terça-feira, 29 de março de 2011

Com um pouco de álcool e um isqueiro

É assim, como no título, que eu acabaria com a bagunça. Refiro-me não à bagunça pouquinha que toda casa tem, e sim à bagunça clínica. Bagunça clínica é como eu chamo aquela que aparece em dois programas que me tiram o sono, "Obsessivos Compulsivos" (toda terça às 22h no canal A&E) e o recém-lançado "Acumuladores" (toda quinta às 22h no Discovery Home&Health).

O caso é que, mesmo com o álcool e o isqueiro, provavelmente eu jamais acabaria com a bagunça dessa gente. Sendo uma doença - eles chamam em português de colecionismo -, a gente poderia malhar uma fogueirona que a baderna voltaria. Simplesmente porque aquelas pessoas têm um distúrbio de comportamento, e não uma maniazinha de juntar tralha apenas.

Meu problema com isso (e daí quase perder o sono com os tais programas) é que eu acho que tenho um colecionismo às avessas. Eu não gosto de guardar. Estocar me incomoda. Ver roupas que não uso me aborrece. Notar armários e mais armários repletos de objetos sem uso, empoeirados, obsoletos e esquecidos me tira realmente do sério. Sério!

Pode ser aqui em casa (o que não acontece, porque, como eu disse, mando tudo fora), pode ser na casa alheia. Ver acumulação de coisas me dá coceira espiritual. Eu simplesmente não sou capaz de entender as pessoas que guardam troços demais. Tenho agonia de gente que soca em casa bibelôs, peças de vestuário, brinquedos, louças, cacarecos de todo tipo "e aquela caneca linda que o tio Onofre me trouxe da Oktoberfest em 1982!".

Eu não consigo guardar nada que não seja a) de uso diário; b) de uso moderado, porém certo ao menos 6 vezes ao ano; c) de decoração, porém com uma história importantíssima pra mim. Aqui cada coisa que está à vista ou nos armários tem uma serventia. Se não foram utilizados nos últimos três meses, correm sério risco de despejo.

Muita gente - ok, a minha irmã principalmente - critica esse jeito. Diz que é inacreditável o fato de eu "jogar coisas fora". Mas eu explico pra Silvia, ela não entende porque não quer: eu não jogo nada fora. O que não uso é doado, vendido ou reciclado. Na verdade ela não entende porque, mesmo que num nível ínfimo, minha irmã é hoarder (o termo em inglês pros bagunceiros clínicos).

Ela tem uma casa grande - e, eu acho, espaço demais permite crescer em nós a síndrome da acumulação. Lá ela tem jogos de pratinhos com apenas três sobreviventes e bonecas que minhas sobrinhas brincavam há 15 anos. Ela pira comigo, eu piro com ela. Ela não entende como eu posso dar embora os brinquedos antigos da Sabrina; eu não entendo o motivo de guardar o Pedro, boneco desgrenhado que as filhas dela arrastavam por todo canto, soterrado em tralhas no maleiro do quarto. Ou as coisas são brincáveis, ou são doáveis. Xuxar o Pedro lá em cima... poxa, eu acho até um desrespeito com ele! Quem assistiu "Toy Story" concorda, os brinquedos querem ser brincados...

Acontece que a baguncinha nossa de cada dia é um tópico até curioso e divertido, mas a bagunça que aparece naqueles programas da TV a cabo não é pra rir. Dá é vontade de chorar. Eu queria muito entender o cérebro de uma pessoa que compra compulsivamente, não usa e sequer retira as etiquetas, empilha por todo lado (mesmo, até o teto), esquece que existe. E que depois, quando confrontada, surta e vocifera que aquele negócio é a coisa que define sua existência, a mais importante do mundo.

As coisas tomam o lugar das pessoas - e crianças são levadas pelo juizado, animais de estimação ficam doentes, a casa degringola a ponto de apodrecer. Como isso acontece? Por que? Como alguém pode preferir coisas às pessoas? Eu descompreendo.

Tenho pena, mas confesso que tenho um pouco de raiva. Tenho ganas de catar aquela turma e enfiar todos no consultório do psiquiatra - e só deixar sair quem repetir comigo "não devemos tratar gente como coisa e coisa como gente".

Vai ver é a minha síndrome reversa falando mais alto. Mas ainda acho mais negócio gostar racionalmente de coisa ou outra do que me ver sob uma avalanche de bagunça. Pena que às vezes isso seja muito mais complicado e a cabeça, transtornada, não consiga escolher o álcool e o isqueiro.

12 comentários:

Fabiana disse...

