quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Por quanto andam te comprando?

Tá, a pergunta pode parecer meio grossa. E é mesmo. Não que eu esteja dizendo que você se vende, assim, no sentido vil da palavra. Mas a verdade é que a única que se vendeu e ainda se deu bem com isso foi a Julia Roberts em "Uma Linda Mulher". Calma, eu não estou chamando ninguém aí de mulé da vida, não é nada disso.

Mas é que o trabalho é isso aí, no fim, uma troca de determinada atividade por uma soma em dinheiro. A atividade pode ser intelectual, braçal, não importa: tudo é uma questão matemática simples de horas trabalhadas versus bufunfa recebida. Claro e lógico. Só que hoje parece que não basta mais! "Pode acrescentar na conta a sua alma também?", dizem calados os patrões.

Ninguém que eu conheça e está com a vida profissional na ativa trabalha menos de 8 horas. Há, 8 horas?! Seria algo como entrar às 9h e sair às 17h, é isso?! Inexiste. Só conheço quem trabalhe 9, 10, 11, 12... até umas 14 horas por dia. Alguns param para um almoço de hora, hora e meia - mas considerando que usam esse break ou para fazer negócios, ou para falar mal do trabalho, nem conta, conta?

Alguém de RH podia me explicar como é que isso ficou assim. Primeiro, era o trabalho em si. Passou muito tempo, virou o trabalho em si, mais o trabalho extra, mais uma coisa ou outra para levar pra casa em dia útil, depois no fim de semana, daí vieram viagens de business, eventos, jantares e aqueles dias de... como é o nome daquilo, quando levam um bando de gerentes pra fazer tirolesa e rapel com a desculpa de desenvolver trabalho de equipe? Bom, não sei o nome. Deveria chamar "trote".

E é hora de trabalho que não acaba mais! Se você termina o seu e apanha a bolsa às 18h30 em qualquer escritório, dá a impressão que será metralhada pelos olhares de reprovação. E não só olhares dos chefes, mas dos colegas também! Devíamos estar mais unidos em prol de "oi, eu não sou só uma foto horrenda no crachá, eu tenho vida".

Devíamos pensar melhor em muitas coisas. Por exemplo, que nossos filhos mereciam que um pai levasse na escola e outro buscasse; que houvesse tempo verdadeiro para o almoço e um café decente, sem pedir sopa porque é mais rápido engolir; que quando houvesse uma emergência, tivéssemos a compreensão da empresa para uns dias de ausência; que não se torcesse nariz para consultas médicas, mudança de casa, esperar o novo armário da cozinha... Porque, né, como receber o homem da Casas Bahia em horário comercial se no horário comercial a gente está com a bola de ferro no pé?

Eu desconfio que, sim, as horas trabalhadas cairiam de 14 para umas 7. Mas desconfio também que, daí, as pessoas trabalhariam realmente focadas naquilo, com a bunda na cadeira de corpo presente - e não olhando vidrados pra tela luminosa enquanto pensam no filho doente, em casa, sendo tratado por alguém que não é sua mãe. Desconfio que seríamos mais produtivos mesmo em menos horas, enfim. E mais felizes também, porque é um saco ficar se sentindo culpado por faltar e acabar se arrastando para a firma mesmo com febre de 39 e possibilidade de infectar todo um departamento.

O pior é que, se a gente bota a conta no papel... xiii! A conta nunca parece fechar bem. Querem a alma, mas não querem pagar por ela - e não que seja bom vendê-la mas, sei lá, se for esse o caso, pelo menos que façam uma avaliação justa numa alma humana em bom estado, com pouco uso, potência em alta...

Agora, quem quer fazer uma conta de fato, esqueça o "Horas X Grana" e conta aqui: cada ano tem 52 fins de semana. Mesmo os mais jovenzinhos poderão checar aí, com lápis e papel, que até o fim da vida temos cerca de... no meu caso, chuto uns 2.600 fins de semana. Mixaria, hein, pra ficar desperdiçando com trabalho?

