quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

A mulher de branco

Se eu fosse espírita, já estaria acreditando que hoje em dia toda família é seguida por almas penadas zelosas que partilham o pão e cuidam dos seres humanos. Como eu não sou espírita, sei que aquelas moças vestidas de branco dos pés à cabeça não estão vagando a esmo em torno dos clãs familiares. Elas estão é bem vivas, cuidando das crianças não do além, mas além da conta. Muito além da conta.

Atualmente parece que ter babá é tão comum e vital quanto ter carro e geladeira. Nem bem a moça de classe média alta engravida, já corre pedir indicações de uma mocinha pra chamar de sua (e vestir de branco). Tudo bem, é verdade que a maioria das mulheres hoje trabalha - e muito - e nem todas querem colocar os bebês na escolinha já aos 5 meses. Elas preferem, assim, contratar ajuda. E a ajuda regular é compreensível. Mas e a ajuda ostensiva?

Pra mim é absurdamente comum sair no fim de semana pra almoçar fora e notar a configuração "pai, mãe, criança, babá" nas mesas vizinhas. Vejam: babá em dia de semana, cuidando para que a criança esteja alimentada, limpinha, cuidada e entretida, natural; babá que precisa estar presente sábado e domingo, dentro e fora de casa, em todas as horas, é bizarro.

Muita gente parece ter terceirizado o trabalho de ser pai e mãe. Não querem (não sabem?) cuidar dos filhos por conta própria. Alguns parecem inclusive ter paúra da própria prole - enquanto a mulher de branco, por outro lado, parece dominar a situação facinho. As pessoas têm os filhos, mas talvez achem um saco estar presente sempre, liderando como um bom guia prático, intelectual e psicológico. Deixam isso pra moça contratada. E vestida de branco, o que parece um traço herdado dos tempos de casa grande/senzala, uma necessidade de diferenciar papéis. "Ela cuida do moleque, mas a mãe sou eu, sociedade! É só notar a roupa branca dela, ok?".

Se isso já me incomoda normalmente, nas férias passou da conta. O casal surgiu circulando pelo hotel, seguido de perto por duas crianças bonitinhas. Ao lado das crianças bonitinhas, a babá. Pô, convocaram a pobre até nas férias? Exagero, hein? Era só fazer a conta: dois adultos, duas crianças, um cuida de cada e tá fechado. Mas não. Mais tarde, vi que também estava presentes avô e avó - já estamos em cinco adultos para só duas crianças, confere? Nem se fossem um Mussolini Jr. e uma Pequena Richthofen seria preciso tamanho séquito, eu acho. Mas a babá estava lá.

Além da situação idiota de a moça cuidar dos pequenos todo o tempo, do raiar do sol ao poente, em todas as refeições, brincadeiras e crises de choro e mimo, o detalhe chocante: a moça só entrava na piscina de maiô, short e camiseta. Short e camiseta. No calor de 35 graus. Sinhazinha, por certo, não achava correto a empregada circular somente com roupa de banho por aí.

Sei que não é da minha conta. Sei mesmo. Mas, ainda assim, não consigo deixar de me ressentir tanto pelos filhos, órfãos de pais vivos, quanto pelos pais. Queria saber se eles conhecem mesmo aquelas crianças, sabem seus livros prediletos, seus jogos favoritos, o que pensam dos colegas, de si mesmos, o que gostam de comer no café da manhã. Penso se têm noção do que estão perdendo entregando até mesmo o mais corriqueiro "operacional" para a moça de branco fazer. Não podem ser pais tempo integral nem aos sábados? Nem por uma hora de refeição? Nem nas férias? Ter filhos pra colocar no porta-retratos me parece uma grande perda, e pra vocês?

Não sendo espírita, eu acredito que a vida é uma só e deve ser muito bem aproveitada junto aos pequeninos - e que a mulher de branco não precisa ser essa entidade constante.

15 comentários:

Fabiana disse...

Flávia Pegorin: Ídola.

Só você pra escrever sobre um assunto tão espinhoso de um jeito todo espirituoso (a rima vem de brinde).

Já vi gente falar que deixa os filhos na escolinha durante as férias porque a criança não larga do pé. Daí eu penso, porque eu tô aprendendo a ficar calada (a terapia serve pra isso) se a minha filha não ficar o tempo todo no meu pé, vai ficar no pé de quem?

Anna Carolina disse...

tudo que eu sempre quis escrever sobre o exagero em pauta tá aí. brigada por isso. me dá nos nervos, e eu nunca entendi exatamente por que. mas acho que é mais por essa diferenciação entre mãe e babá mesmo. herança que não caduca nunca. revoltante e triste isso perdurar assim e ser tão aceito socialmente.

Gabi Petrucci disse...

Infelizmente tem disso na minha família!
A babá vai pra cima e pra baixo junto, sendo que a mãe da criança nem trabalha!
É triste.

Spaf disse...

Flávia, não foi você mesma que escreveu um texto uma vez no Garotas, em que disse que algumas pessoas são mães/pais, outras só tem filhos? Acho que ainda tá valendo.

Tem algumas pessoas que realmente tem necessidade de uma ajuda extra, porque trabalha muito e coisas do gênero, isso aí é demais mesmo.
Assim é muito fácil ter filhos, dá pra ter uns 30, não é você que vai cuidar mesmo =P

Dri_ disse...

Agora que tenho o previlégio de almoçar em casa, tenho que comer muito mais rápido, porque 80% do tempo estou ao lado do Principe, ajudando com uma colherada a mais, apostando corrida ou dando outro banho.
Detalhe: a ajudante está lá, mas tira a mão que o tempo é meu!

