50% mais trabalho pra confiarem no meu taco. Meu taco é como é e só trabalha pelo que recebe agora. Ok, essa frase ficou meio estranha... Mas é isso.

Aprendi a fazer compras de mercado online quando a agenda aperta - e se faltar banana por um dia, ninguém vai morrer de inanição por isso. Aprendi a não atender o telefone quando estou no banheiro, e se for urgente ligarão de novo. Aprendi também a pedir mais ajuda e não me martirizar como uma Scarlett O'Hara dos pobres, sempre dizendo "deixa que eu resolvo". Agora eu digo um pouco mais "se vira, malandro". É gostoso!

Fiquei menos chata, acho. E não fiquei culpada, não, acreditando arrogantemente que o mundo vai desabar se eu não acordar afobada. Cortei muita coisa e foi bom. Recomendo a todos.


Quando eu não posso camelar pelo mercado, o moço entrega aqui. Abaixo a martirização, viva o tempo livre!

8 comentários:

Gabriela Petrucci disse...

Eu tenho que aprender a falar: "se vira, malandro!" urgente! :T

Beijo, Flá

Nanael Soubaim disse...

Quem te achava chata? Manda catar os piolhos do Kojack.

Clá disse...

eu tenho é que aprender a falar não...sou disponivel demais pro meu gosto...mas tb chutei o balde e to me virando!!!!

bjuuu

Lilian disse...

Perfeito! Que bom que você se encontrou! Acho que a gente tem que chegar no limite às vezes pra ficha cair!
Bjs!

Ana Lu disse...

É importante aprender a falar 'Se vira malandro' às vezes. Principalmente pra nossa sanidade mental
=]
Beijoss

Eliane disse...

Eu odeio correria! Odeio me estressar por fazer muita coisa e ter pouco tempo. Já fiz muito isso, hj não faço mais. Por isso, tudo que não está ao meu alcance eu não faço! Não faço mesmo. Não tô nem aí... rsrs... É ótimo!
Bjo, Flá!

Mari Z. disse...

Um dia eu hei de aprender a dizer "não" com mais frequência! Já comecei com essa prática, mas preciso aperfeiçoar um pouco. Dizer um pouco mais "eu quero" do que "eu preciso", não é não?
Beijocas, linda!
Mari.

Daniele disse...

Ai, Flá, sábia decisão, às vezes (no meu caso vezes demais) a gente complica sem necessidade, é bem melhor fazer menos coisas e fazer bem melhor. :)