14 comentários:

Beatriz M. disse...

Acho que se meu marido ler isso aqui, ele imprime, emoldura e ainda acende uma vela. Ele é bem desbocado com isso e vez ou outra chega em casa contando dos olhares de condenação que recebe quando diz lá no trabalho que não, não vai fazer hora extra. Vai trabalhar no horário que tem que trabalhar e no resto do tempo vai viver. Segundo ele, as pessoas reagem como se ele dissesse que vai usar o filho pra fazer uma sopa.
Não sei o que aconteceu com o mundo que agora todos vivem como o coelho de Alice no País das Maravilhas, sempre atrasados, correndo, tendo que trabalhar, trabalhar, trabalhar... uff.
Vamos viver, hein?

Patty disse...

Flá, não poderia concordar mais com o seu texto.
Eu tenho horror de workaholics.
Na última empresa, onde eu era estagiária, era normal todo o mundo ter horas e horas no banco de horas. E implicavam legal quando eu saía no meu horário. "Nossa, mas já?".
E eu achava uma falta de respeito quando algum cliente (era uma agência de PP) inventava alguma coisa nas últimas horas da sexta e o chefe falava "se for preciso a gente trabalha no final de semana". Tudo porque o cliente tem sempre razão. E a minha vida, meus planos, não valem nada?

A Sócia da Light disse...

Beatriz, dizem aqui no meu ouvido que "o mundo está mais competitivo", daí tudo isso estar assim. Olha, numa boa, a competição é a gente quem faz. E só engorda o bolso dos outros, salvo raras exceções. Pode, isso?

Patty, eu sou até capaz de entender os workaholics que amam mesmo o que fazem, aqueles que têm paixão máxima pelo seu trabalho - sei lá, se eu fosse provadora de chocolates na Nestlè, vai ver eu seria workaholic! Rss!
O que não entendo é aquele que se esfola todo por 14 horas e nem avalia se gosta mesmo, apenas decide que "é o que tem que fazer". Não é, viu. Precisa ser minimamente bom e divertido, senão é melhor buscar outra opção. Porque nada que é "médio" e ainda te rouba dos seus filhos, da sua casa, da sua cara-metade e dos seus hobbies é bom negócio. Né?

Atena disse...

Perfeito, Flá! Hoje tive que faltar à tarde por estar com cólicas, ter ido ao hospital, etc, e automaticamente me sinto culpada com isso (mesmo trabalhando no serviço público, nem consigo imaginar se estivesse numa empresa privada como seria)...
Lembro que no banco era bem assim, terminar seu serviço e sair no horário era um pecado mesmo! Hoje a estagiária estava chorando porque havia conseguido um emprego melhor (paga o dobro dos 500 reais que ela recebe lá) e ela se sentia culpada de abandonar o trabalho no mês que o bicho começa a pegar. Disse a ela que a culpa disso era da instituição que pagava uma miséria e não dela.
Aliás empresa, embora pessoa jurídica, não é gente, não tem coração nem nada...
Ah, Flávia, eu criei um blog e coloquei você nos links, pode?
Beijos!

Paula Baltazar disse...

Nem precisava vir aqui para dizer que concordo em gênero, número e grau...
Sim, também entendo a pessoa que simplesmente ama o que faz e sente um prazer enorme com isso, mas ainda assim, já é difícil sacrificar as noites e finais de semana.
Imagina trabalhar 12h por dia, sem reconhecimento de nenhum tipo?
Nananinanão!
Abaixo a ditadura da bola de ferro!
:-p

guilherme disse...

Excelente post.

O problema é que tem muita gente cobrando muito barato, nem sempre por necessidade, e trabalhando como um camelo e recebendo às vezes menos atenção do que um.

Quando trabalhei do outro lado do oceano vivenciei que é possível fazer mais trabalhando menos, e que se você trabalha horas extras demais, ou tem atribuições demais e não está dando conta, ou estão te explorando e você está deixando, e o pior: provavelmente está fazendo um péssimo trabalho.