Acho que essas pessoas chegam nesse ponto por lá porque pra eles o consumismo é perfeitamente normal. Todo mundo é incentivado a comprar. Daí que no começo dessa doença, ninguém consegue ver se é um comportamento normal de quem gosta de consumir ou uma coisa patológica de quem tá doente. Daí que é normal pra eles comprar sem parar, mesmo que as coisas não tenham utilidade nenhuma.

Tem outros programas também da tv por assinatura que atestam que esse comportamento deles é super comum aquele "Cada coisa em seu lugar", em que as famílias chamam especialistas pra guardar a bagunça, que quase sempre, vem de um consumismo louco. E tem o "Caçadores de Relíquias", que reviram celeiros no interior dos Estados Unidos, mas como essas pessoas vivem em regiões rurais, isso não chega a ser um problema, porque eles tem espaço pra poder ser "doente" (a doença mental só é doença conforme as circunstâncias e tal). Pode ver que tem uns velhinhos que se recusam a vender umas tranqueiras cheias de pó que eles não olham há anos, os mesmos "sintomas" dos obcessivos.

Fabiana disse...

Só pra completar, como proprietária de um diagnóstico de TOC, tenho impressão de que isso não tem a ver com valorizar mais coisas do que pessoas, mas cada um deles deve ter uma história pessoal que desencadeia o comportamento obcessivo. E um comportamento obcessivo sempre gera sofrimento e tristeza. Como você disse, coisa pra psiquiatra e terapia resolverem.

Sócia da Light disse...

Ô, Fabi, você parece seguir tanto quanto eu esses programas de arrumação de vidas, né? Rss! (Eu vejo porque devo me odiar, viu, porque sempre termino meio chocada...).

Olha, eu nunca fui diagnosticada com nada, mas tenho aqui minha (alta) porção de TOC com certas coisas. Ainda assim, não me imagino brigando com alguém que eu amo porque tirou meus livros da ordem de tamanho (sim, eu separo os livros por ordem de tamanho...). Eu apenas arrumo de novo e boa.

Eu não acho que essas pessoas têm que arder na fogueira por serem assim, só quis dizer que eu custo MUITO a entender. Até queria, mas tenho dificuldade, principalmente naqueles casos em que os filhos se afastam ou são removidos por causa do comportamento hoarder. Seja o que for que desencadeie isso, as pessoas deviam receber ajuda pra entender que seus entes queridos sempre têm que vir primeiro, e o TOC tem que ser tratado na sequência. Senão um dia pega mesmo fogo em tudo... e aí, sobra qual opção, né? Ir junto?

Mas eu nem julgo, eu só me abismo.

Spaf disse...

Como colecionador de GI Joes, eu penso no que eu faço como hobbie e como investimento. Um dia eu posso enjoar deles e me desfazer de tudo, como já fiz com várias outras coisas que eu colecionava antes. Meus gibis do Aranha vão pro sebo semana que vem, por exemplo.
Acho que minha posição é um meio termo entre a sua e da sua irmã, Flávia. Gosto de guardar coisas, mas só enquanto faz sentido guardar, quando não faz mais eu só não taco fogo porque vender é mais lucrativo.

Dri_ disse...

Ver coisa acumulada me dá até palpitação!

E casa grande não é desculpa. A minha é bem razoável, mas tenho poucos móveis, o mínimo de artigos de decoração e, acreditem, uma sala completamente vazia... pelo simples fato de gostar dela assim, cheia de espaço kkkkkk

Cismei de trocar o sofá e o móvel da TV, mas pra isso providenciei alguém pra ganhar os antigos! Doo mesmo, sem remorso algum!

Anônimo disse...

Do consumimo eu não sofro, graças a deus! Mas tenho um sério problema em me desfazer de papéis... Desde cartinhas e cartões postais de amigos (alguns estão até no quadro de fotos) até mapas, ingressos, coisas de viagens.
Sou uma pessoa nostálgica por natureza. Às vezes me pego lendo e relendo bilhetinhos da época da escola, e até cartões de natal e ano novo de mil novecentos e dinossauros. E os mapas... adoro mapas! Gosto de guardá-los tanto pra usar nas próximas viagens quanto para ver e rever os caminhos por onde passei e me perdi (descobrindo novas direções).
No meu último mochilão decidi não acumular tanta tralha e durante a viagem fui me livrando dos papéis. Cheguei em casa só com um mapa: o da última cidade.
(...)
O título do seu post foi bem sugestivo pra mim: com muito álcool e alguns isqueiros eu gostaria de acabar alguns problemas (e quem sabe algumas pessoas também?!) que estão me atazanando.
Sara

Mari Z. disse...