Saio descabelada e cansada, mas não imagino outra pessoa cuidando do meu filho comigo por perto.

Nanael Soubaim disse...

Não é da tua conta? Essas crianças vão crescer e dividir a cidade com a Sabrina. Estás cumprindo com sua função de jornalista ao expor sua preocupação de mãe.

A Sócia da Light disse...

Bom saber que eu não sou a única que vê dessa forma, gente. Juro que tento não ser xiita nessa questão - porque, como disse, muita gente precisa MESMO de ajuda com os pequenos. O exagero é que me assombra.

E sabe, Gabi, que isso também já ficou comum! A babá é contratada simplesmente porque a mãe não sabe o que fazer com a criança (o primeiro sinal de imaturidade pra ter filhos e de pânico total diante do pequenino... o que depois cria aqueles nazistinhas de 3 anos de idade).

Spaf, quer se indignar? Eu já soube de uma que teve o primeiro bebê, correu contratar babá; no segundo filho, uma segunda babá contratada! E ela estava dizendo pensar em mais um filho... [Complete aqui com o que você acha que ela fará assim que tiver o #3].

Fabi, Anna, Dri... compartilho todas as opiniões!

Mari Z. disse...

Ai, Flá, o que dizer do seu texto? Concordo com absolutamente cada linha.

Deu até vontade de escrever um livro sobre isso -- depois de passar um ano como a "moça de branco", a minha teoria é de que deveria haver um teste psicotécnico pra ser pai e mãe. E que os que mesmo assim insistissem em ter filhos deveriam ganhar uma boneca pra cuidar pro resto da vida -- daquelas chatas, que berram e falam o tempo todo. ;-)

Beijos,

Mari.

naty c.m disse...

Finalmente posso ler seus textos perfeitos de novo!
Bom, cheguei muito tarde no 'Garotas'...voces já tinham ''ido embora''.
Agora, pode contar com a minha presença frequente nesse espaço! :D

Quanto ao texto... Nem tem o que dizer. Parece que quanto mais o mundo se moderniza, mais as pessoas esquecem dos princípios básicos da sociedade. Deixam de lado seus valores e ideais, para focarem todo seu tempo em trabalho e, principalmente, em si mesmos. Os filhos ficam sempre em segundo plano nesse mundo moderno.
De qualquer forma, como dizem por aí: '' No capitalismo, alguém sempre ganha. ''
Nesse caso, são as babás :D

Parabéns pelo blog... Seria uma honra receber sua visita! :*

mihuda disse...

Para mim esse tema é como política, futebol e até religião.
Passeando no Ibirapuera em um sábado para tirar fotos vi uma cena desta. Pais modernos, com roupas esportivas arrumadinhas, um bebê de + / - um ano no carrinho e uma babá suprindo todas as necessidades.
Também acredito que tem gente que precisa de uma mãozinha extra. Se Deus quiser e ele há de querer que quando chegar minha vez eu não precisarei. E se precisar espero contar com pessoas amadas próximas.
Acho que está aí um ponto importante de se entender as coisas tortas da sociedade de hoje, né?
Só pensa a consequencia de ser criado hoje por uma babá - que muitas vezes é mais importante para o pai do que o próprio filho, este que por sua vez é tido como um acessório necessário para ter uma "vida completa".
A criança recebe carinho, atenção e amor de uma pessoa destratada quando se fala em igualdade social e tem como exemplo a seguir um ser humano que não consegue criar vinculos com sua prole. Bizarro!
Aí as pessoas se espantam com Richthofens da vida. Para mim as coisas são mais simples do que culpar jogos de videogame.

Raq disse...

Vou te convidar para ir às festas juninas dos colégios famosos de São Paulo... É um desfile de uniformes: as babás de branco correndo atrás das crianças, e as mães láááááááá do outro lado, bem longe da bagunça, com extamente a mesma roupa da estação. Deixa eu ver, no ano que eu fui, a moda era bota de montaria por cima da calça, camisa branca e camiseta cinza de trico de manga curta por cima. Um quadro tão bonito de falta de personalidade...

Jaciara disse...

Cheguei hoje ao blog, mas como certeza este texto vai para os meus favoritos. Vou falou tudo o que eu penso sobre o assunto.
E só para exemplificar, cito um caso que vi esses dias num parque aqui em Goiânia:
A babá de branco empurrando o carrinho do filho e a mãe carregando no braço o filho?, não, o cachorro. o Nenê ia no carrinho mesmo. Fiquei chocada com a cena.

A Sócia da Light disse...

Jaciara, essa modalidade ainda era nova pra mim - a da mãe que zela pelo cachorrinho porque ele, sim, é uma criatura indefesa. O filho tem quem cuide, né?

Eu amo os animais, mas eles estão sempre melhor fora do colo, eu acho. Aliás, eu amo os animais, mas essa senhora aí, nem tanto.

;-]

Moni disse...

Flá, eu sou das maes que precisam ajuda! mas assim, a minha Glória (babá) nao usa roupa branca, senta na mesa comer com a gente, e ela me ajuda com o entorno, ou seja, fazer a comida do Julián, cuidar da roupa e tá confesso, ela faz a mochila dele quando a gente vai passear, mas só nos finais de semana.... essa mae (solteira) nova aqui, nao tem vós para ajudar, estou perdoada?

Laura Jane disse...

Muito bom...já está nos meus favoritos..clap, clap, clap....bjos