Logo, concordo plenamente com sua crítica.

Dri_ disse...

Ó, eu saio do serviço às 17:00 que é pra buscar o filho na escola. Aí nego pergunta: Cê vai sair cedo hoje? Eu só posso responder: Não, vou sair no meu horário.


Conheço uma meia dúzia que sai do serviço por volta de 20:30, chegando às 08:00. O salário? É bem bom, mas cadê o tempo de gastá-lo? As férias são de 7 dias...

Anônimo disse...

Putz, nem vou comentar, acho que esse post vale pra muita gente dessa familia, me incluindo né Flá? Eu acho PESSIMO, mas ainda não consegui chegar num meio termo... culpa minha mesmo, a gente tem que tomar vergonha na cara e bater de frente dizendo: não, eu vou ter vida também! E como a Dri disse aí em cima, de que vale ganhar mais se voce não tem tempo pra gastar? Bj, Dri

A Sócia da Light disse...

É, Dri, a gente sabe como precisa desse meio-termo, né? Pena que ele tá mais complicado de encontrar do que biquini de passista. :-)

Dri, nem posso te dizer o quanto te cumprimento pela decisão de sair e ir buscar seu pequeno na escola. Aposto que pra ele, que é quem importa no final, isso faz a MAIOR diferença!

Guilherme, tem toda razão, em outros países parece mais natural as pessoas equalizarem profissão e o resto da vida. Uma vez em Roma eu fiquei pasma de ver que, 17h15, o parque já está cheio de pais e mães com crianças pela mão, brincando e passeando. Isso é uma existência de verdade!

Paulinha, quem quer fazer movimento contra essa ditadura põeode-doa-qui!! :-D

Atena, me põe nos links e me diz o blog, pra eu visitar, menina!! ;-]

Chicória disse...

Oi, Flá, o link:
http://chicoriaechicorinha.blogspot.com/
Obrigada! Beijos!

Nanael Soubaim disse...

As pessoas se esqueceram da utilidade das coisas e passam a querê-las para tê-las, assim como esquecem que a utilidade do trabalho é permitir que as tenham e passam a trabalhar para não ficarem sem trabalho.

O mundo ficou de pneus para o ar.

Lady Sith disse...

Eu também acho terrível essa obrigação atual de passar 11 ou 12 horas trabalhando. A cobrança da empresa por essa carga horária por si só já é ruim, mas os colegas pegando no pé são ainda piores. Eu chega às 7:30 no trabalho (sim, sou louca :D) porque gosto de chegar cedo para sair cedo. Quando dá por volta das 17h e eu levanto para ir embora, ficam todos fazendo aquelas piadinhas sem graça e com tom de alfinetada. Isso quando você não é obrigada a trabalhar uito além do seu horário porque as pessoas da sua equipe são ineficientes...

Daniele disse...

Ei, você trabalha disfarçada na minha empresa, confessa vai?
então que é assim, eu concordo com tudo e prá ajudar acabei engravidando outra vez, depois de 4 anos do primeiro filhote, sendo assim, já me deram os parabésn e já estão fazendo as contas dos projetos que precisarão antecipar ou postergar para que eu possa fazer antes e depois de parir...

e eu vá com meus botòes tenho planos felizes de nunca mais voltar deppis da licença maternidade... (que meus chefes não leiam o seu blog e que meus subordinados também não... rá)

enfim...

concordo com tuuuuudo, nos mínimos detalhes...

gente trabalhando mais de 8 horas é? hunf, leia isso aqui... foi um dia aí que quase morri de trabalhar

ridículo.

http://naoseiresponder.blogspot.com/2010/12/o-dia-em-que-trabalhei-17-horas.html
link:

moniquinha disse...

Aaaa....
Nunca trabalhei 8 horas,só 12 e olha
com a falta de funcionário por aqui,ando trabalhando noite sim e outra também,direto ,isso não é vida mesmo,mas estou aqui,me contentando por conseguir buscar filho na escola..tsc tsc...
Vou ali tirar férias(é verdade!) e volto já.