Flá, também faço parte do time dos desapegados! Tenho pânico só de pensar em tralhas que ficam acumulando pó e mofo -- mas poderiam muito bem ser doadas, recicladas ou, em último caso, jogadas no lixo.
Esse texto me lembrou daquele caso que vc me contou, de um sujeito (acho que de um desses programas) que ficava passando os papéis, um a um, pela picotadora, pra desapegar. :-/

Raphael disse...

Posso dar uma dica? Tem um outro programa mais incrivel ainda, chamado "THE OCD PROJECT". Infelizmente ainda não estreiou no Brasil, mas dá pra baixar facilmente na web. São apenas 6 episódios e trata-se de um psicologo que leva 6 pessoas com os Transtornos Obsessivos Compulsivos mais variados, desde a pessoa que tem problema com germes, pasand pela mulher que acredita que só de pensar em cancer, o filho vai morrer, até a outra que precisa dar voltas na quadra pra ter certeza que não atropelou ninguém. O programa é mais interessante do que os Hoarders porque mostra o tratamento de choque que o pessoal tem que passar pra se livrar dos TOCs (o que eles chamam de "exposure"). Como todos estão na mesma casa se tratando, é quase um Big Brother de loucos. O final é surpeendente. Será que todos os participantes conseguirão se curar de suas obsessões durante o programa? Não conto, mas é bem surpreendente. Bjs, Rapha

Sócia da Light disse...

Rapha, brigada pela dica, eu vou procurar! Até porque, vai que um dia isso começa a me acometer... Quero saber como termina. Espero que não role sangue. ;-]

Lembra, Mari, aquele que te contei? Era um casal que foi apresentado no programa da Oprah (os dois eram hoarders!!). Ele queria picar todos os papéis numa daquelas maquininhas residenciais, saca? E tinha 19 arquivos de tralhas, documentos com mais de 30 anos... Nuts! Os filhos já não os visitavam há 10 anos, porque se sentiam mal com o mofo da casa. Vê se pode.

Sara, eu não recomendo de fato o álcool+isqueiro porque pode fugir ao controle - e você eliminar as bagunças de todo um quarteirão sem a anuência deles... :-/

Dri, I'm proud of you. hihihi...

Spaf, coleção de fato eu acho lindo e não vejo qualquer problema. Mas coleção é assim como você faz, com um tema específico e um limite (não é bom quando a pessoa decide colecionar carrinhos, por exemplo, e sem medida pode chegar aos 200 mil itens...). Colecionismo é que é fogo, porque não tem qualquer padrão. E só dá jeito com umas visitas ao psico mesmo.

Anônimo disse...

Fla sera que vc assistiu Clean House? Eu adoro assistir, nossa e sei que me encaixo nos quesito coleceionadora. Mas ando num desapego que nem entendo, to doando muita coisa, principalmente decoracoes pq muitas eu nao uso mais nas festas do Brazilian Gourmet Group. Confesso porem que tenho problemas com pessoas que dao fim em tudo, corrijo: QUE JOGAM COISAS FORA! Gaaaaaaaaaaaaahhhhhhh Descobri recentemente que perdi duas panelas de pressao que comprei ai no Brasil, as pretinhas anti aderentes da Clock sabe Fla? So descobri pq minha amiga gravida tava precisando de uma, dai falei pra ela que ia dar a menor que nao usava mais, e quando fui procurar no paneleiro minha gente eu quase enfartei, so achei uma parte da pequena e o resto tinha sido jogado fora no lixo. Eu juro que tenho ganas de esquartejar "o ser inutil" que fez isso, picar e fazer um stew na nova panela que irei comprar assim que pisar novamente em terra Brasilis. Fora isso Fla outro dia eu comprei um espremedor de batatas, "aquele ser" novamente viu que tinha mais que um, e te dou um doce se vc adivinhar qual dos dois espremedores ele jogou no lixo! GAAAAAHHHHHHH
Mica Mancada

Lala disse...

Menina, eu me impressionei foi com a Hoarder que guardava gatos. Quando baixou a intervenção na casa dela, acharam 38 gatos mortos. Minha mãe é uma juntadeira. Agora, vai passar pelo cruel exercício de sair da casa GRANDE na qual viveu por mais de meio século e se mudar para um Cafofo prqueno mas limpinho.
O desapego, às vezes, vem na marra. Mas ainda assim é bom, acredito!

*Renata Costa* disse...

Nossa eu achei que a sindrome de não acumuladora era só minha! Toca aqui Flá o/

Ahhhh vou ali pegar o alcool e você traz o isqueiro :)